Desapontamentos
Os cachorros latem. De repente, grunhem
e saltam. De feras, que horripilam atrás das grades que demarcam a rua e a casa,
a bichinhos brincalhões que se deixam acariciar pelo folgado que balança na rede
da lavanderia da minha casa, os cães agem assim com Erasmo, e só com ele, quem
sabe por ele ser o mais frio dos meus amigos, um ser expressamente racional.
Pessoa cuja argúcia está em pintar e
bordar como quem domina as próprias taras, Erasmo é o único sujeito que eu
conheço que despreza as implicações de pular o muro sem a vênia do responsável
do imóvel, que acha natural persuadir com afagos os animais de outrem para que não
o ataquem e, sabendo que nunca me faltam latinhas na geladeira, mandar um zap
pedindo a mim que lhe seja bom hospitaleiro.
Como não quero me aborrecer com quem se
acha “de casa”, peço que entre e sirva-se ou faça o que bem entender porque
estou com dor nas articulações do dedão do pé, obviamente pelo acúmulo de ácido
úrico, suponho, já que, há anos, passei pelo mesmo problema e foi-me dito que
era gota, justamente pelo excesso de ureia no corpo.
Ele entra, abre uma latinha e,
acompanhado dos cães, vem prosear com este que conserva o pé avariado repousando
em um pufe.
Sem criticá-lo pela audácia de trazê-los
consigo, ordeno aos bichos que, presto!, voltem à vigilância do meu domicílio.
Uma vez entendidos, não subirei o som da
TV.
Dirigindo-se a nós que o assistimos, um
septuagenário diz que não tinha nunca testemunhado uma coisa como aquela, que jamais
na sua vida vira bicho tão impressionante, que a foca grandona era magnífica,
que o leão-marinho transmitia a paz que iria mostrar aos netinhos, que a
esperteza do lobo-marinho dizia a ele que tomasse o sol de Ipanema a banhar-se
novamente na água fria do Atlântico.
Erasmo, sempre lógico, diz que o
indivíduo veio com uma corrente polar, que o jovem pescador desgarrou-se do
bando por inexperiência, que o bicho só é fofinho para quem o fotografa.
Erasmo não tem câmera, celular e olhos
para as supostas fofurices do mundo, ou seja, ele não é um sujeito sentimental.
Informam que os juros vão subir, que a
inflação vai subir, que será imprescindível impedir que o salário mínimo suba
junto, que a inflação não tem que indexar a economia toda, que os pobres
ficarão bem mais pobres se o salário mínimo seguir sendo empregado como
instrumento de combate à pobreza.
Erasmo diz que o pobre tem que estar
consciente da colaboração benéfica que ele pode proporcionar à Economia. Porque
na fabricação do pãozinho de cada dia entra trigo importado, na tarifa do
ônibus entra o preço do diesel que não pode causar prejuízos à Petrobrás, na
foto do lobo-marinho de Ipanema entra o custo pelo uso de satélite que não
funciona de graça.
Desligo a TV, e peço uma cerva.
Sem mais, Erasmo precisa ir ao banco
para saber quanto é que lhe rendeu a poupança.
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 19 de dezembro de 2024.
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