domingo, 15 de dezembro de 2024

Outro sábado passado a limpo

 

Outro sábado passado a limpo

 

Bem sei, minha querida, que gosto de ver a cara de quem sofre. É hábito horrendo, não nego que o seja, porém, ainda que perceba a dor que isso causa, continuo cutucando a ferida.

Gosto de gente que não esconde a contrariedade. Só que não dou pelota para quem se constrange; não ponho graça nisso de gente que se encolhe quando a machuco.

Gosto de gente que não se intimida e me encara com olhar afiado, porque seus olhos são lâmina do mais rijo aço, fabricado no inexorável que a alma tem por mais recôndito, que é a rebeldia inoxidável que não se deixa corroer por lágrima, suor e sangue.

Excitante é gente que não teme levantar-se como adversária, pois a afronto e a confronto. Excita-me porque preciso equiparar-me a quem não hesita de admitir-se como uma inimiga.

É experiência magnífica, minha querida, testemunhar o que faz uma pessoa que não submerja na banalidade de apagar-se na covardia. Ela não teme demonstrar-se ferida, apresentar-se machucada; a sua cara me diz que, mais do que mágoa, o que a minha língua sonda é mácula que sangra, dói e a desnorteia para caramba.

Minha querida, encontrar quem não grita “ai, carai!” por uma topada no pé da mesa é experiência a ser exaltada, pois isso retrata a pessoa como gente que conhece a dor profunda de saber-se real.

A vida pede que eu esteja atento à gente que me incita a jogar com ela. E topo brincar. Somos iguais. Diferentes mas semelhantes. Somos jogadores dispostos a vencer. E jogo bom vale a disputa.

Não, minha querida, não jogo como se, ao fim e ao cabo, houvesse de tirar uma lição sobre a verdade, sobre a força que a verdade impõe a quem é derrotado. Não se trata de educar quem precisa ser posto no lugar que lhe cabe no mundo.

O jogo é bom porque sangro, suo e, mesmo, choro de raiva quando estou derrotado. O meu apupo é o reconhecimento do malogro.

Ontem mesmo, minha querida, estive na casa do seu tio Ariosvaldo, que pediu que lhe transmitisse o pedido de que o vá visitar o mais breve que seja possível, pois as saudades dele desejam as suas broas.

Ia dizendo, minha querida, que aos sábados eu mesmo lavo roupa, limpo a casa, boto fogo no mato, dou banho nos cachorros, e vou visitar um ou outro parente.

Que o Vadico é uma figura, você mesma sabe como ele é.

Cheguei na casa dele e fiquei olhando. Eu sorria, mas nada dele se interessar por mim, que estava parado no portão.

Na rede parada, o seu tio olhava o gesso da varanda. Devia ter visto alguma trinca. Devia ter sentido que uma trinca pode apresentar-se ou fininha como linha ou algo fundo que nem um cânion.

Sinceramente, seu tio parecia um bobo naquilo de ficar imaginando rachadura como um córrego da caatinga ou um Rio Negro no inverno amazônico feito o Itaimbezinho.

E foi assim que eu cortei a viagem do Vadico:

― Que vadiagem é essa, maninho?

Ao que ele atalhou:

― É a vadiagem do sábado, Aristides.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 15 de dezembro de 2024.

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