terça-feira, 12 de novembro de 2024

Fazendo bico

 

Fazendo bico

 

Comemoram o quê?

Não me levanto do sofá e não paro a música nos fones. Há clarões; alguns estrondos são bastante fortes pros tremeliques da janela. Subo o som; temo, pois sou impulsivo quando deveria ficar zen.

Mal a noite começando... O que acontece?

Provavelmente esteja em campo o Corinthians ou os flamenguistas da cidade anunciem-se confiantes pra decisão com o Galo Mineiro.

Comemorem o que seja, isso não me demove. Tenho musiquinhas pra ouvir. Quero-me menos afoito, deixo que o algoritmo vá tocando as canções. Não que o aleatório da vida tenha o condão que me comova, fico no sofá, vou bebericando a minha água.

Mesmo sem sede, considero a boa hidratação que os bons médicos indicam a quem almeje o melhor para si.

Não destoarei. Não serei desafinado. Não quero dobrar minha voz, até porque não dou no couro. Pra que posar de corajoso, guerreiro do povo, pra quê? De jeito nenhum, não me exaltarei.

O mundo ensina a ser menos inocente?

Não abro a boca porque eu preciso aprender a me calar. A vida não para de mostrar com quantos paus se faz uma escada, só não preciso ir atrás do dragão da torre mais alta. Sim, o mundo educa pra inocência menor, a me deixar à vida que me leva. Sem dramalhões, ir indo a me levar. Ir indo até onde der para ir, sem tomar da vassoura como lança. Sem me lançar à arena, que não sou cristão nem leão.

Com o diabo que estou magoado!

Hoje o mundo louva o progresso. Sou progressista, apoio a ciência. Ainda que os cientistas protestem por verba, a gaita anda curta no meu bolso. Com a água que bebo não afogo a raiva, pois raiva não é mágoa. A raiva é pavio curto que dá vida a dragões que não existem.

Ficarei em casa nesta noite de sábado. Escutarei música até que o sono venha. Não brigarei com o corpo, porque o cansaço pesa.

O que me pesa na mente?

Reconheço que as ideias têm começo, meio e veredas pelas quais me perco. Quando extraviado, não babo por vodca ou caipirinha.

Quero cochilar? Nem preciso querer, a aurora virá.

Galos cantarão, cães latirão, crianças gritarão, ciclistas passarão e, às dez da manhã, um bocado de gente adiará o fim dos tempos quando pagar a conta na boca do caixa do supermercado da esquina. Pois sim, domingo às dez, ainda haverá muitas esquinas na cidade.

Se eu deveria prestar atenção ao que meu corpo fala?

Neste sábado à noite, nem pra isso eu presto.

Se estivesse interessado, sentaria na varanda. Não me deitaria na rede, sentaria no degrau. Ficaria à vista de quem estivesse passando, e cumprimentaria quem apenas olhasse na minha direção.

Se fosse educado o bastante, iria ao portão, daria fogo a fumantes sem fósforo, acharia a lua esplêndida, e diria que um chopinho não faz mal a ninguém, até a quem houver de pedir-me um chopinho dourado para tornar menos sombrio este sábado à noite.

Mantenho os fones sobre meus ouvidos?

Para assobiar direitinho, eu faço bico.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 12 de novembro de 2024.

domingo, 10 de novembro de 2024

Ainda pulsa

 

Ainda pulsa

 

Mesmo que a batida do joelho na cadeira doa pra caraca, tudo neste mundo tem lado positivo. Faço minha parte para a dor sumir, eu choro. Massageio onde dói, até derramo lágrimas porque isso ajuda a limpar os canais lacrimais. Que o lado bom também é isso, que a dor me faz sentir que estou vivo. Acredito que não penso bobagem. Digo que viver é sentir-me. Penso que viver é perceber-me vivo, sujeito a dores. Mas não há dor eterna, não sei de ferimento que não cicatrize. Me recupero e confio que haja recuperação. Tenho fé que continuarei a curar-me.

Cristo conhece o meu coração, e sofre. Ele sofre, mas não interfere. Ele mostra que silêncio é ingerência benigna. Cristo salva pela cura.

Sei que preciso me intrometer no que penso. Comigo há sofrimento porque sei que provoco dor. Eu magoo porque sou um sujeito que sabe que o melhor modo de não aumentar as dores do mundo é viver tendo a antecipação do que provocarei. Preciso saber por mim qual a mágoa da dor sentida que trarei ao mundo, a quem esteja por perto e a quem trago dentro de mim.

Se eu tenho consciência limitada, paciência. Sou um camarada que não antevê o que há virando a esquina, toco em frente. Dobrando-a: o que vejo são carros estacionados; desvio dos buracos; piso fezes; viro a cara quando não tenho esmola.

Muito me orgulho de não ter automóvel que polui o mundo. Vaidade boa é não defecar na calçada só para as pessoas tomarem tombo. Não invejo quem dá esmola como se tirasse o pão da própria boca. Sei que o amor que me comove é que nem o amor que separa água e óleo, já o resto são palmas ao fim da oração.

Cristo conhece as minhas ânsias, e alegra-se. Ele dá vivas porque tenho pernas curtas. Ele se condói porque ando ligeiro pela brevidade dos meus passos. Cristo se rejubila, pois sei ser pontual.

Recostado ao poste defronte do prédio onde trabalha, o camarada nem faz conta que mata o tempo sem sofrer pelo que pensa, ele fuma ou o turno iria arrastado pela madrugada afora.

Tragando devagar, escarrando de vez em quando, encolhendo-se ao sabor do ventinho, ele bem que podia ficar na guarita, mas não, ele precisa ir e vir diante do prédio, até que enjoa e vai à esquina.

Ele vê que um casal está vindo.

Foram eles que, numa noite dessas, o pegaram desprevenido, que esse homem e essa mulher pediram um cigarro, pediram fogo, ficaram pro papinho bom que aquece a alma ― por óbvio, a alma deles.

Ele deu um cigarro, mas cada qual queria um.

E toda noite é isso: o homem e a mulher filam pra si, nada de dividir um mísero cigarrinho, pois não são disso; não se incomodam de dizer da fome que têm; ele e ela precisam beber pinga.

Como ele compra um litro de pinga e dois maços de cigarro, aquele homem e aquela mulher agradecem ― que Deus o abençoe; e que Ele lhe seja justo e lhe dê em dobro o que deseja; que suas preces hão de chegar ao Criador; amanhã será melhor; como isso basta, amém.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 10 de novembro de 2024.

quinta-feira, 7 de novembro de 2024

O último homem

 

O último homem

 

Ninguém me ofereceu o papel, acabei desempenhando-o por falta de outrem. Já sentado em casa, vendo TV, é que fui ter consciência da minha atuação. Mesmo que soubesse que o fazia, não o faria de outro modo. Como era esperado, eu agi naturalmente. Sem ironias tacanhas, não pesei no lombo de ninguém.

Era terça-feira. Havia dias que o chuvisqueiro não parava. Mesmo chuviscando, não adiei a ida à lanchonete. Semanalmente, vou lá. Para comer salaminho e beber guaraná, vou no começo da noite. Entre seis e meia e sete, chego simpático. Chego cumprimentando todo mundo e sento-me à mesa. Pra não ser visto da rua, sento-me à mesa do canto, à esquerda de quem entra. Ainda que o papo não renda, ainda que em três minutos resuma o dia, ali eu fico até que a novela comece. Mesmo em dias de tédio compartilhado, eu, burocraticamente, resisto até nove e meia. Nesta terça, todavia, não fui outro terceiro a entediar quem não estava a fim de entediar-se, nem comigo nem com ninguém.

Se me entendi tedioso?

Não pretendi entender-me pelo que fosse, até pelo tédio que podia dimanar pela minha fala de indiferente. Como não me defenderei, digo que aparentemente fui indolente. Só na aparência, porque eu virei agir feito criança.

Numa entrevista à Clarice Lispector, o psicanalista Hélio Pellegrino disse: “toda criança é, por excelência, um ser capaz de administrar-se. Por isso, toda criança é capaz de autêntico filosofar”.

Não pude dizer que pessoa adulta agir feito criança é filosofice, pois fiquei impelido a uma dessas alegrias fofas; não fui um boboca, fiz-me divertir pela minha criança interior.

Fui um fofo que não queria brigar. Eu não quis irritar as pessoas até que se sentissem forçadas a brigar ou a expulsar-me.

Em outros tempos, papava fritas. Mesmo que as tripas azedassem, não arregava a paratis de Pirapora. Opinava sobre o que fosse. Quanto menos entendesse, mais tinha certezas. Quanto mais certo estivesse, maior o meu entusiasmo. Quanto mais contrariavam, mais era preciso levantar a voz. Quando os adversários pareciam felizes de tirarem-me do sério, eu bradava, esbravejava, dava socos na mesa e virava copo numa golada. Quanto mais embriagado, mais absolutamente eu ficava bem por estar valente.

Hoje eu bebo refri, não discurso sobre a volta dos que não foram e, ainda que falem besteiras, não me empolga refutar. Pois é, eu aprendi a ficar de boa, à esquerda de quem fala.

Nesta terça, dei boa-noite à dona. Pedi o guaraná de sempre, pedi a porçãozinha de sempre e sentei à mesa de canto, sempre à esquerda de quem entra.

Impedido de enrolações, esta terça foi outra. A dona pediu-me que tomasse o refri e acabasse o salaminho, pois as amigas e ela, só elas, assistiriam ao jogaço Botafogo X Vasco.

Pra que babaca algum viesse importuná-las, tão logo pus meus pés na calçada, a porta foi abaixada.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 07 de novembro de 2024.

terça-feira, 5 de novembro de 2024

Hora morta

 

Hora morta

 

Acautele-se, Seu Rodrigues. Ao que parece, o senhor se acha num daqueles dias ― quando não precisa ser feliz, bastando sentir-se, para que cometa idiotias, prodigalize estupidezes e vulgarize imbecilidades, uma vez que sua incompletude conta que se veja integrado ao mundo nem que seja feito sombra.

Indo às compras, acompanhe o seu duplo, veja a figura projetada na calçada e pense: sejamos mais do que a soma destas partes, a da carne que caminha e a da escuridão deslocada; sejamos à parte, que o mundo vá adiante; e poderemos penar este instante, podemos padecer deste instante, nós poderemos incluir o que você pensa sobre si ― um instante, confie que possamos, você e eu, Seu Rodrigues e sombra, confie que saberemos ir lado a lado, passo a passo.

Para que seja o que precisa no instante, para que descubra você o seu instante, ou será preciso outro exemplo de idiotice, que será desejo de ser senhor e servo pelo que o faz desejar-se?

Permita-se, bobo, as tolices que o ridicularizem.

Pelo que possa, deseje respirar um instante sem que o sufoque do ar que respira. E passo a passo, vá às compras.

Passe pelo homem que vende relógios. Evite aquela espiadinha de soslaio. Não troque olhares. Ouça, são cem reais, mas não veja qual o modelo que está à venda por cem reais. Passe batido, vá reto, que os seus olhos olhem onde pisa, queira que olhem onde pisa, e pise.

Chegue logo. Pegue a senha. Espere a vez.

O homem que vende relógios nem pega a senha, pois o açougueiro o chama. Pois bem, o açougueiro lhe dá preferência. Pela idade a mais sobre qualquer na fila? Ele passe e peça a carne que deseja.

Ele ajeita a mochila que traz ao ombro. Ele pergunta sobre maminha e costelinha, mas pede vinte reais da toscana mais em conta.

Então, Seu Rodrigues, já que você sabe que o homem que vende relógios chama-se Amadeu, suponha que ele seja filho do Zé Caetano, aquele que tocava pífaro e demorou um ano e meio para vir da Paraíba, pois seu polegar tinha muita dificuldade que lhe dessem carona, ainda que a sua música fosse assaz supimpa.

Suponha, ainda, que o Amadeu vendedor de relógio tenha nascido no dia 27 de janeiro, como o Mozart. É possível, também, que seu pai tenha trabalhado pra um comerciante muito fã de Don Giovanni, ópera do referido Wolfang Amadeus.

Em outras palavras, é provável que o açougueiro tenha pedido que o ambulante passasse à frente porque ele, açougueiro, tenha por ídolo precisamente o Wolfgang Amadeus Mozart, pois, mesmo sem prever que um dia seu pai, dele açougueiro, viria a ser honrado como Rei do Amor Efêmero, ele, Mozart, compôs As Bodas de Fígaro.

No mundo há gente boa que sabe ganhar a vida vendendo coisas bacanas, não um CD pirata de A Flauta Mágica, mas um Rolex que ninguém em sã consciência há de testar na água, só pra constatar que os cem reais são um preço justíssimo a relógio que se afoga fácil.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 05 de novembro de 2024.

domingo, 3 de novembro de 2024

As outras coisas

 

As outras coisas

 

Sem importância a quem não me conhece ou ligue que existo, neste primeiro dia do mês de novembro de 2024, faço 61 anos.

Embora os parentes mais chegados, os amigos menos ranzinzas e empresas interessadas nos meus créditos lembrem-se dos parabéns, permaneço na moita, escutando os passarinhos.

Em que moita estou metido? Da cama, ouço o mundo.

O primeiro deles, um que reconheço pelo canto, é o joão-de-barro, cujo volume do som do canto vem aumentando conforme venha vindo da sua casa, a quarteirões daqui, até o abacateiro do quintal da minha casa, esse bichinho põe-se a cantar lá pelas cinco e tralalá.

O joão-de-barro canta, eu ouço e compreendo, a natureza é bela e os números do boleto são feios, e surgem feiíssimos no meu sono, com os dentes da engrenagem a ranger desde o tralalá, e eu coço a palma da mão, pois é coçando-a que se encontra dinheiro na rua.

Em seguida, entram em cena os bem-te-vis; logo um coleirinha, que tem seu ninho na jabuticabeira do meu quintal, canta a plenos pulmões; e tem também as maritacas que moram no forro da lavanderia ― tudo é algazarra, tudo é alvorada.

O que eu não quero ver, imagino: a moça do caixa apertará botões e o valor pago restará registrado, registradíssimo no sistema.

Como estou condicionado a acordar pelos acasos do sono, seja por pesadelos neuroticamente sombrios seja por uma vontade danada de urinar, o que me despertou não foi toda esta cantoria.

Preciso urinar, vou urinar, mas nem urinando a cantoria para. Ainda que eu não urine fiando-me que tenho o poder sobre a natureza.

Adeus cantoria ― já o celular toca, já o taxista está à porta.

Os vidros estão fechados, o rádio está ligado, o motorista conversa consigo como se papeasse comigo.

Porei bolo na mesa, porque a Dona Cremilda, o Aristeu e o Luisinho cantarão os parabéns e contarão histórias. Serão as melhores pessoas que eu haveria de convidar. E elas são mesmo admiráveis porque não as convidei pra festa que não quero. Ainda que eu esteja indo comprar o bolo que as delicie e satisfaça e incentivem-nas a cantar parabéns e a repassar histórias que não me deixarão sossegado de que hoje faço esses 61 anos.

Mesmo sem velinhas para apagar? Sopram-me que os faço, todos eles, os tais 61, que são anos que não acabam mais, até que eu cesse de fazê-los.

Depois de comido? O bolo serão fezes que eu não comerei.

Todavia, os passarinhos voltarão ao crepúsculo, o taxista fará mais uma corrida, a doceria venderá mais bolos, a TV mostrará os estragos dos temporais e os apresentadores louvarão a ação de voluntários que se dispõem a limpar um trechinho de uma famigeradíssima praia.

Preciso distrair-me: seja vendo tevê, seja comendo bolo ou sorrindo ao motorista que fala com o espelhinho retrovisor.

― Nossa! O senhor parece mais velho, disse o moço do balcão.

Distraído de mim, vou rir quando houver que rir.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 03 de novembro de 2024.

quinta-feira, 31 de outubro de 2024

Paciente

 

Paciente

 

Por causa do lançamento do filme Megalópolis, há uma entrevista de Francis Ford Coppola no Estadão, nela, depois de dizer que a arte existe para que as pessoas entendam o mundo em que vivem, vem o trecho: “talvez as pessoas estejam sendo deliberadamente mantidas infelizes para que sejam melhores consumidores”.

Embora me aborreçam os cães latindo ao gato sentado em cima do muro, percebo a ideia ― a felicidade produz bem-estar e o bem-estar tranquiliza da ânsia de querer-se o que ainda não se tem.

Eu digo que ânsias podem engulhar e não gosto de prender-me às náuseas quando as sinto, e boto fora o que enoja.

Em outras palavras, há vômito que produz bem-estar e nem por isso anseio vomitar, pois o que não tenho não me acelera o passo.

Com os bichos dispersados pela bombinha que atirei aos pés do muro, paro em querer-se o que ainda não se tem ― é a esperança.

Para Nietzsche, a esperança prolonga o suplício dos homens, pois ela é um mal. Quando Pandora destampa o jarro, os males ganham o mundo; e no jarro novamente tampado, o mal que resta é a esperança.

Mudo de ideia: as pessoas talvez gostem de ser mantidas infelizes para que gastem dinheiro com o que possam comprar; embora estejam infelizes, elas têm escolha, elas podem comprar.

Quanto a mim? Eu compro livros.

Na sala, há duas paredes tomadas por livros. Iludo-me que lerei a grande parte deles, mas o que me enfada é responder que eu não terei tempo para ler tudo.

Alegro-me, e penso que engatinhei ao que podia alcançar, passei a ficar de pé pelo que tinha vontade de ter nas minhas mãos, banquinhos ajudaram a ver acima o que tanto me interessava e desejos levam-me à escada para pousar os olhos naquilo que eu leio.

Que parvoíce a minha.

É claro que alguma vertigem virá interromper a leitura, pois ficar no alto da escada haverá de despertar o receio de desequilibrar-me.

Quando leio o que me irrita, mais desequilibrado eu fico.

E não me refiro a personagens que, às escâncaras, agem contra a moral da maioria ou àquelas que, em surdina, trabalham para si apesar dos prejuízos que causam a esta ou aquela pessoa.

Parvo, me sinto bem mesmo um tanto insatisfeito.

Compro. Folheio. Ponho na pilha do que pretendo ler em breve. Fico pê da vida, quando espano. E quando estou obrigado a espanar o livro que acreditei que leria tão logo o comprei, é aí que fico bem fulo.

Fulo e muito puto, fico bem mal.

Mesmo mal, estressado, continuo a agir como se houvesse de ficar bem. Mesmo comigo assim, mal por estressado, acho de comer.

Vou comer um pãozinho. Saio comprá-lo. Entro na fila. Sempre tem uma fila quando preciso do pão para satisfazer-me, sossegar-me, para que me tranquilize a fome que não sinto. Sim! Sempre tem quem fure a fila. Sempre há quem reclame. Sempre há quem olhe pra mim. E tem gente que se irrita ao ser ignorada.

Hein?

Porque aprendi a suportar, aguardo minha vez.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 31 de outubro de 2024.

terça-feira, 29 de outubro de 2024

Teatro dos sonhos

 

Teatro dos sonhos

 

Uma vez que bem compreendo o que o mundo sussurra enquanto durmo, noite após noite, visionário míope, mal vislumbro o que o futuro parece agora me cochichar, que a vida é dura, o chão é duro e a minha cara é mole, porém, todavia, tanto enfio a fuça na areia que a máscara, com a qual acordo a cada aurora, traz estalactites e estalagmites, isso me põe revelado em altos e baixos, com algum platô de intermeio.

Respiro, tomo fôlego, me recupero, pode o amor ser o platô.

Indo de amor em amor, já que viver subidas e descidas esgota pra dedéu, um dia amei Maria, noutro amei Maria, tanto as amei que todas, tão diversas e divertidas, tanto as amei que fui amado, tanto fui que me arvoro, na brasa do sonho e na brisa do anseio, a continuar sonhando e ansiando, que sou mesmo um amorzinho.

Mas não há amor que petrifique sob infortúnios, pelo fogo que arde nas entranhas e pela fresca que sopra dos confins, portanto, ainda que a mão no barro é que erga paredes, amo a ideia de que uma borboleta batendo asas em Lumbini faz querer-me ao ar condicionado por uma bugiganga elétrica, que me oferta ao instante.

Inspiro, pois o momento requer um relato que não seja mentiroso nem verdadeiro, seja obra de ficção.

Expiro, é absurdo que eu me sinta a esfinge que sequer me imagina devorando a minha areia, a minha própria efígie, a minha triste, alegre, constrangida, oprimida e reprimida carne, porque é comigo que papeio.

A minha carne tem fome e com os dentes que tenho sustento-me, pois é comigo que tenho de haver-me, faminto de vida.

Pelo lado de cá, vejo bolo, ouço parabéns, escuto amores que riem, gracejam, que a vida é asa batendo.

Pelo lado de lá, vejo a boca que sopra, a vela que se apaga, escuto o coração magoado, alumbrado, que a vida é vento passando.

Normal pra caramba que me compreenda na encruzilhada em que eu estou metido, ou enlouqueceria.

Que a vida possa enlouquecer, são favas contadas.

Que a vida peça restaurações, isso é mel na chupeta.

Na semana, Dona Cremilda e eu nos encontramos.

― Amigo, que coisa feia...

― Mas, querida amiga, o que foi que eu fiz?

― Dá pra ver que você não tomou banho, Cascão.

Se por fora, bela viola... Se a primeira impressão é a que fica... Se as aparências enganam...

Entretanto, se na capa estiver estampado printed by Isaac Iaggard and Ed. Blount, 1623, avalie-se o fólio como raro e caro!

Contudo, apenas como charada, proponho: a pessoa me encontra dois dias seguidos ― depois de um dia sem tomar banho, ela pensará que tomo banho todos os dias, porque as roupas de um são outras no seguinte; após um dia de banho, a pessoa dirá, pelas mesmas roupas do primeiro encontro, que estou precisando de banho.

Pelo visto?

Com a humildade e a modéstia que estão implícitas na pegadinha de gente brincalhona como eu, é óbvio que Oscar Wilde possa mesmo deduzir: quando tomar banho, não troque as suas roupas.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 29 de outubro de 2024.

domingo, 27 de outubro de 2024

Dia bom pra breja e picanha

 

Dia bom pra breja e picanha

 

Sem dúvida, é domingo. Com certeza, o domingo está meio gelado. Então, naturalmente, isso mais aquilo resulta neste caso interessante: na casa ao lado da minha, dois adultos e duas crianças estão vestidos como se este dia estivesse ensolarado, cujo ventinho sul é propício a bermuda e camiseta de manga curta.

Pela camiseta com o Seven Up acima do nº 7, infiro que o adulto é torcedor do Botafogo há muito tempo.

Ontem de manhãzinha, enquanto a família descia suas bugigangas, fomos simpáticos, Marx e eu, que não a estorvamos que circulasse do carro para a casa e vice-versa.

Também fomos afáveis: Marx, gracioso, latiu e lambeu a carinha da menina e a do menino, que o encheram de cafunés; e eu até calei o bico sobre ter estranhado que a motorista tivesse parado o veículo na frente da casa, ainda que, na garagem, caibam uma dúzia de automóveis, no mínimo.

Porém, agora há pouco, ao encontrar o torcedor do time da Estrela Solitária com a camiseta nº 23, do Almada, não tive dúvida:

― Você deve ser descendente de botafoguenses, hein?

― Que nada! Virei torcedor do Fogão por causa da minha esposa.

― Você tá tirando onda, né?

― Não é mentira, não. A bem da verdade, esta pode ser mais uma autêntica história carioca, porque a família dela morava perto de uma senhora chamada Joan.

― Aaah! Isso não é incrível? Uma senhora estrangeira, certamente inglesa, que só podia ser botafoguense...

― Não, não. O marido dessa vizinha é que tinha verdadeira paixão pelo Botafogo. Deu-se, então, que ela, a dona Joan, nunca falava nada sobre futebol, jogo no Maracanã ou os dribles do Garrincha.

― Não entendi. Se ela não falava de futebol, como é que ela veio a influenciar sua esposa pra que virasse torcedora do Botafogo?

― Pelas camisetas que ela dava de presente. Não tinha aniversário que não desse um manto do Glorioso.

― E você virou torcedor por causa... Quanto amor, né?

― Tem coisa que só explicando pra dimensionar o quanto a vida de torcedor do Botafogo foge à razão, a explicações.

― E Freud complica!

― Quando o time tem uma equipe que realmente empolga, como acontece hoje, o manto sagrado do Fogão vira uma segunda pele pra minha mulher, pros meninos e pra mim.

― Pois é. Me desculpe, mas eu também reparei que os quatro não tiram a camiseta do Botafogo desde que chegaram, parece que torcer pro Botafogo é obsessão, hein?

― A gente toma banho! Mas a gente veio curtir, e a nossa curtição é vestir camisas do Botafogo. Aliás, amigão, essa é a marca registrada da família. Em todas as nossas fotos no Insta a gente usa camisas do Botafogo. Se quiser seguir, somos @bandeirantesdofogão.

― Do fogão e da grelha. Rá rá rá! Já que você está assando uma carninha... Mas, fale a verdade, você veio de São Paulo neste dia por que não é Boulos nem Nunes, certo?

― Errado! Eu voto consciente! Assim como o Botafogo é o melhor, meu voto é Tabata!

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 27 de outubro de 2024.

quinta-feira, 24 de outubro de 2024

Ao léu - continuação

 

Ao léu ― continuação

 

Fecha os olhos. De olhos fechados, põe a têmpora direita apoiada no vidro, pois confia que as pessoas o terão como um sujeito cansado, alguém que precisa cochilar um pouco porque a estafa é maior do que a delas, pois, embora também estejam estressadas, têm celulares.

Homem que anda de ônibus, o que realmente te conduz?

Ele prefere cochilar, a pesar o que lhe seja mais compensador.

Homem que não tem automóvel nem nunca quis ter um, a você não basta fechar os olhos, apoiar a cabeça na janela e congratular-se que não adore dirigir e não tenha celular.

Nunca quis aprender a dirigir, todavia teve pai que tratou de ensiná-lo a ajustar o banco, ajustar retrovisores, ajustar-se ao cinto.

Ainda que tenham sumido da TV as mulheres de biquini que digam que, se trabalhar, mesmo que trabalhe por horas, siga no batente por horas, o destino tem um carro que lhe caiba no bolso.

Embora o homem que anda de ônibus tenha poucos bolsos, ele não precisa de calça nova, uma que disponha de bolsos perna abaixo, quer cochilar, talvez queira calcular o quanto teria de receber para ser dono de automóvel, um que nem precisa ser novo.

O homem que calcula sabe que precisa ter um emprego, ou seguirá até o ponto final dessa linha que nem sabe qual seja.

O que estranha é que o veículo segue em frente, mesmo que pare nos semáforos, parece que todo farol quer que o ônibus demore, como se o ônibus estivesse obrigado a trafegar numa velocidade de cruzeiro, que nem veleiro no mar.

O motorista do ônibus tem pé leve, o ônibus não terá de frear súbito caso um cachorro, uma velhinha, um bebum cortem o percurso.

Maravilha! O motorista está sóbrio, até da Palavra.

Já o homem sentado no último banco à direita não é pessoa que se deixa seduzir pelas mirabolantes ideias de quem manda que se faça o que fala ser o necessário pro mundo transformar-se em um lugar mais austero, mais severo, e sem disfarces.

O homem que anda de ônibus que está sentado à direita crê que o sujeito que ordena que seja feito o que é necessário para que a vida seja transformada da água pro vinho, ele sabe que o comandante não dirige o ônibus nem faz apostas, porque o celular do homem poderoso é usado pra avisar que o ônibus não pode parar, não tem de parar nem que cachorros, velhinhas e bebuns cruzem-lhe a frente.

O homem do último banco à direita vai até o motorista, nocauteia-o com um soco, toma-lhe o assento, não passa o cinto sobre o peito, pisa pesado e ignora os sinais, principalmente os vermelhos.

Nenhum passageiro fica indiferente. Todos urram. Todos imploram que pise fundo, fure todo sinal. Todos querem que o ponto final venha logo. Todos gritam, batem palmas e tiram fotos uns dos outros, porque não esperam ser tirados por molengas.

Saído do último banco à direita, ele não teme as chamas do inferno, passando por cima de cães, velhinhas e guardas de esquina, o homem é muito aplaudido, é vivamente ovacionado.

Caronte! Caronte! Caronte!

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 24 de outubro de 2024.

terça-feira, 22 de outubro de 2024

Ao léu

 

Ao léu

 

Ele abre os olhos. Pela baba na camiseta, é certo que adormecera. Desconfiando que o espreitavam, nem olha ao redor. Se olhasse, veria as pessoas ocupando-se de viver pros seus celulares.

Sim, o embaraço foi tanto que ele aprovou ter cochilado. Isso, foi a vergonha que o fez aprovar-se. Embora estivesse no ônibus, cochilou, babou, e talvez até tenha roncado. Embora se sentisse envergonhado, era óbvio que tenha roncado alto e babado um bocado.

Sentado no último banco à direita, aonde o ônibus o leva?

Sim, a vergonha tem essa força, ou tira a gente do incômodo ou faz a mente mergulhar à raiz do desconcerto.

Sentado naquele ônibus, que situação esquisita é não saber como entrou, sentou-se e caiu no sono.

Sim, melhor não tocar a campainha, melhor não se levantar, melhor não olhar as pessoas ― há tanto a ser visto lá fora.

Apesar da impressão de que as pessoas ocupam-se dos celulares apenas para confundi-lo, ele prefere seguir no ônibus até o ponto final. Embora nem saiba para onde está indo, irá até o fim.

É irrelevante que seja informado onde fica o ponto final.

Mas, há uma sensação esquisita. Como perceba alguma mudança, está diferente. Embora fosse o mesmo, está esquisito. Estranha-se por sentir uma qualquer diferençazinha, uma coisa sutil, tênue, pusilânime, algo frágil, alguma coisa tão frágil que é melhor nem ficar especulando sobre o que seja, melhor experimentá-la, ainda que nem alcance qual o grau desse sentimento, o quão profunda seja aquela sensação.

Haverá mesmo esse desassossego que o põe desconcertado?

Acordar num ônibus que nem se sabe para onde está indo, isso, até para ele que não é uma pessoa dada a reflexões, isso dá motivo para pensar-se intimidado, precisando cochilar novamente.

Ele olha pra fora do ônibus, a cidade parece a mesma.

Sentado no último banco à direita, ele vê o mundo lá fora e percebe que a cidade nem liga que o ônibus trafegue cheio.

Os automóveis, porém, estão mais estilosos. Têm faróis diferentes, o desenho mostra arrogância; não são faróis redondinhos com aba que pareça pálpebra, como cílio único de plástico duro. Eles, os automóveis, estão despidos da aparência de brinquedo nas mãos dos adultos, são máquinas suficientemente orgulhosas para transitar sem titubeios, são máquinas soberbas que freiam abruptamente, são máquinas evoluídas que podem freadas indulgentes, para as pessoas serem poupadas.

Há máquinas que não atropelam porque dominam a cidade.

Mas, a cidade é mesmo uma arena?

O homem no último banco à direita vê que há asfalto e calçadas e faixas. Ele não quer atravessar a rua, embora as pessoas vivam sendo atropeladas na faixa, na rua ou na calçada.

E o homem acordado teme descer, teme ser atropelado, não deseja a carne violada, não quer ser visto como indivíduo sacrificado.

Mas ― havendo cruzamento, há pistas para despistar.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 22 de outubro de 2024.

domingo, 20 de outubro de 2024

O melhor da vida

 

O melhor da vida

 

Ainda há pouco, estive na feira.

Aos domingos, já escrevinhada a crônica ou adiada sua publicação, vou comer pastel e tomar garapa, e, já que estimo hortaliças e legumes por suas vitaminas e seus minerais, também escuto os outros.

Tendo sobrevivido a pouco mais de vinte milhares de manhãs, além de vestir-me com elegância, sábio é proteger os pulmões com moletom forrado de lã e, a resguardá-lo da garoazinha, escondendo-o sob uma japona impermeável.

Uma vez que me envaideço da figura de velho bem vivido, embora até possam me retratar como pessoa fora de moda, cobri a careca com a minha surrada boina de anarquista, e janota.

Se me perguntam por que o sessentão foi à feira em manhã gelada, respondo que daria como vício se precisasse da garapa, trataria como tradição arder a língua com a pimenta no pastel, diria um contrassenso o cronista contentar-se na ignorância daquele burburinho.

Fluindo entre as barracas, fui indo, fui parando conforme o papo me soasse interessante, fui amarrando cadarços ainda amarrados, fui indo até voltar ― repassando a feira como labirinto de viela única, cuja mão dupla era caótica, cujo caos tinha um tráfego saudavelmente vagaroso, cuja lentidão compactava as pessoas tal qual um riachinho, cuja massa de água fluía feito serpente a boiar à tona do espelho.

Enquanto ia, observei quem apalpou mamões, pediu o que achava preciso e pagou o que lhe foi cobrado ― era quem tinha ânsia de gente que sabe que os sinos sempre hão de badalar pela missa das dez.

Sentados no meio-fio, havia os fumantes.

Dentre quem teria de esperar, havia quem mendigasse. Ainda que fumassem, clamavam pela misericórdia das pessoas que entravam na feira já a Matriz assinalando o meio-dia.

Como cheguei cedo, zanzei. E foi zanzando que fui me achegar ao pastel só quando estava com fome.

Numa das mesas, comiam pai e dois filhos. Comiam e papeavam. O menor dos garotos tinha perguntas, muitas; lá pelas tantas, ele quis saber se era verdade que macaxeira e mandioca são a mesma coisa; coube ao pai dizer que sim. A mais velha das crianças, a que exibia na camiseta um coloridíssimo Bob Esponja, insistiu tanto que era bom pôr pimenta no pastel que o caçula caiu nessa, só que, assim que a sentiu, ele começou a chorar, e tanto chorou que o pai teve que se morder pra não soltar o que pensou, que era chamá-lo de criançola chorona.

Sim, mesmo na feira pertinho de casa, convivo com essa gente que preza os laços familiares, venera a transmissão dos saberes de nossas tradições, cultua e honra o bom nome da nossa gente.

Depois de outra manhã na labuta por uma vida menos inadimplente, os feirantes carregaram consigo o que podia ser vendido, deixando aos xepeiros o que restasse feio, batido, amassado ou murcho.

Além de salsinha e cebolinha, trouxe o que a boleira me assegurou ser saboroso, um bolo tipo cake.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 20 de outubro de 2024.

quinta-feira, 17 de outubro de 2024

A maçã assada

 

A maçã assada

 

Às segundas, só porque não é domingo nem se cogita que seja uma quinta-feira, mantenha-se alerta, Seu Rodrigues.

Com relação ao domingo, recapitule-se a rotina: chegando o meio-dia ― a barriga ronca; a geladeira é aberta; a lista na porta da geladeira está atualizada, faltando apenas acrescentar o queijo Minas.

Sem inquietações mais teatrais que sérias, bem se lamurie de estar no interior paulista e não estar no interior de Minas.

Lá como cá, há torresmo, fatias de bacon e pão de queijo na estufa do balcão, porém a malandragem, o sotaque e a boa-fé têm diferenças, porque o interior mineiro e o interior de São Paulo têm tradições.

Seu Rodrigues, tenha a pachorra de admiti-lo, que a sua boa-fé tem horas que fraqueja, manquitola em trejeitos de cínico e pigarreia como quem sabe se apresentar como esperto pra caramba.

Ninguém é tão esperto que consiga convencer beltrano que sicrano é um farsante excepcionalmente sutil que nem se esforça de agir como sendo fulano ― o senhor mesmo, Seu Rodrigues.

O corpo fala, a mente ilude-se, a boca diz as mentiras que a cachola inventa de tomar por verdadeiras, fazendo do reles uma pérola.

Torresmo, bacon e pão de queijo, Seu Rodrigues, não são a pérola que o senhor tanto ambiciona no seu olho de escrevinhador atento ao mundo que o rodeia ou o que o senhor tem rodeado com o medo besta de ser tomado como cômico canastrão sem graça, um frustrado.

De novo, o senhor diz torresmo, bacon e pão de queijo, pois o corpo fala, sente falta, pede sal, gordura ― e que se dane a dieta.

O senhor não foge ao bom da vida porque é racional, emociona-se moderadamente e acha chique ser um cara sentimental, ainda que o seja discretamente.

Por um demônio de alambique, lambisque-se.

Seu Rodrigues, beberique, embriague-se a pouco e pouco; todavia, não se engane: o fogo das ventas é que nem o fogo das tripas.

Tornado o dragão da feracidade, responsabilize-se pela farra do dia anterior, que será quinta, a quinta-feira de computar os investimentos, porque muito lucra quem computa como salutar cair de cara na jaca, e jacas caem, enfim, pois jaqueira aprova a lei da gravidade.

Seu Rodrigues, não tome gravemente a sua alegria, viva o instante e não exagere em avacalhação, autocrítica, e no remorso.

Tome água. Lave-se. Diga que, na próxima vez, vai moderar.

Na próxima vez, tomara que o torresmo, o bacon e o pão de queijo estejam mais caros, tomara que o senhor esteja sem carteira e tomara que o dono do bar lhe tenha cortado o crédito.

Seu Rodrigues, será surreal?

Não saia de casa nesta segunda-feira; veja um pouco de TV, ou leia um livro, quem sabe o senhor queira ler poemas, ou ouça música, quiçá não desista antes do refrão, ou escreva a crônica sobre o dia em que, estando em Minas, trocou torresmo por pizzas e teve, tanto as teve que o terrificou ter uma leitoa a maldizê-lo desde o forno.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 17 de outubro de 2024.

terça-feira, 15 de outubro de 2024

Trabalhar cansa

 

Trabalhar cansa

 

Com o excelso pudor de quem não contemporiza sequer em nome da amizade, as pessoas que dizem o que pensam não se preocupam em ser verdadeiras, são justas consigo pelo que pensam.

Esses amigos, quando lhes dói um dente, apoiam ou cismam sob o impacto desta dor no momento errado, porque um dente doendo nunca tem momento que não seja errado.

Se lhe dói um dente, a sinceridade do amigo que diz o que pensa é indiscutível, porque ele tem a palavra certa no momento certo.

― Amigo, essa é pergunta que se faça? Se aconteceu alguma coisa para eu estar azedo? Que é isso! A verdade é que estou falando o que penso. Se o desagrada, preste atenção no que está afirmando, porque o azedume que está ouvindo não sai de mim. Embora eu o perceba ter alguma dificuldade pra escutar a opinião que o contrarie, meu dever de amigo é falar como se me doesse um dente, mesmo que não esteja.

A surdez oportuna é como a cegueira a ser negada por quem busca a renovação do direito de dirigir automóvel. Para que o examinador não note com precisão qual o grau de deficiência, a pessoa examinada diz o que está acontecendo como se estivesse mesmo dizendo a verdade, que os seus olhos míopes têm dificuldade com as letrinhas.

― O meu drama, doutor, está em ler as letrinhas pequenininhas da última linha. As demais, doutor, eu vejo que nem preciso ter decorado letra alguma, tudo vem sem maiores esforços da minha parte.

Por bem me conhecer, o amigo sabe que acontece comigo quando fico nervoso. Tanto enervo que olho de soslaio mais de uma vez, mas, mesmo olhando várias vezes pro cartaz com as letras ao lado da mesa do oculista, não consigo gravar as três últimas linhas do quadro.

Se eu fechasse os olhos, o oculista sacaria; então, com o tampo da mesa escondendo isso do doutor, coço-me na palma das mãos.

Dá vontade de piscar, mas o médico usa um colírio que embaça a visão. É desagradável não ver as coisas com nitidez, é igual a recusar sorvete, pois o dente cariado doerá. Se vai virar a doer tão logo a gente veja o pote de sorvete, é melhor tirar os óculos ou pingar colírio.

― Para ser honesto contigo, amigo, eu lembro o tempo em que não tinha nervosismo que me impedisse de decorar tudo, até as miudinhas da última linha. Eu sabia a posição de vogais e consoantes. Sabia qual a ordem; sem embaraço, eu ia da esquerda pra direita e da direita pra esquerda. Não tinha razão pra tensão, bastava me concentrar no meu papel. Entrava, olhava o cartaz, via e revia o quadro; não importava o colírio, eu mantinha a felicidade de lembrar qual a letra, em qual ordem. Sem me importunar que a cachola me traísse, confiava que o médico dos olhos validasse o meu desempenho.

Não escondo do orgulho que é a facilidade pra evitar que problemas me exponham: tomo o sorvete que tenho para tomar e ninguém precisa saber que a vista cansada é como um dente que dói.

― E que trabalheira é viver!

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 15 de outubro de 2024.

domingo, 13 de outubro de 2024

Sorriso amarelo

 

Sorriso amarelo

 

Um infeliz não se satisfaz com o bolo cortado, pouco se lhe dá em quantos pedaços tenha sido cortado ― par ou ímpar, dá no mesmo ―, pois entende que é mais um bolo a despertar aquele bem-estar que a muitos fundamenta-se como necessário, para que o dia seja cumprido de cabo a rabo, sem fundos estresses e jactâncias rasas, ou seguiria sendo uma pessoa pronta a sorrir por obrigação, pelo reconhecimento de que o prazer do pedaço oferecido produz sentimento menos vulgar que a generosidade do pedaço entregue, porque o primeiro é igual ao último, ainda é bolo, e é um pedaço de um bolo cujo sabor foi escolhido por outrem, ou seja, o infeliz não sente alívio à infelicidade, faz questão do sorriso amarelo, conserva-se infeliz porque pode aquele sorrisinho, a marca da sua insatisfação, pelo prazer de ter comido de um bolo que lhe foi educadamente oferecido.

Já os tristes, a eles não se aplica tal lógica.

O bolo cortado em sete ou oito pedaços, como está cortado, não se trata de um mesmo bolo, quem o cortou talvez nem perceba, mas sua mão é o veículo que materializa o que precisa ser dito.

A realidade apresentada pode ser desprezada pelo infeliz, ao triste, porém, o bolo cortado existe tal qual o número dos pedaços, pois o par difere do ímpar, assim como um bolo de chocolate dista de um bolo de laranja.

O bolo tal qual ele é, a realidade que ele representa há que ser lida e, pelo tanto que seja possível, entendida.

Pelo mais simples entendimento, o bolo que se desfruta é como o barro transfigurado em escultura, é fruto das mãos humanas, está além dos elementos que o constituem.

Por estar além da farinha, dos ovos, do açúcar, do chocolate ou da laranja, cabe à cachola fermentar-se em compreensões.

Há quem diga que o calor do forno não guarda relação com o calor do mato queimando, deliberadamente fica apagado o tempo em que a lenha era queimada para que pães, bolos e pizzas fossem assadas.

A humanidade pode ser avaliada pelo que fazem os benfeitores, os malfeitores e os sensabores.

Sim, há quem se ocupe de correlações entre o cabo que liga o forno à rede elétrica; como se macho e fêmea se completassem, é o mundo visto pelo infeliz.

Mas os tristes não enxergam o mundo como pinos e orifícios, o bolo é bom, é gostoso, dá vontade de comer outro pedaço, às vezes a gente come mais um, às vezes não faz boa presença pedir mais um.

Tem gente triste que sabe das coisas: que a felicidade, o bem-estar e satisfação divergem da alegria; que a alegria não se compra, pois os tristes não se empanturram; que há tristes capazes de transmiti-la pelo bolo assado em forno elétrico, e nem por isso se engrandecessem da renúncia de queimar lenha por um bolo mais cheiroso.

Às vezes, gente triste se alegra por bobagem; e, mesmo sabendo que é coisa passageira, ela sorri; não o infeliz sorriso amarelo, todavia comovida, sorri tristemente.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 13 de outubro de 2024.

quinta-feira, 10 de outubro de 2024

Ironias da vida

 

Ironias da vida

 

Dizer que Madalena sofre quando a vida dá uma rasteira, levando-a ao chão sem tempo pra proteger os joelhos, isso nem se discute, ela é outra coitada que, mesmo se mantendo esperançosa de não chamar a atenção, volta e meia mal se disfarça miseravelmente cambaia.

Quadro bem diferente oferece Mariana, não que a folgazã se divirta interpondo os pés no caminho de outrem, ela tem por muito engraçado qualquer tombo súbito, desde que o ridículo do trança pé dê o estrelato a terceiros.

Madalena e Mariana não são amigas; porque trabalham no mesmo supermercado, elas são colegas.

Na tarde desta que parecia ser mais uma segunda-feira entediante, um homem, ignorante das modorras do dia, procura Madalena.

― Filha, você sabe que eu te amo.

Afligida por uma angústia desesperadora, a moça toca o sininho pra que a liberem do posto, até que finalmente vieram ao caixa.

O homem que a segue é barrado por um segurança, todavia:

― Isso não está direito. Eu mereço outra chance, porque a verdade mais pura é que eu te amo. Eu te amo de verdade, filha.

Mais um segurança vem escoltá-lo para fora, entretanto:

― Estou sofrendo pra caraca, filha, pois eu te amo pra valer. E não digo isso só para que você volte a falar comigo. Como pai, filha, é meu dever lembrar que o meu amor por você não tem nada que ver com os problemas que a sua mãe tem comigo.

Já na calçada, à porta do supermercado, o homem ainda grita:

― Um pai nunca desiste do amor que ele sente, Madalena.

Contudo, no banheiro das funcionárias, Mariana diz:

― O seu pai é mesmo um canalha, Madalena.

Como as lágrimas não param, Madalena lava o rosto.

E Mariana tem algo a acrescentar:

― Mas não é porque ele traiu a sua mãe que o amor dele por você seja só da boca pra fora.

Escondendo o rosto com as mãos, Madalena senta na privada.

Mariana sente que é preciso continuar ajudando:

― Veja bem, talvez seja uma mentira das mais safadas, seja coisa de gente que não presta. Sei lá. Pode ser que ele queira parar de pagar a pensão que a lei manda que ele pague.

Por causa dos irmãos, o choro de Madalena cresce.

Sem dar papel para Madalena enxugar o rosto, Mariana insiste:

― Eita mundo absurdo!

Madalena não afasta as mãos que lhe encobrem o rosto.

― Como tem homem que nasceu pra ser calhorda, né?

Tendo conferido as notificações e recolocado o celular no bolso de trás da calça, Mariana acende um cigarro, dá uma tragada e diz com a convicção de fumante depois de uma prazerosíssima tragada:

― Caraca! Não que eu tenha muita certeza sobre o amor de um pai pelos seus filhos, mas pode ser verdade que ele realmente te ame.

E o bom senso pede?

O que Mariana não sabe é que o homem que diz amar tanto aquela colega é o mesmíssimo calhorda que nunca se interessou como anda a sua vida, estando ausente desde que ela nasceu.

Sim!

Além de trabalharem naquele supermercado, Madalena e Mariana têm o mesmo... progenitor.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 10 de outubro de 2024.