quinta-feira, 5 de dezembro de 2024

Sobre a paz de espírito

 

Sobre a paz de espírito

 

Àquelas pessoas que esperam que eu irrompa em público calçando os coturnos da ignorância, digo-lhes que os mindinhos dos pés estão aconchegados dentro dos tênis.

Meus pés não são bons condutores, eu ia por aí até ouvi-los:

― Comendo maçãs podres, rapaz?

― Não posso o luxo de passar fome, dona.

Já que vim dar aqui, assumo a função de ser invisível que escuta o mundo como quem usa os tímpanos pra filtrar a vida.

Mostro-me abusado quando peço muita mostarda, muita pimenta e um chorinho generoso de ketchup no cachorro-quente; o abuso é tanto que a moça da barraca pede misericórdia.

Como por mim a boa moça intervém, mastigo fazendo cara de quem está gostando pra dedéu, também faço barulhinhos de aprovação, mas ela diz que aquela gororoba atacará o meu estômago.

Ou a NASA podia estudar um brasileiro feito eu, que erra a mão nos condimentos, ou o brasileiro bem que poderia ir ao espaço pra fabricar alimentos que, embora putrefatos, prossigam saudáveis.

Já que a Saúde tem que ser prioridade, fazendo par com Educação, nada de ficar obrando pelo Nobel de Economia, nada de cair nessa de imaginar como maçãs turgidamente passas possam alimentar milhões que não têm a primazia de traçar restos antes de ratos.

― É horrorível, rapaz, comê-las sem lavá-las?

― Não tem problema, sempre cuspo a parte podre.

Assim como a FUNASA não é Federação de Narigudos Anônimos, assim o IgNobel, que nunca para de remar contra a maré, podia achar um estudo em que houvesse comprovação (cientificamente, de lé com cré) que Zés e Josés tenham ganhado força sem supinos, tão somente ingerindo sobras que até cobras pegam nojo só de olhar.

― Não duvido de que se lhe desse dinheiro, você iria atrás de gente que fornece maçã pela metade do preço. Sem perguntar pela origem, você compraria como quem acha que faz a roda do mercado rodar sem rangido. Rapaz, confesse que estou errada.

― Errada a dona não está, eu é que não soube me comunicar com a madame. O que eu quero dizer é que os meus dentes podres sentem as partes podres da maçã, daí eu cuspir sem ter que experimentar com a língua.

Por um viés da vida menos estapafúrdio, ou os elétrons da manteiga são atraídos pelos prótons do chão ou as margarinas sem sal têm mais nêutrons que um grão de areia.

Haja cisco pra querer colírio que dê alívio?

Pela política de virar a ampulheta pra que se perca mais tempo com o que deveria estar embaixo do tapete, são os visionários da vida real que trocam maçãs podres por espinafres passados, achando que eles são halteres, irrefutavelmente.

― Estou nauseabunda de não ajudá-lo, rapaz. Então, dou-lhe cinco reais. Tome o meu socorro, mas não compre pipoca nem picolé.

― Dona, as minhas maçãs não estão à venda.

― Rapaz! Nem que chova canivete, promete que vai usar luvas ao enfiar as mãozonas em lixo de procedência duvidosa?

― Grato! Grato pela grana!

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 05 de dezembro de 2024.

Nenhum comentário:

Postar um comentário