domingo, 20 de outubro de 2024

O melhor da vida

 

O melhor da vida

 

Ainda há pouco, estive na feira.

Aos domingos, já escrevinhada a crônica ou adiada sua publicação, vou comer pastel e tomar garapa, e, já que estimo hortaliças e legumes por suas vitaminas e seus minerais, também escuto os outros.

Tendo sobrevivido a pouco mais de vinte milhares de manhãs, além de vestir-me com elegância, sábio é proteger os pulmões com moletom forrado de lã e, a resguardá-lo da garoazinha, escondendo-o sob uma japona impermeável.

Uma vez que me envaideço da figura de velho bem vivido, embora até possam me retratar como pessoa fora de moda, cobri a careca com a minha surrada boina de anarquista, e janota.

Se me perguntam por que o sessentão foi à feira em manhã gelada, respondo que daria como vício se precisasse da garapa, trataria como tradição arder a língua com a pimenta no pastel, diria um contrassenso o cronista contentar-se na ignorância daquele burburinho.

Fluindo entre as barracas, fui indo, fui parando conforme o papo me soasse interessante, fui amarrando cadarços ainda amarrados, fui indo até voltar ― repassando a feira como labirinto de viela única, cuja mão dupla era caótica, cujo caos tinha um tráfego saudavelmente vagaroso, cuja lentidão compactava as pessoas tal qual um riachinho, cuja massa de água fluía feito serpente a boiar à tona do espelho.

Enquanto ia, observei quem apalpou mamões, pediu o que achava preciso e pagou o que lhe foi cobrado ― era quem tinha ânsia de gente que sabe que os sinos sempre hão de badalar pela missa das dez.

Sentados no meio-fio, havia os fumantes.

Dentre quem teria de esperar, havia quem mendigasse. Ainda que fumassem, clamavam pela misericórdia das pessoas que entravam na feira já a Matriz assinalando o meio-dia.

Como cheguei cedo, zanzei. E foi zanzando que fui me achegar ao pastel só quando estava com fome.

Numa das mesas, comiam pai e dois filhos. Comiam e papeavam. O menor dos garotos tinha perguntas, muitas; lá pelas tantas, ele quis saber se era verdade que macaxeira e mandioca são a mesma coisa; coube ao pai dizer que sim. A mais velha das crianças, a que exibia na camiseta um coloridíssimo Bob Esponja, insistiu tanto que era bom pôr pimenta no pastel que o caçula caiu nessa, só que, assim que a sentiu, ele começou a chorar, e tanto chorou que o pai teve que se morder pra não soltar o que pensou, que era chamá-lo de criançola chorona.

Sim, mesmo na feira pertinho de casa, convivo com essa gente que preza os laços familiares, venera a transmissão dos saberes de nossas tradições, cultua e honra o bom nome da nossa gente.

Depois de outra manhã na labuta por uma vida menos inadimplente, os feirantes carregaram consigo o que podia ser vendido, deixando aos xepeiros o que restasse feio, batido, amassado ou murcho.

Além de salsinha e cebolinha, trouxe o que a boleira me assegurou ser saboroso, um bolo tipo cake.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 20 de outubro de 2024.

quinta-feira, 17 de outubro de 2024

A maçã assada

 

A maçã assada

 

Às segundas, só porque não é domingo nem se cogita que seja uma quinta-feira, mantenha-se alerta, Seu Rodrigues.

Com relação ao domingo, recapitule-se a rotina: chegando o meio-dia ― a barriga ronca; a geladeira é aberta; a lista na porta da geladeira está atualizada, faltando apenas acrescentar o queijo Minas.

Sem inquietações mais teatrais que sérias, bem se lamurie de estar no interior paulista e não estar no interior de Minas.

Lá como cá, há torresmo, fatias de bacon e pão de queijo na estufa do balcão, porém a malandragem, o sotaque e a boa-fé têm diferenças, porque o interior mineiro e o interior de São Paulo têm tradições.

Seu Rodrigues, tenha a pachorra de admiti-lo, que a sua boa-fé tem horas que fraqueja, manquitola em trejeitos de cínico e pigarreia como quem sabe se apresentar como esperto pra caramba.

Ninguém é tão esperto que consiga convencer beltrano que sicrano é um farsante excepcionalmente sutil que nem se esforça de agir como sendo fulano ― o senhor mesmo, Seu Rodrigues.

O corpo fala, a mente ilude-se, a boca diz as mentiras que a cachola inventa de tomar por verdadeiras, fazendo do reles uma pérola.

Torresmo, bacon e pão de queijo, Seu Rodrigues, não são a pérola que o senhor tanto ambiciona no seu olho de escrevinhador atento ao mundo que o rodeia ou o que o senhor tem rodeado com o medo besta de ser tomado como cômico canastrão sem graça, um frustrado.

De novo, o senhor diz torresmo, bacon e pão de queijo, pois o corpo fala, sente falta, pede sal, gordura ― e que se dane a dieta.

O senhor não foge ao bom da vida porque é racional, emociona-se moderadamente e acha chique ser um cara sentimental, ainda que o seja discretamente.

Por um demônio de alambique, lambisque-se.

Seu Rodrigues, beberique, embriague-se a pouco e pouco; todavia, não se engane: o fogo das ventas é que nem o fogo das tripas.

Tornado o dragão da feracidade, responsabilize-se pela farra do dia anterior, que será quinta, a quinta-feira de computar os investimentos, porque muito lucra quem computa como salutar cair de cara na jaca, e jacas caem, enfim, pois jaqueira aprova a lei da gravidade.

Seu Rodrigues, não tome gravemente a sua alegria, viva o instante e não exagere em avacalhação, autocrítica, e no remorso.

Tome água. Lave-se. Diga que, na próxima vez, vai moderar.

Na próxima vez, tomara que o torresmo, o bacon e o pão de queijo estejam mais caros, tomara que o senhor esteja sem carteira e tomara que o dono do bar lhe tenha cortado o crédito.

Seu Rodrigues, será surreal?

Não saia de casa nesta segunda-feira; veja um pouco de TV, ou leia um livro, quem sabe o senhor queira ler poemas, ou ouça música, quiçá não desista antes do refrão, ou escreva a crônica sobre o dia em que, estando em Minas, trocou torresmo por pizzas e teve, tanto as teve que o terrificou ter uma leitoa a maldizê-lo desde o forno.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 17 de outubro de 2024.

terça-feira, 15 de outubro de 2024

Trabalhar cansa

 

Trabalhar cansa

 

Com o excelso pudor de quem não contemporiza sequer em nome da amizade, as pessoas que dizem o que pensam não se preocupam em ser verdadeiras, são justas consigo pelo que pensam.

Esses amigos, quando lhes dói um dente, apoiam ou cismam sob o impacto desta dor no momento errado, porque um dente doendo nunca tem momento que não seja errado.

Se lhe dói um dente, a sinceridade do amigo que diz o que pensa é indiscutível, porque ele tem a palavra certa no momento certo.

― Amigo, essa é pergunta que se faça? Se aconteceu alguma coisa para eu estar azedo? Que é isso! A verdade é que estou falando o que penso. Se o desagrada, preste atenção no que está afirmando, porque o azedume que está ouvindo não sai de mim. Embora eu o perceba ter alguma dificuldade pra escutar a opinião que o contrarie, meu dever de amigo é falar como se me doesse um dente, mesmo que não esteja.

A surdez oportuna é como a cegueira a ser negada por quem busca a renovação do direito de dirigir automóvel. Para que o examinador não note com precisão qual o grau de deficiência, a pessoa examinada diz o que está acontecendo como se estivesse mesmo dizendo a verdade, que os seus olhos míopes têm dificuldade com as letrinhas.

― O meu drama, doutor, está em ler as letrinhas pequenininhas da última linha. As demais, doutor, eu vejo que nem preciso ter decorado letra alguma, tudo vem sem maiores esforços da minha parte.

Por bem me conhecer, o amigo sabe que acontece comigo quando fico nervoso. Tanto enervo que olho de soslaio mais de uma vez, mas, mesmo olhando várias vezes pro cartaz com as letras ao lado da mesa do oculista, não consigo gravar as três últimas linhas do quadro.

Se eu fechasse os olhos, o oculista sacaria; então, com o tampo da mesa escondendo isso do doutor, coço-me na palma das mãos.

Dá vontade de piscar, mas o médico usa um colírio que embaça a visão. É desagradável não ver as coisas com nitidez, é igual a recusar sorvete, pois o dente cariado doerá. Se vai virar a doer tão logo a gente veja o pote de sorvete, é melhor tirar os óculos ou pingar colírio.

― Para ser honesto contigo, amigo, eu lembro o tempo em que não tinha nervosismo que me impedisse de decorar tudo, até as miudinhas da última linha. Eu sabia a posição de vogais e consoantes. Sabia qual a ordem; sem embaraço, eu ia da esquerda pra direita e da direita pra esquerda. Não tinha razão pra tensão, bastava me concentrar no meu papel. Entrava, olhava o cartaz, via e revia o quadro; não importava o colírio, eu mantinha a felicidade de lembrar qual a letra, em qual ordem. Sem me importunar que a cachola me traísse, confiava que o médico dos olhos validasse o meu desempenho.

Não escondo do orgulho que é a facilidade pra evitar que problemas me exponham: tomo o sorvete que tenho para tomar e ninguém precisa saber que a vista cansada é como um dente que dói.

― E que trabalheira é viver!

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 15 de outubro de 2024.

domingo, 13 de outubro de 2024

Sorriso amarelo

 

Sorriso amarelo

 

Um infeliz não se satisfaz com o bolo cortado, pouco se lhe dá em quantos pedaços tenha sido cortado ― par ou ímpar, dá no mesmo ―, pois entende que é mais um bolo a despertar aquele bem-estar que a muitos fundamenta-se como necessário, para que o dia seja cumprido de cabo a rabo, sem fundos estresses e jactâncias rasas, ou seguiria sendo uma pessoa pronta a sorrir por obrigação, pelo reconhecimento de que o prazer do pedaço oferecido produz sentimento menos vulgar que a generosidade do pedaço entregue, porque o primeiro é igual ao último, ainda é bolo, e é um pedaço de um bolo cujo sabor foi escolhido por outrem, ou seja, o infeliz não sente alívio à infelicidade, faz questão do sorriso amarelo, conserva-se infeliz porque pode aquele sorrisinho, a marca da sua insatisfação, pelo prazer de ter comido de um bolo que lhe foi educadamente oferecido.

Já os tristes, a eles não se aplica tal lógica.

O bolo cortado em sete ou oito pedaços, como está cortado, não se trata de um mesmo bolo, quem o cortou talvez nem perceba, mas sua mão é o veículo que materializa o que precisa ser dito.

A realidade apresentada pode ser desprezada pelo infeliz, ao triste, porém, o bolo cortado existe tal qual o número dos pedaços, pois o par difere do ímpar, assim como um bolo de chocolate dista de um bolo de laranja.

O bolo tal qual ele é, a realidade que ele representa há que ser lida e, pelo tanto que seja possível, entendida.

Pelo mais simples entendimento, o bolo que se desfruta é como o barro transfigurado em escultura, é fruto das mãos humanas, está além dos elementos que o constituem.

Por estar além da farinha, dos ovos, do açúcar, do chocolate ou da laranja, cabe à cachola fermentar-se em compreensões.

Há quem diga que o calor do forno não guarda relação com o calor do mato queimando, deliberadamente fica apagado o tempo em que a lenha era queimada para que pães, bolos e pizzas fossem assadas.

A humanidade pode ser avaliada pelo que fazem os benfeitores, os malfeitores e os sensabores.

Sim, há quem se ocupe de correlações entre o cabo que liga o forno à rede elétrica; como se macho e fêmea se completassem, é o mundo visto pelo infeliz.

Mas os tristes não enxergam o mundo como pinos e orifícios, o bolo é bom, é gostoso, dá vontade de comer outro pedaço, às vezes a gente come mais um, às vezes não faz boa presença pedir mais um.

Tem gente triste que sabe das coisas: que a felicidade, o bem-estar e satisfação divergem da alegria; que a alegria não se compra, pois os tristes não se empanturram; que há tristes capazes de transmiti-la pelo bolo assado em forno elétrico, e nem por isso se engrandecessem da renúncia de queimar lenha por um bolo mais cheiroso.

Às vezes, gente triste se alegra por bobagem; e, mesmo sabendo que é coisa passageira, ela sorri; não o infeliz sorriso amarelo, todavia comovida, sorri tristemente.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 13 de outubro de 2024.

quinta-feira, 10 de outubro de 2024

Ironias da vida

 

Ironias da vida

 

Dizer que Madalena sofre quando a vida dá uma rasteira, levando-a ao chão sem tempo pra proteger os joelhos, isso nem se discute, ela é outra coitada que, mesmo se mantendo esperançosa de não chamar a atenção, volta e meia mal se disfarça miseravelmente cambaia.

Quadro bem diferente oferece Mariana, não que a folgazã se divirta interpondo os pés no caminho de outrem, ela tem por muito engraçado qualquer tombo súbito, desde que o ridículo do trança pé dê o estrelato a terceiros.

Madalena e Mariana não são amigas; porque trabalham no mesmo supermercado, elas são colegas.

Na tarde desta que parecia ser mais uma segunda-feira entediante, um homem, ignorante das modorras do dia, procura Madalena.

― Filha, você sabe que eu te amo.

Afligida por uma angústia desesperadora, a moça toca o sininho pra que a liberem do posto, até que finalmente vieram ao caixa.

O homem que a segue é barrado por um segurança, todavia:

― Isso não está direito. Eu mereço outra chance, porque a verdade mais pura é que eu te amo. Eu te amo de verdade, filha.

Mais um segurança vem escoltá-lo para fora, entretanto:

― Estou sofrendo pra caraca, filha, pois eu te amo pra valer. E não digo isso só para que você volte a falar comigo. Como pai, filha, é meu dever lembrar que o meu amor por você não tem nada que ver com os problemas que a sua mãe tem comigo.

Já na calçada, à porta do supermercado, o homem ainda grita:

― Um pai nunca desiste do amor que ele sente, Madalena.

Contudo, no banheiro das funcionárias, Mariana diz:

― O seu pai é mesmo um canalha, Madalena.

Como as lágrimas não param, Madalena lava o rosto.

E Mariana tem algo a acrescentar:

― Mas não é porque ele traiu a sua mãe que o amor dele por você seja só da boca pra fora.

Escondendo o rosto com as mãos, Madalena senta na privada.

Mariana sente que é preciso continuar ajudando:

― Veja bem, talvez seja uma mentira das mais safadas, seja coisa de gente que não presta. Sei lá. Pode ser que ele queira parar de pagar a pensão que a lei manda que ele pague.

Por causa dos irmãos, o choro de Madalena cresce.

Sem dar papel para Madalena enxugar o rosto, Mariana insiste:

― Eita mundo absurdo!

Madalena não afasta as mãos que lhe encobrem o rosto.

― Como tem homem que nasceu pra ser calhorda, né?

Tendo conferido as notificações e recolocado o celular no bolso de trás da calça, Mariana acende um cigarro, dá uma tragada e diz com a convicção de fumante depois de uma prazerosíssima tragada:

― Caraca! Não que eu tenha muita certeza sobre o amor de um pai pelos seus filhos, mas pode ser verdade que ele realmente te ame.

E o bom senso pede?

O que Mariana não sabe é que o homem que diz amar tanto aquela colega é o mesmíssimo calhorda que nunca se interessou como anda a sua vida, estando ausente desde que ela nasceu.

Sim!

Além de trabalharem naquele supermercado, Madalena e Mariana têm o mesmo... progenitor.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 10 de outubro de 2024.

terça-feira, 8 de outubro de 2024

O circo do palhaço

 

O circo do palhaço

 

Como a vedete abandonada estava explicitamente desguarnecida, armou-se o circo: o caminhão recebeu pancadas, teve a lataria riscada por cacos de vidro, nem pôde abafar a balbúrdia dos pivetes.

Sem medo de serem escorraçados, os baderneiros destravaram as portas; o cerco não era uma guerra à máquina, buzinaram sem dó; por falta de freio, o veículo despencou ladeira abaixo, para o rio.

Só depois de encerrada a fuzarca que foi possível escutar o ébrio à sombra da caçamba, tão soberano nos balbucios de desprezo, adrede cabalístico nessa revolta.

Contra arruaceiros, bebe um gole de aguardente, mas a golada que engulha dará outra chama à rebelião, será mesmo contra? Por acelerar o pensamento, haverá a embriaguez que incendeia à lucidez?

Houve gritaria, acorreu a turba, telefonou-se à lei.

Um segundo caminhão foi chamado para tirar do rio o primeiro, que veio levar a caçamba e quebrara, foi vandalizado e viu-se enfiado nas águas do riozinho.

Houve a vinda, ocorreu o socorro, dispersaram-se os curiosos.

Além do bêbado que tanto rezingava, sem dar na vista de ninguém, calada, fumando, uma mulher, do começo ao fim do resgate, a fumante incógnita presenciou os caminhões saírem da travessa.

Entrementes, limpado o gargalo, ele ofereceu a garrafa.

Por sua vez, batido o fundo do maço, ela oferecia um cigarro.

Sem pestanejar, apenas ele aceitou a oferta.

― O senhor viu tudo?

― Não sei de nada.

― Vai me dizer que o senhor só chegou agora?

― Não vou dizer nem o que venha a me comprometer, dona.

― Se não quer falar, por que aceitou o meu cigarro?

― Saiba a senhora que eu nem tenho esse vício, dona.

― Mesmo assim, fuma que até faz pose, parecendo ator de cinema que olha fundo na câmera.

― Não trago na alma essa malícia de penetrar pelo fundo de quem me queira seduzido para essa tentação de me ver cativado.

― No entanto, o senhor traga o cigarro e dá um trago da pinga como se estivesse usufruindo de um Cohiba e um Royal Salute.

― Não faço ideia do que a senhora fala.

― Faz, sim, mas só não quer admitir que entende, sim.

― Dona, não sou de apostar. Principalmente quando eu sei que vou perder, que eu percebo ter muitas cartas contra mim.

― O senhor sabe como se diz: quem arrisca, petisca.

― Se a dona só quer mesmo é me ver enrascado, com sua licença, eu prefiro petiscar a minha cachaça, senhora.

― Se o senhor jogar a garrafa contra o muro, terei de prendê-lo.

― Então, a senhora quer me algemar?

― Se for preciso, eu algemo, sim.

― Dona, não sou engraçadinho que gosta de ser algemado.

― Então, me ofereça a cachaça, pois pode ser que eu agora tenha mudado de ideia e até aceite tomar um gole.

― A senhora aceita um gole de Velho Barreiro?

Súbito, a mulher dá uma chave de braço. Algemado o bêbado, diz-lhe ao pé do ouvido:

― Moleque que brinca com fogo quer mesmo mijar na cama.

― Carambolas! Já estou me mijando todo, minha senhora.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 08 de outubro de 2024.

domingo, 6 de outubro de 2024

Tempestiva autocrítica

 

Tempestiva autocrítica

 

Acabado de chegar, vindo da escola onde votou, ele foi direto tomar banho, pois, um tanto a mais que o aceitável, o suor incomodava-o.

A ducha morna era calmante, e, já que foi e voltou pedalando, tinha que medir o quanto o minara aquela atividade tão pouco usual, pedalar contra o relógio.

Ainda bem que, no portão, lembrou-se de que o número de ônibus circulando era menor no domingo. Com pressa para votar e voltar, não acharia salutar ficar quarenta e cinco minutos plantado ao sol.

Antes de montar na bicicleta, porém, certificou-se de que precisava encher os pneus e, tão logo pisou na calçada, repreendeu-se, pois era imperativo buscar proteger-se com o capacete.

Como andava bastante esquecido, fez bem ao abrir a carteira para não sair sem o título, que continuava na gaveta da cômoda.

Em outras palavras, tinha razões para achar o quão relaxante era a chuveirada. Também pelo efeito regenerador, até mesmo pra sentir-se revigoradamente tranquilo, demorar-se-ia o quanto precisasse.

Ainda que economicamente nocivo pro bolso, seu banho prologava-se, pois ele percebia que tinha muito em que pensar.

Se a voz da urna é a voz do voto, a quem dirigira a sua voz?

Ele votou em quem fez a melhor promessa quanto aos ônibus, cuja frota de veículos, em nome de um ar menos intoxicante, haveria de ser todinha elétrica. Menos poluidora e mais econômica, mesmo a quem a usa diariamente, a frota poderia ser maior.

Para que a bicicleta não fosse roubada enquanto estivesse na fila, pra não ter que tomar o cuidado de passar-lhe em corrente e cadeado, ele votou em quem assumiu a incontornável promessa de aumentar a paz de espírito, diminuindo o sufoco que tal sensação de insegurança tanto produz, mesmo em quem, vez ou outra, anda de magrela.

Com mais vagar, nesse banho ansiosamente apreciado, ele poderia aferir a qualidade do voto se não o atropelassem os pensamentos.

Avaliou que fizera bem em não perder tempo com o café da manhã, pois, por afoiteza: não verificaria os pneus, e comeria pão amanhecido; não colocaria o capacete, e beberia pingado gelado; esqueceria o título na cômoda, e, sem se lembrar do desodorante, vestiria a camiseta que envergara ontem e anteontem.

Fez bem em ir votar sem ver TV, pois não atulhou a cachola com o emaranhado de problemas pesando no lombo da gente, da maioria da gente que vota porque tem em alta conta sua obrigação cívica.

Embora obrigado, foi confiante de que o candidato escolhido tinha verdadeira preocupação com a saúde mental dos seus eleitores; então, previdente, ele só pegou da cola para digitar o número certo.

Ele digitou, esperou que a foto aparecesse na tela, apertou a tecla que confirmava como certo o seu voto; então, consciente, ele desejava que fosse eleito quem lhe indicara uma colocação, boa o bastante para segurar um 4X4 novinho em folha.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 06 de outubro de 2024.

quinta-feira, 3 de outubro de 2024

Bobeira

 

Bobeira

 

As três últimas semanas não me convenceram a gostar de sopa de beterraba, tanto que, ao terceiro dia, voltei à sopa de mandioquinha.

Ter pernas cansadas foi o primeiro desconforto, o vascular receitou o uso de meia de compressão, que me provou o quão chatinho é calçá-la e retirá-la, esse rolamento de pedra morro acima.

Em seguida, na segunda semana, deu-se o AIT, evento que me foi desnorteante, a ponto do esquecimento da máscara mesmo indo parar no hospital, em meio a outro surto de Covid na cidade.

Na última das três semanas tive restringida a vida pública, sedento de notícias das eleições, sequioso de entusiasmar-me com os embates eleitorais, uma vez que a política anima-me a ser mais que democrata, socialista e comedor de sopa de mandioquinha.

Assim, não fui pagar boletos; deixei avolumar a roupa suja no chão do quarto; sequer um dia deitei-me na rede para ouvir os passarinhos; gostei, no entanto, que a comida me fosse entregue; como nem só de futuro alimenta-se a minha alma, e sopa demais enjoa, lembrei-me da minha primeira surra pública.

Aos cinco anos, no prezinho, queria abraçar e ser abraçado, queria beijar e ser beijado, queria ser amado pelas meninas amáveis, e houve uns abraços e beijo tive um, somente um, que foi o bastante pro choro sentido da beijada, uma vez que o amor era fruto da minha cachola.

Denunciado pelo choro da surpreendida pelo meu beijo, fui levado ao desvelamento: além de recreio, escola tem diretoria.

E o diretor fez-me esperar por mamãe. E a secretária proibiu-me de desamassar papéis da lixeira, porque aviõezinhos não devem voar nas dependências da direção.

E mamãe veio, ouviu o que tinha que ouvir e deu-me a conhecer a cura que sabia que eu precisava sentir por mim mesmo, na pele.

A TV mostrou o homem pisando a Lua, minha mãe chinelou-me na bunda. O AVC do Costa e Silva não comoveu mamãe. Lamarca sumiu com 63 fuzis, a minha mãe continuou surrando a minha bunda. O Nobel do Beckett não afetou as mãos de mamãe, que não ia ficar esperando que a minha bunda ficasse corada diante de tanta gente estranha.

Pergunto: estará o passado conforme ao que lembro?

O passado continua lá, nesse recanto iluminado pela memória, farol que não impede barcos à deriva de chocarem-se em penedos.

Não digo que é divertido controlar a luz do farol e também não sofro o constrangimento de ser uma falésia. Não digo que me lembro porque desejo lembrar, é a memória que tem as suas bobeiras.

Se recordo as mãos de mamãe na minha bunda, não me ocorre de que cor eram minhas calças curtas ou por quanto ficaram arriadas.

Se não vem a cara da mãe batendo, ressoa a risada de quem viu a cena, e aquela gargalhada muito apoquenta, tanto.

Todavia, tenho uma nova pergunta: aos cinco anos, sem saber que dar tempo ao tempo quiçá não seja a melhor solução, o que podia um menino a não ser roubar selinhos às meninas?

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 03 de outubro de 2024.

terça-feira, 1 de outubro de 2024

A arte de merecer desaforos

 

A arte de merecer desaforos

 

Pessoa que lê a presente crônica, você me conhece, sabe que sou um narrador sensato, desses arregimentados pra não estorvar a leitura com parágrafos prolixos ou proferir opiniões que sejam mais cabulosas que indispensáveis à boa fluência da história.

Pessoa que me lê, você sabe que o desejo mais sensual que posso ter é convencê-lo da minha discrição, que preciso ficar recoberto pelos acontecimentos que vão revelando a anedota que a motive a continuar lendo, ainda que Seu Rodrigues apenas subscreva o escrevinhado.

Pessoa que me lê ainda que saiba que o Seu Rodrigues apela para que o acuda tão somente porque acredita estar impossibilitado de bem servir, por estar convalescendo-se de moléstia que não torna doloroso trabalhar em prol do próprio nome, mas, uma vez vagabundo, ele tem o direito de respaldar a vagabundagem num diagnóstico médico.

Primordialmente, a minha função é mofar da picaretagem do autor, que delega a mim que selecione as palavras, concatene-as em ideias e ultime o que seja captado como peça lealmente rodriguiana.

Não me entenda mal, pessoa que me lê, porque não quero que Seu Rodrigues fique oprimido por ter acordado com a boca torta, a fala meio bêbada, um braço lânguido, pois acidente isquêmico transitório enreda até quem se assegura imune à plausibilidade dos fatos.

A cadeia de eventos é esta: houve uma dor de cabeça repentina tão logo se deitou; os lábios ficaram secos; na madrugada, o braço esteve mole, mole, tanto que nem conseguiu alcançar os lábios mais salgados que o costumeiro; a língua estava mais áspera que o normal.

Por óbvio, o Seu Rodrigues foi pro hospital.

E foi-lhe dado soro e, pra que fosse confirmado que AIT era mesmo AIT, não um AVC ou outra sigla mais preocupante por obscuridade, lá ele foi ficando, mais ou menos, observado por quatro horas.

Pessoa que continua lendo ainda que não conte comigo que eu seja cúmplice de gente como Seu Rodrigues, indivíduo que parece distraído ou quer fazer-se de distraído, porque não me sinto confortável no papel de cúmplice de quem confunde distração com recreação.

É ato recreativo rir do mundo enquanto a caravana passa.

Pessoa que me lê, vou latir enquanto o Seu Rodrigues fica rindo da caravana que passa como se fosse catártico esse riso de gente ignóbil, de farsante que se apresenta como gente adoecida pelos amuamentos que o mundo provoca.

O mundo não adoece quem está com autoestima baixa, afeta quem tem imunidade baixa, ou seja, a pessoa cujo corpo não é fortaleza para proteger-se dos jacarés do fosso que a circunda, ela padece e tem que sofrer até que suas defesas sejam restabelecidas.

Seu Rodrigues, a sua risada não é trincheira, é máscara. Portanto, não espere de mim que lhe seja complacente, porque baixarei a ponte e, por despeito, eu contarei que o baile vare o dia e vire a noite.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 01 de outubro de 2024.

domingo, 29 de setembro de 2024

Atendendo a pedidos

 

Atendendo a pedidos

 

Para não me aborrecer, voltarei para casa.

Oferecem que eu passe na frente porque os meus cabelos brancos não disfarçam a condição, a de ter virado pessoa de idade provecta à gente trintona que se orgulha do reconhecimento gentil de estabelecer-me como mais um velho coroca a atravancar-lhe o caminho.

― A minha lentidão não é da conta de ninguém.

Em ônibus lotado, insistem que não é opróbrio algum tomar assento em lugar oferecido, uma vez que um ser humano envelhecido, e capaz de bazofiar, não tem que provar a resistência muscular que diz ter.

― Deus! Se eu tenho que caminhar do ponto até o sofá, os pulmões me pouparão de perrengues nos cem metros.

Como tem gente que pontifica que o mundo é palco a ser ocupado diuturnamente, ou seja, só artista amador reclama folga no instante de mais brilhar que ser ofuscado, eis que um cotovelo vai abalroar-me no nariz, um pisão vai acordar-me um calo e o olho na nuca não o esbalda por me harmonizar bailarino em performance capoeirista.

― Nos embalos de todo dia, travolteio que é espantoso!

Quiçá fosse interessante que amanhecesse chovendo, eu ficaria na cama até mais tarde, brincaria que a terra do quintal chama para pisá-la, que eu gostasse de me sujar, ou nada disso, eu fechasse a janela, lamentasse que chovia, que a lama do quintal nada tem de medicinal, terapêutica ou junguiana, eu sujaria meus pés, e, com tanta coisa para fazer, seria decepcionante a chuva cair, quem sabe eu me apressasse, quisesse andar na chuva, se ela cair, quiçá fosse o estimulante que me faça apressar, incomode e eu escape de vez.

― Minha estupidez me faz atenuar o que seja conflitante.

A inteligência das pessoas é atraente, não as pessoas inteligentes que optam pela mediocridade de agradar a si mesmas.

― Caraca! Mesmo sem dor de cabeça, não fico numa boa.

Essa é uma paixão que me perturba: quando sinto que não preciso sair e saio. Minha resistência é fraca, e saio. Nada de ficar em casa só porque não está chovendo, porque o boleto que vai vencer tem que ser pago uma semana antes. Fico apaixonado, me faço a crueldade de sair sem ser preciso, apenas pro calorão me secar a boca, eu seja punido por não usar chapéu, boné ou solidéu.

― Putz! A fome aperta quando eu sei que é meio-dia.

Falam que o pagamento deve ser feito na saída, marcam os preços do quibe, da esfiha e do espetinho de frango, desmentem que seja de graça o refrigerante, que as redes sociais querem tumultuar, a padaria depende do movimento, os empregados precisam trabalhar, o dono da padaria é um cara muito responsável.

― Cometi a idiotice de falar mal de mim na minha presença.

Se fizesse sol, não sairia. Se estivesse chovendo, não sairia. Mas, tirei o pijama, vesti a bermuda, descalcei os chinelos, calcei tênis, tudo para não me proibir de ficar em casa ou não ter que decidir o que seja, até emburrar à janela de casa.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 29 de setembro de 2024.

quinta-feira, 26 de setembro de 2024

Mais ou menos

 

Mais ou menos

 

Quanto mais eu me seguro pra não dar palpite sobre problema que não é meu, mais dispara o meu coração.

Na ânsia de mostrar-me útil, misturo o que posso com o que confio que posso, ou seja, mais acelero a minha cachola, onde afloram ideias disparatadas, e, cáspite!, minhas ações me confundem.

Sendo quem pede à cachola que faça o que pode para ajudar quem precisa, confio que me ouço e atendo, mas não faço o que imagino ser da ordem natural de minhas vontades, pois a cabeça tem suas veredas e seus despenhadeiros.

Às vezes, querendo a gatinha na caixa de transporte, vem o calafrio, olho a cicatriz na minha mão, lembro-me da mordida quando eu quis a gatinha fora da minha casa.

Nessas vezes em que a memória precisa recordar os meus erros, descortino-me à passagem. Sinto que a pinguela está sobre um cânion tão fundo que nem ouço as águas do riachinho lá embaixo, embora os miados cheguem a mim.

Há situações complicadas que merecem a consideração da corrida de olhos, para tomar pé: estou na praia ou no alto da montanha?

Sem que me empolgue, sem que eu queira quebrar a cumbuca para tentar colá-la outra vez, do jeito que eu saiba, sem a reprovação de ter escolhido meter os pés pelas mãos, quero entender-me.

Ainda que eu tema, que o medo me proteja, me faça atravessar, me leve a ajudar a pôr a gatinha na caixa de transporte.

Tenho tal qualidade: chutei, vi o efeito, calculei a potência e garanto que chutarei melhor da próxima vez, quero chutar outra vez, mais uma, estou certo de que a próxima não será fumaça.

Todavia, é quarta-feira, é dia de feira, é hora de ir comer pastel de carne seca, é hora do cafuné na gatinha: é hora de pastel, gatinha.

Não espanta que eu nem saiba o que há comigo, pois não questiono a razão de tolerar-me já descontrolado, já meio bobalhão.

O que importa é que seja quarta-feira, haja feira, dê em mim aquela vontade de comer pastel de carne seca frito na minha frente.

O problema, o que compreendo como um problema, é querer levar a gatinha, que nem é minha, é do vizinho; e eu quero levá-la ainda que ela nem saiba o que seja pastel de carne seca.

Quanto menos me assegure que as minhas palpitações têm origem no que entendo, fundamentadas, portanto, em mim mesmo, mais tiro sarro de mim, até que, pelo riso e pelas caretas no espelho, eu pegue o retorno aos humores de amígdala, pâncreas e sovacos suadinhos.

Vendo a gatinha dando um baile no vizinho, estou suando. Penso e não saio do lugar. Meus lábios secam; tenho vontade de pular a janela. Quero acudir quem precisa de uma mãozinha, só que o vizinho precisa pedir ajuda, ou serei outro metido que nem sabe ficar na sua.

Penso que não sou uma criatura vagabunda porque fico pensando na vida. Ter opinião é um fato, caramba.

Se o alpinista não quer molhar os pés na flor d’água, o escafandrista se arrasta morro acima?

Narciso faz a gracinha de ter consciência.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 26 de setembro de 2024.

terça-feira, 24 de setembro de 2024

Lavanda para borboletas

 

Lavanda para borboletas

 

Eu certamente adoraria voar se tivesse asas; como não me lamento de não as possuir, zanzo por aí como voejam as borboletas.

Às vezes, encanta-me ser uma borboleta.

Pelo amplo horizonte do que não sei sobre a vida de uma borboleta, imagino-a que pousa numa planta sem a danificar, penso que o néctar das flores alimente-a sem lhe abreviar a vida, quero andar de tal forma que o peso de meus pés seja mínimo, preciso sentir o mundo sem que a minha sombra enfraqueça a luz que banha uma joaninha.

É claro que não tenho antenas, tenho ouvidos.

Para tirar-me da espreguiçadeira, só hipnotizando meus tímpanos. Pouca gente tem dedos manhosos que produzam algum ritmo que me induza a prestar atenção na campainha, uma vez que ruídos não são música. Somente um camarada toca-a com o padrão acústico dos três apertos rápidos com dois compridos, é o Luisinho.

― De máscara, o que é que há?

― Deu positivo pra gripezinha, meu amigo.

Mais que afetar irritação pela demora em abrir-lhe a porta, ele ainda critica a minha recusa de integração ao mundinho contemporâneo, tão ricamente divertido pela montanha-russa de polêmicas políticas, bate-bocas morais e discussões bestas, só porque o caos é aleatório e nada é mais emocionante que espumar de ódio, babar por barbaridades ou, ao menos, inflamar-se com o fim dos tempos.

Ainda que me veja indisponível a cão do inferno, Luisinho diz a que veio. Se tivesse uma vida mais ativa nas redes sociais, ele certamente não teria que vir interromper-me a leitura matinal.

― Meu amigo, não conheço outra pessoa que tenha lido uma dúzia de vezes o mesmo livro. Será o normal pra gente pancada, hein?

― Só doze? As Viagens de Gulliver já li quinze vezes.

Como novidade boa é pão quente que tem que ser consumido sem a manteiga ficar rançosa, ele veio dizer que o vaso sanitário do Aurélio está dando o que falar.

Sem avisar, tem gente indo visitá-lo só pra dar uma chegadinha ao banheiro. Os mais caras de pau até levam garrafinhas de suco verde, cuja beberagem pode ser muito saudável, a bexiga, porém, fique cheia sem detença. Como demonstração de interesse pelas fotos altamente realistas, os menos afortunados bebericam limonada sem açúcar.

― O danado é um troço esquisito que parece bicho; mesmo sendo eletrônico, é inteligente pra burro. E sem que a gente peça, ele percebe a gente sentada, aquece o assento, liga musiquinha suave ou aquele barulhinho de água escorrendo que nem tem em posto de estrada.

Não falo, eu penso: logo logo, o trem projetará na parede os memes mais engraçadinhos, oferecerá wi-fi a quem anseie seguir o fluxo dos memes que não param de viralizar, dará acesso a informações sobre o primeiro vaso sanitário, a primeira rede de água encanada, a primeira estação de tratamento.

― Aliás, espertinho, a geringonça deixa o nosso rabo com cheirinho bom de lavanda.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 24 de setembro de 2024.

domingo, 22 de setembro de 2024

Cachorro morto

 

Cachorro morto

 

Pisando dentro da área adversária, quero saber de humilhar pessoa que já está derrotada, bater em gente já vencida, tripudiar sobre quem já foi punido, chutar cachorro morto ― eu?

Jamais chutei cachorro morto que achei pelo caminho, não por me ter projetado em qualquer ser atropelado pelos trens descarrilhados do mundo, independentemente de quem seja o maquinista, ou adversário poderoso ou combatente arguto ou besta quadrada que se assenhora um bambambã.

Espero ter-me feito entender: não visto a carapuça para esconder-me como senhor, macho ou outro babaca envaidecido pelo poder que atribui a si precisamente por identificar-se como senhor, macho e mais um babaca a se achar o tal.

Pelo babaca que julga ser, puxo-lhe o tapete, zombo da sua queda e publico a imagem; assim mais gente rirá, muito mais gente vai querer puxar tapetes e, pela alegria de haver provocado o ridículo, muitíssimo mais gente poderá manifestar o desejo de puxá-los.

Em outras palavras, subscrevendo-se esta visão da vida, o jogo até pode valer três pontos, mas ganhar o dia com riso e alegria deixa mais leve a cabeça da gente no travesseiro.

Dentro da área adversária, mas testando de cabeça no contrapé do goleiro, esse gol gera uma onda de satisfação que nem seria boa coisa frear, bom mesmo, pois, é soltar-se na comemoração pelo feito.

O feito? Ora, isso é o bem-estar superando senões, é o dia ganho, é o beijo da pessoa amada, é o bife acebolado em vez de ovo, é sonhar com a bola alçada, o olho aberto, a cabeçada certa, o grito que escapa porque não tem de segurá-lo, é a corrida pro abraço, é o time contente com a jogada bem trabalhada, finalizada como precisava ser.

Sem trocar 6 por 1/2 dúzia, gol é realidade tornada sonho.

É óbvio que o gol tem que ser valorizado pelo que é, pois a maioria das jogadas não chegam a êxito, ou por falhas nossas ou pela eficácia da outra equipe.

Pra que as nossas deficiências não continuem gritantes, treinamos. A equipe técnica nos treina para tirarmos proveito das deficiências do próximo oponente. Ensaiamos jogadas, antecipamos reações, damos o devido peso ao que haveremos de trabalhar, vamos a campo cientes do que deveremos fazer.

Por que preparados, obteremos a vitória?

Ainda que o gol demore a sair, insistiremos. Quando ficar evidente que a jogada pode ser feita melhor, repetiremos. Acreditaremos que o gol só depende da gente. Quando não mais, trocaremos; e repetiremos até que o gol saia.

E o gol só depende de nós? E bandeirinha não conta? E árbitro não entra no cálculo? O VAR não contribui pro prejuízo?

Nas partidas em que o apito fala mais alto, bom é jogá-las pensando na vaquinha da breja, uma vez que isso de apelar para o VAR é coisa da elite.

Putisgrila!

Na várzea da vida, artilheiro zica é quem nunca deixa de ser vítima de palhaçada toda vez que a marca da cal não é apontada.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 22 de setembro de 2024.

quinta-feira, 19 de setembro de 2024

Banho de lua

 

Banho de lua

 

A lua está escondida, talvez refugiada num buraco qualquer, é bem razoável que tenha fugido das atrocidades que os seres humanos têm cometido contra a natureza e contra si.

Olhei o céu nublado, quis adivinhar onde a lua estaria, concentrei a mente nessa localização, pois os problemas do mundo teriam solução.

Solucionados os problemas do mundo, eu seria o herói cujos óculos teriam lentes tradutoras para bem entender tudo quanto é sentimento, emoção e apoplexias.

Mas a lógica da vida natural é simples: não há herói que resista ao vírus da gripe.

Se eu fosse Sansão, daria de bom grado as madeixas, porque o pai de Dalila é sogrão que vive adoentado pelo cocuruto careca a pegar o sereno da madrugada.

Como eu sequer sou Don Juan, entraria pela lona do cenário, usaria da lanterna para ajudar um ou outro espectador a sair no meio da peça, sabendo que o Convidado de Pedra há de vencer no final.

Todavia, a natureza da vida põe simplicidade na lógica dos homens: todo herói de verdade tem Aquiles no seu calcanhar.

A minha vulnerabilidade não tem como de ser aparafusada ao chão do mundo quando a fúria surgir espontânea contra cálculos. A minha insônia não dá jeito no torto da minha coluna a fazer-me rolar na cama. À vera, meu ponto fraco é aquele que me vulgariza, que me apresenta um fantasma patético, um joão-bobo no meio do caminho de quem tem a honrada necessidade de descarregar-se de vez em quando.

Sou a válvula, o pino da panela, sou quem sente a pressão mas dá o seu jeito, quem teme ao dar-se como alívio.

No entanto não agi certo: molhei a manga da blusa; não tirei a blusa; deixei que a manga molhada secasse no meu corpo.

Embora os cientistas digam que vento encanado não dá gripe, que o vírus da gripe não curte roupa molhada, tênis encharcado ou a boca aberta de quem ronca de madrugada, ronquei como sempre e deixei a manga da blusa secar no meu corpo.

Primeiro veio a cabeça pesada, o mundo a rodar tão logo peguei do chão o garfo que derrubei; em suma, a minha cachola adulterada pedia comedimento, lentidão, que eu considerasse deitar-me imediatamente no sofá, ou seria oferenda viva ao mal-estar pantagruélico.

Pantagruélico, sim, pois em seguida os meus ouvidos entupiram, os músculos dos membros, tanto inferiores quanto superiores, passaram a doer, as pálpebras incomodavam, as narinas entupiram, começaram coriza e tosse.

Foi só largado no sofá que eu saquei: é gripe.

Gripado, a alma leve sujeitada às desventuras do corpo só chumbo. Febril, o espírito lúcido pressionado à tibieza bruta. Melancolicamente, esse poeta tornado nuvens a obscurecer a lua dos namorados.

Falta pastilha, irei comprá-la. Sem dipirona, entra na lista. Antigripal porreta, é mais um item incluído.

Com a voz anasalada, agradeço ao funcionário do caixa pela oferta da revistinha com dicas para domar certa ansiedade.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 19 de setembro de 2024.


terça-feira, 17 de setembro de 2024

Lorotas

 

Lorotas

 

Nem tento, qualquer explicação que eu ache bem fundamentada no que a realidade tem de mais concreto será inútil, pois não sou bom em me corrigir. Mesmo sabendo que a culpa pelo estrago crescerá quanto mais tentativas eu fizer, nem tento, mudo de assunto.

Como não vim tirar satisfação de ninguém, nem de mim vou cobrar a culpabilidade pelo erro cometido, ou pela série de erros que estou a cometer desde que o bem-estar convenceu-me a buscá-lo.

Assumido imbecil, julgo-me inimputável, feito qualquer idiota que vá por aí a dizer besteiras, perpetrar patacoadas, difundir barafundas, que a alegria nunca o alcança, já a felicidade e a satisfação perdidas.

Embora presumido energúmeno, opto pelo falsete, pelo disfarce de afinar a voz, pela liberdade de fazer o que bem entender com as cordas vocais que equipam a minha garganta, no melhor papel.

Sem gargantilha a adornar o meu gogó como gravata borboleta no Adoniram, garganteio que não passo de boneco de ventríloquo, porque o texto que vou escrevendo também me escreve, que fico bobo.

Sem cortesias à corte de descorteses, sou bobo.

Garganteio que sou forte, filho da sorte; tomo a liberdade, vendo as pessoas, observando-as, tirando lições pelo que observo como agem, garganteio mesmo que digo verdades.

Se tenho moral para tanto? Tanto tenho que me cortejo lúcido, fonte de água limpa a apagar queimadas, cupim voraz a devorar banquinho em pleno ar, voto que corrija a mão que tecla o número demoníaco que a todos nos consumirá.

Quando tenho que dar o melhor de mim, basta me sentir melhor ao beber a mistura de café com Coca-Cola, porquanto eu misturei no copo que bem escolhi.

Nem ingênuo nem energúmeno, sou o bobo que eu quero ser.

Às vezes eu sinto que posso dizer o que me mobiliza, mexe comigo, me faz querer falar pelas pessoas, embora elas nem cogitem que haja alguém no mundo que lhes entenda os mistérios, as contradições, que as faça transparentes, portadoras de evidências que as patenteiam tão gentis, solidárias e fraternas, mesmo que me engane, bobo.

Portanto eu bobeie, e continue bebendo da mistura que fiz com café e Coca-Cola. Que ande em linha reta, titubeie na corda, e siga crendo que ando ereto na linha bamba, a minha cerviz não me avilte ao curvar-me a falastrões velhacos.

Com mais café nem sentirei a Cibalena?

Na febre que me apavora: papai não tinha carro, nunca teve, nunca aprendeu a dirigir, nunca dirigiu carro de conhecidos; papai nunca me arrumou uma banqueta pra eu capotar na curva.

Lembro que o caminho mais curto até a escola era uma reta curva, ia da Capelinha ao Laurinda; a rua era uma barriga, uma rua como as demais: sem asfalto nem calçadas, tinha buracos e faltavam lâmpadas nos postes; a pança do Gigante Adormecido.

Serei Jonas sem saber em que baleia estou metido?

Com café, coca e cibalena, eis-me um moralista aditivado.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 17 de setembro de 2024.