terça-feira, 26 de novembro de 2024

Miserabilíssima pessoa

 

Miserabilíssima pessoa

 

Exceto quando estou insuportavelmente feliz, no mais, o mundo é intragável. Insuportavelmente feliz, há uma suspensão, há essa bolha a isolar-me da realidade que é verdadeiramente intoxicante.

Sem que mãos e pés toquem água e ar, flutuo com a bolha e levito dentro dela. Sem poder consciente sobre a minha pessoa, experimento este estado de exceção.

Percebo, a realidade não existe pra que eu seja feliz o tempo todo, ela existe pra que sinta lampejos, tenha fulgurações, flutue e levite que nem bolha, enquanto puder, até que, de alguma forma, exploda.

Por um lado, ela explodir é banal; por outro, saber viver pressupõe essa arte de produzir bolha confiando que possa.

É quando me sinto insuportavelmente feliz que a sutileza do mundo sussurra nos meus tímpanos: acredite em você; apesar de você, confie ser a pessoa certa para fazê-lo feliz; sinta-se à vontade, feliz.

Em tais circunstâncias, tanto não caibo em mim que ouço os outros sem interrompê-los. Escuto-os, pois valorizo minha escuta. E sou digno de ser essa pessoa que ouve sem interpor minhas opiniões às de quem veio desabafar, congratular-se, ou sondar-me.

Ainda que muitos venham convencidos de minha conversão ao que pensam, ouço. Sorrio de volta, porque a generosidade da minha escuta faz perceber-me ainda insuportavelmente feliz.

É comum dizer que bocejo desperta a vontade de bocejar em quem sequer esteja com sono, eu, entretanto, não creio que a felicidade seja transmissível, que ela funcione por contágio.

Ainda que eu sorria, faça cara de bobo, aja feito idiota, pense como imbecil, vire o sortudo que acha na rua um volante da Mega da Virada, mesmo assim, a felicidade insuportavelmente minha continuará sendo minha, essa que todo mundo tope bulir até estourá-la.

Assim como me surpreendo insuportavelmente feliz pra estourar de repente, assim acho espantoso trabalhar o momento para que o mundo me permita seguir sendo esse camarada pacato, um sujeito acalentado pelo maravilhoso que é estar insuportavelmente feliz.

Entendo que desejem estourar-me, só não sou favorável a estourar quando me queiram estourado.

Se palavras são espinho, prego ou qualquer coisa pontiaguda? Sei, mas estar insuportavelmente feliz não me faz ser da mesma natureza de uma bolha de sabão.

Essa minha pessoa insuportavelmente feliz tem a petulância de me acreditar diferente das bolhas de sabão.

Vaidosamente flexível às verdades que não hão de perfurar a minha pele, assim me tomo impassível a sopros.

Adejo soberbamente impermeável aos perdigotos de quem saliva a troco de nada, assim o vento me carregue como queira.

O vento... Entretanto, o vento...

Sob o Cruzeiro do Sul, à vista das Três Marias, ao luar da Lua Nova, o vento lambe a noite no meu rosto.

Miseravelmente triste, me descubro não mais que um cisco?

Atchiiim!

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 26 de novembro de 2024.

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