domingo, 10 de novembro de 2024

Ainda pulsa

 

Ainda pulsa

 

Mesmo que a batida do joelho na cadeira doa pra caraca, tudo neste mundo tem lado positivo. Faço minha parte para a dor sumir, eu choro. Massageio onde dói, até derramo lágrimas porque isso ajuda a limpar os canais lacrimais. Que o lado bom também é isso, que a dor me faz sentir que estou vivo. Acredito que não penso bobagem. Digo que viver é sentir-me. Penso que viver é perceber-me vivo, sujeito a dores. Mas não há dor eterna, não sei de ferimento que não cicatrize. Me recupero e confio que haja recuperação. Tenho fé que continuarei a curar-me.

Cristo conhece o meu coração, e sofre. Ele sofre, mas não interfere. Ele mostra que silêncio é ingerência benigna. Cristo salva pela cura.

Sei que preciso me intrometer no que penso. Comigo há sofrimento porque sei que provoco dor. Eu magoo porque sou um sujeito que sabe que o melhor modo de não aumentar as dores do mundo é viver tendo a antecipação do que provocarei. Preciso saber por mim qual a mágoa da dor sentida que trarei ao mundo, a quem esteja por perto e a quem trago dentro de mim.

Se eu tenho consciência limitada, paciência. Sou um camarada que não antevê o que há virando a esquina, toco em frente. Dobrando-a: o que vejo são carros estacionados; desvio dos buracos; piso fezes; viro a cara quando não tenho esmola.

Muito me orgulho de não ter automóvel que polui o mundo. Vaidade boa é não defecar na calçada só para as pessoas tomarem tombo. Não invejo quem dá esmola como se tirasse o pão da própria boca. Sei que o amor que me comove é que nem o amor que separa água e óleo, já o resto são palmas ao fim da oração.

Cristo conhece as minhas ânsias, e alegra-se. Ele dá vivas porque tenho pernas curtas. Ele se condói porque ando ligeiro pela brevidade dos meus passos. Cristo se rejubila, pois sei ser pontual.

Recostado ao poste defronte do prédio onde trabalha, o camarada nem faz conta que mata o tempo sem sofrer pelo que pensa, ele fuma ou o turno iria arrastado pela madrugada afora.

Tragando devagar, escarrando de vez em quando, encolhendo-se ao sabor do ventinho, ele bem que podia ficar na guarita, mas não, ele precisa ir e vir diante do prédio, até que enjoa e vai à esquina.

Ele vê que um casal está vindo.

Foram eles que, numa noite dessas, o pegaram desprevenido, que esse homem e essa mulher pediram um cigarro, pediram fogo, ficaram pro papinho bom que aquece a alma ― por óbvio, a alma deles.

Ele deu um cigarro, mas cada qual queria um.

E toda noite é isso: o homem e a mulher filam pra si, nada de dividir um mísero cigarrinho, pois não são disso; não se incomodam de dizer da fome que têm; ele e ela precisam beber pinga.

Como ele compra um litro de pinga e dois maços de cigarro, aquele homem e aquela mulher agradecem ― que Deus o abençoe; e que Ele lhe seja justo e lhe dê em dobro o que deseja; que suas preces hão de chegar ao Criador; amanhã será melhor; como isso basta, amém.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 10 de novembro de 2024.

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