domingo, 22 de dezembro de 2024

Amanhã vai chover

 

Amanhã vai chover

 

Está abafado. Quando o suor empapa a gola da camiseta, trato de cuidar-me lúcido. Embora não agonize em irrealidades, desespero que não me saberei vitimado pelos surtos intermitentes daquela razão além da razão, aquela rotulada como loucura.

Deixe-me adivinhar!

Banco o poeta visionário, canto vaticínios, sou vate vagabundo que senta na praça para solidarizar-me com meus semelhantes, com a boa gente da minha terra ― ou estou mesmo surtado?

Prevejo que, ainda hoje, choverá. Podem confundir-me as nuvens branquinhas que talvez não escondam chuva alguma. Entretanto intuo, a chuva virá porque não desejo que ela venha.

Quem sabe o alcance de minhas obscuridades mentais?

Será para hoje, que venha a chover o tanto que recuso. Ainda que as nuvenzinhas brancas brinquem comigo, não silencio esse adivinho que trago nas vísceras.

Desentranho esse estranho que banaliza predições, pelo vivido.

Apenas pelo que vivi, projeto o que esteja fora dos meus domínios, que a razão alucinada gera linguagem, diz por imagens, cala em mim que sou náufrago a agitar braços, pernas e lábios, uma vez que o vivido que novamente me incendiará as entranhas dará o futuro que não vejo, não ouço nem fomento.

O homem do realejo vem ler-me a sorte que o mico terá tirado para mim, fortuna a ser revelada só depois das sete colheradas de lentilhas, no primeiro minuto do Ano Bom.

Neste primeiro minuto, me animarei a não esquecer.

E foi em setembro que li a entrevista do jornalista João Céu e Silva: na longa viagem pela realidade, foi espetada essa agulha na têmpora: agora lateja em mim a demência do António Lobo Antunes.

E posso resumir 2024: peguei a virose que compartilharam comigo; tive a tendinite no Aquiles que me custou duas semanas de molho; tive Covid; chorei quando a dor fez-me sofrer pelo medo de perder-me em mim; minhas lágrimas foram mínimas, mas foram sentidas, tanto foram que me puseram desperto, devastado, infernizado na insônia daqueles dias de travessia noturna ao meio-dia.

Vivi as trevas. Soprei-as. Fui o vento que precisei ser. Fiz das trevas a brasa que me despertou pro fogo de respirar-me lúcido.

E respiro o ar parado. Este mormaço. Respiro, sou o mormaço que para um instante pra que seja notado, percebido, sentido, seja sentido como aquilo que ele é: o oxigênio necessário.

Sem oxigênio não há chama? A chuva abrasará a chama?

Serei a chuva que não sei bem o que me fará, mas choverei. Hei de chover sobre a casa da árvore, sobre as ruínas, sobre o que sobrou no abacateiro, sobre as tábuas em que chorei e gargalhei.

A casa construída quando eu era menino.

E papai trouxe madeira, martelo, serrote e pregos. Bem me recordo, fui eu quem pintou o nome. Pintei-o em azul: Casa dos Ventos.

Herdeiro deste reino sem rei, amante de ruas e praças, canto a Lua e a chuva, e irei cantá-las até que eu não possa.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 22 de dezembro de 2024.

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