terça-feira, 10 de dezembro de 2024

Camarada de sorte

 

Camarada de sorte

 

Chegam as Festas. Por meias, bonecos e bugigangas eletrônicas, corre-se. Mesmo sem promoções, suplica-se que a troca de empurrões não induza às vias de fato. Afortunados consumidores, haveremos de sobreviver até o Ano Bom.

Frente a frente com a Dona Cremilda, noto que carregamos batatas, bananas, caixinhas de suco e, bingo!, panetones e chocotones.

― Dispensando fraldão e ômega 3?

― Não venho da farmácia, engraçadinho.

Pelo sorriso chocho, a graça está em dizer algo sem graça.

Vem aí o Natal. Por arroz com uvas passas, azeitonas sem caroço e pimentão bem picadinho, a mesa é posta. Ainda que faltem cadeiras, sobrarão facas e garfos pra peru, frango e lagarto. Venturosos glutões, não enfartaremos até o Ano Bom.

Encontro Aristeu; vejo que ele traz partituras numa sacolinha e, pra que a pergunta seja inevitável, uma sanfona ao ombro.

― Quede o violão?

― Quero fazer uma surpresa, meu amigo.

Vem aí a Virada. Para que a contagem regressiva encurte a jornada até o novo ano, haverá champanhe, água e refri. Embora passe raiva a gente que peça vinho, lentilha e as sete ondas, sua roupa íntima será branca como a neve caindo na tevê.

Dobrando a esquina, Domingos aparece com um violão.

― Essa é boa!

― Não espalhe, meu amigo, mas vou fazer uma surpresa.

As Festas estão à porta. Virá o Natal. Virá a Virada. Estarei à mesa, beberei refri, brindarei pelo que houver de saudar. Talvez eu sorria por bobagens. Quiçá fale sério sobre a concórdia universal. Quem sabe eu estranhe o silêncio das entranhas, até correr me livrar das passas.

― Você, sim, é que é um camarada sortudo. É ateu. É solteiro. Você não tem que correr atrás de presentes. Você não precisa perder o sono sobre qual o presente certo pra esposa, pro filho ou pra filha. Você não sofre se a vendedora mostra camiseta com abstrações geométricas ou roupão com rosas bordadas. Como nem precisa ver a correria na tevê, você tem o privilégio de deitar-se na hora que quer. Você pode acordar no dia seguinte sem achar que as meias caídas no chão estejam órfãs de lareira e chaminé e do saco gordo do velho escroto. Você, sim, é o tipo de sujeito que nem pede pra ser lembrado que o Papai Noel é, sim, um sacana que ignora os ateus. O babaca só se preocupa em agradar gente que tem família se empanturrando à mesa. A besta ouve apenas quem espera ganhar o que pôs na listinha. Ora, a lista nem precisa ser escrita, pois à gente visitada pelo Bom Velhinho basta querer, basta ter a alma concentrada.

Pessoa tão gente boa que vende paçoquinha a dois reais cada uma, sem vontade de causar embaraço, alimentar ressentimentos e mostrar que o copo está meio vazio, já que eu sou este ateu bem-apessoado, prefiro desejar-lhe um Feliz Natal, um Próspero Ano Novo e que você garimpe uma graninha pra comer, beber à beça e divertir-se sem culpa, pois, ô sorte grande!, já vem o Carnaval.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 10 de dezembro de 2024.

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