quinta-feira, 19 de dezembro de 2024

Desapontamentos

 

Desapontamentos

 

Os cachorros latem. De repente, grunhem e saltam. De feras, que horripilam atrás das grades que demarcam a rua e a casa, a bichinhos brincalhões que se deixam acariciar pelo folgado que balança na rede da lavanderia da minha casa, os cães agem assim com Erasmo, e só com ele, quem sabe por ele ser o mais frio dos meus amigos, um ser expressamente racional.

Pessoa cuja argúcia está em pintar e bordar como quem domina as próprias taras, Erasmo é o único sujeito que eu conheço que despreza as implicações de pular o muro sem a vênia do responsável do imóvel, que acha natural persuadir com afagos os animais de outrem para que não o ataquem e, sabendo que nunca me faltam latinhas na geladeira, mandar um zap pedindo a mim que lhe seja bom hospitaleiro.

Como não quero me aborrecer com quem se acha “de casa”, peço que entre e sirva-se ou faça o que bem entender porque estou com dor nas articulações do dedão do pé, obviamente pelo acúmulo de ácido úrico, suponho, já que, há anos, passei pelo mesmo problema e foi-me dito que era gota, justamente pelo excesso de ureia no corpo.

Ele entra, abre uma latinha e, acompanhado dos cães, vem prosear com este que conserva o pé avariado repousando em um pufe.

Sem criticá-lo pela audácia de trazê-los consigo, ordeno aos bichos que, presto!, voltem à vigilância do meu domicílio.

Uma vez entendidos, não subirei o som da TV.

Dirigindo-se a nós que o assistimos, um septuagenário diz que não tinha nunca testemunhado uma coisa como aquela, que jamais na sua vida vira bicho tão impressionante, que a foca grandona era magnífica, que o leão-marinho transmitia a paz que iria mostrar aos netinhos, que a esperteza do lobo-marinho dizia a ele que tomasse o sol de Ipanema a banhar-se novamente na água fria do Atlântico.

Erasmo, sempre lógico, diz que o indivíduo veio com uma corrente polar, que o jovem pescador desgarrou-se do bando por inexperiência, que o bicho só é fofinho para quem o fotografa.

Erasmo não tem câmera, celular e olhos para as supostas fofurices do mundo, ou seja, ele não é um sujeito sentimental.

Informam que os juros vão subir, que a inflação vai subir, que será imprescindível impedir que o salário mínimo suba junto, que a inflação não tem que indexar a economia toda, que os pobres ficarão bem mais pobres se o salário mínimo seguir sendo empregado como instrumento de combate à pobreza.

Erasmo diz que o pobre tem que estar consciente da colaboração benéfica que ele pode proporcionar à Economia. Porque na fabricação do pãozinho de cada dia entra trigo importado, na tarifa do ônibus entra o preço do diesel que não pode causar prejuízos à Petrobrás, na foto do lobo-marinho de Ipanema entra o custo pelo uso de satélite que não funciona de graça.

Desligo a TV, e peço uma cerva.

Sem mais, Erasmo precisa ir ao banco para saber quanto é que lhe rendeu a poupança.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 19 de dezembro de 2024.

Nenhum comentário:

Postar um comentário