quinta-feira, 12 de dezembro de 2024

O fantasma da XV

 

O fantasma da XV

 

A redundância é uma característica da minha persona, diz quem me conhece pelo que acha nas minhas redes sociais. E eles me conhecem muito bem, justamente pelas redes sociais que não são minhas, ainda que o meu nome esteja lá como vórtice daquelas relações.

Como tais relações prescindem de relacionamentos, basta que haja um nome para imediata conexão entre carne e sombra, é de bom-tom que se diga que esse conhecimento é extravagante, porque o espírito do momento provê as extravagâncias que o nutrem.

Pela figura que seguem, entendo-me idiota.

Vejo que dão joinha a uma fotografia bem antiga, de 2005, quando, em Santos, fui fazer endoscopia. Podem curtir, ainda, outra foto antiga, já em 2014, quando, em Piracicaba, eu comia um linguado à beira-rio. Pra que passe por desapercebido, dão à aprovação uma foto, clicada ontem, de quando eu saía duma colonoscopia duca!

O peculiar delas todas? Visto polo azul-bebê.

Serei tão idiota de vestir a mesma camisa por anos?

Deixo estar. Olhando bem, dá para reparar que é o azul-bebê o que se destaca. Mesmo que as peças sejam outras, eu pareço sempre usar a mesma.

Poucos compreendem que este idiota nada tem a oferecer que não esteja no que escrevo. Custa-lhes entender que me prefiro submergido no silêncio de quem supõe nada mais ter a oferecer que não esteja no que pressupõem seja uma piada.

Uma vez pressuposto que fico muito bem de azul-bebê, pressionam pela minha validação.

Pois é, Carlito, também perdi o bonde e a esperança. Não hei de ir às ruas como fumaça, feito lembrança de quem ateia fogo nas próprias vestes pro seu espectro ser dado em pó.

Quando atropelam para que o corpo seja venerado, vou às praças; sabendo ir pelo pranteado, seguirei a rir-me.

Do pranto ao riso, reitero que assim seja.

Se decaí do ouro ao barro? Com o barro moldarei bezerros de ouro? Sangrarei pelas mãos de quem lapida?

Do riso às gargalhadas, pleiteio que seja assim.

Galgarei a ladeira da memória. Respirarei o ar que passa pelo pico que posso atingir. Estarei lá enquanto comigo continuar a estar. Pelos anos que sobram, procuro me retratar vivo.

Vivo estive na XV. Sentei à entrada da Confeitaria Schaffer. Com a animação de incauto, à mesa que pareceu ser adequada ao propósito, fiquei-me à espera do Sugador de Histórias.

Embora a tarde fosse cinzenta, e garoenta, no afã de idiota que se segura, uma vez que minha cruzada era de fanzoca solitário, de gente feliz por baixar a guarda quando contasse entrar no radar do Vampiro, o meu cérebro ardia.

Na graça de ‘78, as chamas da alma restaram fulminantes, capotei após uns quantos cafés e por não sei lá quantos cigarros. Já era tarde, bem tarde, porque nunca mais me veria seduzido pelo sujeito de boina, barbicha e caninos eminentes.

O Sr. Dalton devorado por um idiota?

A vaidade seja dita:

― É fogo!

À vera, seja dito:

― É foda!

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 12 de dezembro de 2024.

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