Miserabilíssima
pessoa
Exceto quando estou insuportavelmente
feliz, no mais, o mundo é intragável. Insuportavelmente feliz, há uma
suspensão, há essa bolha a isolar-me da realidade que é verdadeiramente intoxicante.
Sem que mãos e pés toquem água e ar, flutuo
com a bolha e levito dentro dela. Sem poder consciente sobre a minha pessoa, experimento
este estado de exceção.
Percebo, a realidade não existe pra que
eu seja feliz o tempo todo, ela existe pra que sinta lampejos, tenha
fulgurações, flutue e levite que nem bolha, enquanto puder, até que, de alguma
forma, exploda.
Por um lado, ela explodir é banal; por
outro, saber viver pressupõe essa arte de produzir bolha confiando que
possa.
É quando me sinto insuportavelmente
feliz que a sutileza do mundo sussurra nos meus tímpanos: acredite em você;
apesar de você, confie ser a pessoa certa para fazê-lo feliz; sinta-se à
vontade, feliz.
Em tais circunstâncias, tanto não caibo
em mim que ouço os outros sem interrompê-los. Escuto-os, pois valorizo minha
escuta. E sou digno de ser essa pessoa que ouve sem interpor minhas opiniões às
de quem veio desabafar, congratular-se, ou sondar-me.
Ainda que muitos venham convencidos de
minha conversão ao que pensam, ouço. Sorrio de volta, porque a generosidade da minha
escuta faz perceber-me ainda insuportavelmente feliz.
É comum dizer que bocejo desperta a
vontade de bocejar em quem sequer esteja com sono, eu, entretanto, não creio
que a felicidade seja transmissível, que ela funcione por contágio.
Ainda que eu sorria, faça cara de bobo,
aja feito idiota, pense como imbecil, vire o sortudo que acha na rua um volante
da Mega da Virada, mesmo assim, a felicidade insuportavelmente minha continuará
sendo minha, essa que todo mundo tope bulir até estourá-la.
Assim como me surpreendo
insuportavelmente feliz pra estourar de repente, assim acho espantoso trabalhar
o momento para que o mundo me permita seguir sendo esse camarada pacato, um
sujeito acalentado pelo maravilhoso que é estar insuportavelmente feliz.
Entendo que desejem estourar-me, só não sou
favorável a estourar quando me queiram estourado.
Se palavras são espinho, prego ou
qualquer coisa pontiaguda? Sei, mas estar insuportavelmente feliz não me faz ser
da mesma natureza de uma bolha de sabão.
Essa minha pessoa insuportavelmente
feliz tem a petulância de me acreditar diferente das bolhas de sabão.
Vaidosamente flexível às verdades que
não hão de perfurar a minha pele, assim me tomo impassível a sopros.
Adejo soberbamente impermeável aos
perdigotos de quem saliva a troco de nada, assim o vento me carregue como
queira.
O vento... Entretanto, o vento...
Sob o Cruzeiro do Sul, à vista das Três
Marias, ao luar da Lua Nova, o vento lambe a noite no meu rosto.
Miseravelmente triste, me descubro não
mais que um cisco?
Atchiiim!
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 26 de novembro de 2024.
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