quinta-feira, 7 de novembro de 2024

O último homem

 

O último homem

 

Ninguém me ofereceu o papel, acabei desempenhando-o por falta de outrem. Já sentado em casa, vendo TV, é que fui ter consciência da minha atuação. Mesmo que soubesse que o fazia, não o faria de outro modo. Como era esperado, eu agi naturalmente. Sem ironias tacanhas, não pesei no lombo de ninguém.

Era terça-feira. Havia dias que o chuvisqueiro não parava. Mesmo chuviscando, não adiei a ida à lanchonete. Semanalmente, vou lá. Para comer salaminho e beber guaraná, vou no começo da noite. Entre seis e meia e sete, chego simpático. Chego cumprimentando todo mundo e sento-me à mesa. Pra não ser visto da rua, sento-me à mesa do canto, à esquerda de quem entra. Ainda que o papo não renda, ainda que em três minutos resuma o dia, ali eu fico até que a novela comece. Mesmo em dias de tédio compartilhado, eu, burocraticamente, resisto até nove e meia. Nesta terça, todavia, não fui outro terceiro a entediar quem não estava a fim de entediar-se, nem comigo nem com ninguém.

Se me entendi tedioso?

Não pretendi entender-me pelo que fosse, até pelo tédio que podia dimanar pela minha fala de indiferente. Como não me defenderei, digo que aparentemente fui indolente. Só na aparência, porque eu virei agir feito criança.

Numa entrevista à Clarice Lispector, o psicanalista Hélio Pellegrino disse: “toda criança é, por excelência, um ser capaz de administrar-se. Por isso, toda criança é capaz de autêntico filosofar”.

Não pude dizer que pessoa adulta agir feito criança é filosofice, pois fiquei impelido a uma dessas alegrias fofas; não fui um boboca, fiz-me divertir pela minha criança interior.

Fui um fofo que não queria brigar. Eu não quis irritar as pessoas até que se sentissem forçadas a brigar ou a expulsar-me.

Em outros tempos, papava fritas. Mesmo que as tripas azedassem, não arregava a paratis de Pirapora. Opinava sobre o que fosse. Quanto menos entendesse, mais tinha certezas. Quanto mais certo estivesse, maior o meu entusiasmo. Quanto mais contrariavam, mais era preciso levantar a voz. Quando os adversários pareciam felizes de tirarem-me do sério, eu bradava, esbravejava, dava socos na mesa e virava copo numa golada. Quanto mais embriagado, mais absolutamente eu ficava bem por estar valente.

Hoje eu bebo refri, não discurso sobre a volta dos que não foram e, ainda que falem besteiras, não me empolga refutar. Pois é, eu aprendi a ficar de boa, à esquerda de quem fala.

Nesta terça, dei boa-noite à dona. Pedi o guaraná de sempre, pedi a porçãozinha de sempre e sentei à mesa de canto, sempre à esquerda de quem entra.

Impedido de enrolações, esta terça foi outra. A dona pediu-me que tomasse o refri e acabasse o salaminho, pois as amigas e ela, só elas, assistiriam ao jogaço Botafogo X Vasco.

Pra que babaca algum viesse importuná-las, tão logo pus meus pés na calçada, a porta foi abaixada.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 07 de novembro de 2024.

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