O
melhor da vida
Ainda há pouco, estive na feira.
Aos domingos, já escrevinhada a crônica
ou adiada sua publicação, vou comer pastel e tomar garapa, e, já que estimo
hortaliças e legumes por suas vitaminas e seus minerais, também escuto os outros.
Tendo sobrevivido a pouco mais de vinte
milhares de manhãs, além de vestir-me com elegância, sábio é proteger os pulmões
com moletom forrado de lã e, a resguardá-lo da garoazinha, escondendo-o sob uma
japona impermeável.
Uma vez que me envaideço da figura de velho
bem vivido, embora até possam me retratar como pessoa fora de moda, cobri a
careca com a minha surrada boina de anarquista, e janota.
Se me perguntam por que o sessentão foi
à feira em manhã gelada, respondo que daria como vício se precisasse da garapa,
trataria como tradição arder a língua com a pimenta no pastel, diria um
contrassenso o cronista contentar-se na ignorância daquele burburinho.
Fluindo entre as barracas, fui indo, fui
parando conforme o papo me soasse interessante, fui amarrando cadarços ainda
amarrados, fui indo até voltar ― repassando a feira como labirinto de viela
única, cuja mão dupla era caótica, cujo caos tinha um tráfego saudavelmente
vagaroso, cuja lentidão compactava as pessoas tal qual um riachinho, cuja massa
de água fluía feito serpente a boiar à tona do espelho.
Enquanto ia, observei quem apalpou mamões,
pediu o que achava preciso e pagou o que lhe foi cobrado ― era quem tinha ânsia
de gente que sabe que os sinos sempre hão de badalar pela missa das dez.
Sentados no meio-fio, havia os fumantes.
Dentre quem teria de esperar, havia quem
mendigasse. Ainda que fumassem, clamavam pela misericórdia das pessoas que entravam
na feira já a Matriz assinalando o meio-dia.
Como cheguei cedo, zanzei. E foi
zanzando que fui me achegar ao pastel só quando estava com fome.
Numa das mesas, comiam pai e dois filhos.
Comiam e papeavam. O menor dos garotos tinha perguntas, muitas; lá pelas
tantas, ele quis saber se era verdade que macaxeira e mandioca são a mesma
coisa; coube ao pai dizer que sim. A mais velha das crianças, a que exibia na camiseta
um coloridíssimo Bob Esponja, insistiu tanto que era bom pôr pimenta no pastel
que o caçula caiu nessa, só que, assim que a sentiu, ele começou a chorar, e
tanto chorou que o pai teve que se morder pra não soltar o que pensou, que era chamá-lo
de criançola chorona.
Sim, mesmo na feira pertinho de casa, convivo
com essa gente que preza os laços familiares, venera a transmissão dos saberes
de nossas tradições, cultua e honra o bom nome da nossa gente.
Depois de outra manhã na labuta por uma
vida menos inadimplente, os feirantes carregaram consigo o que podia ser vendido,
deixando aos xepeiros o que restasse feio, batido, amassado ou murcho.
Além de salsinha e cebolinha, trouxe o
que a boleira me assegurou ser saboroso, um bolo tipo cake.
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 20 de outubro de 2024.