domingo, 1 de dezembro de 2024

Sujeito oculto

 

Sujeito oculto

 

Caladão; se contido nos braços, bem serelepe das pernas; em nada um traquinas, embora desconfiassem do seu olhar, de quem está rindo por dentro, não que fabricasse esse riso como pérola numa ostra (nele) ou feito pedra na vesícula (aos outros). Em síntese, o caladão era um esquisito, não um esquisitão dado a maluquices; era bicho do mato, só um que, pelo sorrisinho acabrunhado de gente a declinar-se ímpar, era um camarada arredio de tão urbano.

Não que a sua urbanidade fosse nódoa ou mágoa.

Tão logo a claridade do dia passava pelos vãos da janela, ele abria os olhos. Depois de espreguiçar-se, uma espreguiçada para libertar-se do silêncio que o sono impõe aos sentidos e outra, pra desgarrar-se da imobilidade de quem sossega submerso na escuridão, só então é que punha os pés no chão.

Ainda na cama, embora atento aos ponteiros do relógio digital retrô sobre o criado-mudo, não se censurava por qualquer bobagem que o fizesse sorrir, que nem sonhador, não feito bobo.

Se pudesse iria ao ribeirão que os seus avós muito citavam; e lá iria banhar-se, defecar e urinar, barbear-se. Como esse passado só existe por perdido, não há de ser nenhuma idade de ouro ter que se submeter ao chuveiro, ao espelho, ao vapor que o embaça.

Depois de conferir as notificações e só depois de ler as mensagens que precisavam de ser lidas, ele se vestia.

Esmerava-se em pentear-se, em armar o coque no cocuruto, em se aprumar no terno. Checava: sem caspa nem fiozinhos a enfeiarem-no. Ajeitava o lenço, ajeitava-o para que as iniciais do seu nome ficassem à mostra. Escancarava os dentes, verificava a gengiva. Posto que tudo indicava estar em ordem, punha no olhar o sorrisinho de gente sorrindo a notar-se como quem não estivesse.

Dirigindo, mantinha o rádio desligado. Indo pro trabalho, precisava de concentração. Projetando-se em serviço, tinha que dar razões que o inocentassem. Como a pilha de planilhas pintava o retrato de pessoa sem norte no mundo, imprescindível era assegurar-se acerbo crítico da indolência.

No sinal vermelho, lembrou que no quintal dos avós havia galinhas, os ovos das omeletes eram sempre saudáveis, havia cães vigiando os ovos, as galinhas e o cachorrão do vizinho que tinha propensão a pular o muro a seu bel-prazer.

Trocando a marcha, chegou a suspirar, pois a dona do vira-latão da casa vizinha veio-lhe esplendorosa, veio-lhe, como toca ser toda musa olímpica, veio irresistivelmente belíssima.

Como fogo-fátuo some no éter, a bela o deixou no vácuo.

De terno preto, colete preto, lenço vermelho, gravata preta, camisa preta e sexagenária cabeleira ainda pretíssima, o homem ao micro se achava invisível, inapreensível, o inimputável.

Petrificou-se ao descobri-la tão mundana no Face, no Insta, no Xis, até na mensagem da caixa postal ― quem liga sabe que não adivinho quem seja.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 01 de dezembro de 2024.

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