sexta-feira, 5 de abril de 2024

Jogo rápido

 

Jogo rápido

 

Se eu fosse o cara chato que dizem, teria arredondado pra duzentos degraus. Só que a escalada do térreo ao quinto andar foi calma, afinal a convalescente sabe que esperneio sem motivo. Quando interrompem minha água de coco, dou chilique. Não esperneei pela saliva acre, mas me vi forçado a uma paradinha. Duzentos degraus, só isso?

Subindo, fui matutando quais os assuntos deixarei de abordar. Não falarei do céu azul, uma vez que o quarto tem janela. Não me exaltarei pela selvageria dos cavalos de um Porsche, o controle é remoto porque está à mão. Quase lá, assentei que o papo fluirá espontâneo.

Quem abre a porta é Marcelo, um ex-marido. Sentada na cama está Samira, a esposa. Pra nos beijarmos, a Bel que conheço desde menina abre os braços.

A acamada não sabe dizer quanto durou a cirurgia. Quererem saber qual a sua religião, a pergunta não tinha que ser respondida. Pede que eu veja o que foi extirpado, ele entrega o pote com as pedras. Segundo o médico, logo a dieta incluirá pizza. Os sorvetes voltarão a ser muitos e as noitadas hão de ser de delícias mil e a humanidade resplandecerá; se fosse um cara bacana, o doutor teria dito.

Tive medo de irritá-la. De desapontá-la, não tive. Ainda assim, não passei de um visitante de poucas palavras. Esse medo de contrariá-la quando ela pedia açúcar no mamão, foi isso o que me encalacrou. Pela inconveniência da aparição, foi o que me fez parar um instante durante a subida. Precisei parar porque eu preciso respirar melhor.

Não especularei sobre a rapinagem dos minérios de Essequibo pelo obsessivo ditador venezuelano. Não criticarei o ataque abominável do exército israelense contra o comboio de ajuda humanitária em Gaza. E não professarei adjetivos sobre pele feito capa às folhas que tratam da alma, os honoráveis de Harvard que sejam humanistas.

Transformado nesta carranca que escuta, sorrio.

Ela diz que fiz algo bom ao vir visitá-la. Ela diz que a presença dos amigos ajuda porque as horas passam voando. Embora lembrar-se do passado ajude, prefere envolver-se no dia a dia, que isso gerará novas lembranças.

Deus piedoso, aleluia! Que a Bel volte a sassaricar, logo, amém!

A caminho, sou parado. A moça tem caneta e prancheta. É para ser rápida a entrevista. Quantos quartos tem a minha casa. E quantas TVs, geladeiras, máquinas de lavar. Quantos celulares e fogões. Quanto eu ganho? Se a casa é própria nem é perguntado nem se a deixaria usar o banheiro em caso de urgente necessidade.

Respondi, e não me arrependo de tê-las respondido. Eu poderia ter acrescentado uns dois celulares, mas o contracheque comprovaria que tenho só uma boca. Eu deveria ter dito que ter Porsche não é um sonho meu. Paparazzis brigarem por uma foto evidencia o quão míopes eles são, uma vez que não sou roqueiro nem astro das telas.

Graça mesmo é um sorriso não ser o meme do momento.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 05 de abril de 2024.


terça-feira, 2 de abril de 2024

O meu número

 

O meu número

 

De pronto, é bom que você saiba que o título da crônica não guarda referências aos tamanhos de calçado, roupa ou ego.

Agradeço ao texto pela introdução do tópico ego logo no início, pois a sua dimensão será mínima, visível o suficiente para que seja notada a discrição necessária à fluidez do que se conta.

Das tantas personas catalogadas em manuais de psicologia, a que se revela é a que entra como ‘escada’ em esquetes cômicos. Para que a piada tenha graça, Dedé e Didi precisam ser complementares.

Nesta história, o narrador, personagem emblemática, diferencia-se pela boa-fé. Sem timidez ardilosa, ele atua em segundo plano.

Assim, ainda que não a profira, estou seguro da minha gratidão pela jovem que me pergunta se quero batata extra ou sundae.

Formada no ensino médio há dois anos, ela fará dezenove anos em novembro. Não há pressão para que estude Farmácia, mas a dona da casa onde mora, a avó, é leitora entusiasmada de bulas e adoraria vê-la usando do jaleco personalizado para autorizar pílulas às insônias e drágeas a súbitos achaques. Ela é compreensiva, entende que isso de apelar à chantagem emocional é coisa de vó.

Assim como o amor que irradia é vasto, o terreno da casa é enorme, tem árvores. Como frutas atraem passarinhos, o dia todo tem cantoria no quintal. De noite, uma coruja costuma aparecer quando não chove. Se piado de coruja anuncia desgraças, bom mesmo é escutar bem-te-vi e joão-de-barro.

Na jabuticabeira, a casinha do joão-de-barro faz tempo que está ali. Ela era menina quando viu aquilo. A avó diz que não deve tocar de jeito algum ou o joão-de-barro se manda de mala e cuia, vai construir a sua casinha em outro lugar, no abacateiro do vizinho.

Ei, vovó, amar não é dizer amém o tempo todo.

A jovem diz que eu devo conhecer a sua avó. Ela é muito conhecida na cidade. Todo mundo a chama de Véia do Troco.

A neta não sabe quem deu o apelido. É lógico que ele pegaria, pois a sua avó nunca anda sem troco. Ela sempre tem troco pro ônibus, pro mercado, pros remédios. Quando as moedas estão para faltar, recorre ao banco. Pede que lhe arrumem moedas de cinco, dez, vinte e cinco e cinquenta centavos, e de um real também, é óbvio. Não esquece de pedir que troquem o dinheiro em papel, quer todas as notas, as de dois, cinco, de dez, vinte e cinquenta. Tem mais, sua avó não sai da agência sem que a atendam de acordo com o solicitado.

Uma vez tentaram assaltá-la na saída do banco, mas o ladrãozinho apanhou tanto que nunca mais bandido algum tentou novamente.

A jovem diz que a sua avó me conhece.

Tem boa memória a pessoa que não se esquece de nada ou a que não deixa de lembrar-se quando precisa?

Como prova de que a sua avó não é mentirosa, a jovem mostra-me um caderninho em que o meu nome e o meu número de telefone estão anotados.

— Moça, perdoe-me pela cabeça que falha, mas o fixo de casa foi cancelado há duas décadas.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 02 de abril de 2024.

domingo, 31 de março de 2024

Uma folga a menos

 

Uma folga a menos

 

No melhor da festa, cortaram o som, negaram bebida, trancaram o banheiro, devolveram os celulares, bateram a porta atrás do último que foi posto para fora. O forrobodó durou o quanto quiseram, e tchauzinho, pois, já domingo, o sol entrava em cartaz.

Aos domingos, depois da missa das dez, Dona Cremilda vem pôr a prosa em dia. Quando desconverso, ela não pestaneja. Provavelmente surda às palavras carbonárias do pároco, seu teste sobre o estado do humor são as cosquinhas na carapaça: se este bicho só franzir a testa, estou natural. Ela nota que minha testa franzida é dissimulação, porque o mel do meu sorriso não vem da boca, deito-o com os olhos.

Poético. Contudo, por me conhecer há anos, Dona Cremilda ignora a minha lábia e, direta, aborda o que lhe é importante.

Começa pela saúde: se melhorei da tendinite, se estou tomando os remédios, se quero companhia pra ir ao médico, se marquei a consulta, se eu ainda tenho anotado o telefone da clínica.

Pra coisa certa ser feita, ela pega meu telefone, salva o número da clínica e agenda o alarme para nove horas do dia seguinte.

Muito me apraz a sua presença. Não há domingo que não venha. A cada vez, embora não a afete, peço que não se preocupe, pois os seus cuidados com os outros vai envelhecê-la mais rápido.

Porque vai almoçar na casa de um primo, ela abreviará a visita.

— Que coincidência! O meu primo também completa 60 anos neste 31 de Março. Bem no dia que comemoramos a derrota dos comunistas que pretendiam escravizar a nossa gente.

— Mas, o golpe não foi...

— Cabeçudo, não discuto com gente que não ouve.

Não, ela não sabe quem é Elio Gaspari. O presente ela já comprou, O mínimo que você precisa saber para não ser um idiota.

Não sou de tergiversar, mas abro exceção à Dona Cremilda.

Depois de três anos de amizade, não gosto de espezinhá-la só para vê-la bufando. Favorece-a ter semancol. Controlo o sarcasmo. Quando meu fígado está prestes a apoderar-se da minha boca, ela conta piada. Infame ou engraçada, tanto faz, pois recolho os meus caninos.

Ontem, entretanto, mostrei-os ao Honório.

Aos sábados, antes do almoço, quero relaxar. Ou escrevo pouco ou nem começo a escrever. Se sobram as palavras, me interrompo.

Deito no gramado. Nem sei por quanto tempo fico vendo as abelhas voejando. Me divirto. E faço as abelhinhas abusarem, ficarem doidonas com o pólen a mais que o habitual.

Todavia, veio o Honório falar o que tinha pra falar.

Que à porta do bar, um bebum vestido de verde e rosa gritou:

— Olha a mangueeeira, geeente!

O enterro passava. Houve irritação. Os mais irritados rezaram com paixão. Um dos carregadores do caixão deu com um pé na mangueira que cruzava a rua. Com o caixão indo ao chão, foi aquela comoção.

— Bem que eu avisei; arrematou o pinguço.

Sem pigarro nem soluço, sério no sarro, eu disse:

— Honório, de coração! És o finório da contação!

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 31 de março de 2024.

quinta-feira, 28 de março de 2024

Mãos limpas

 

Mãos limpas

 

Embora o cuco esteja parado, os números continuam agindo. Caso os ponteiros indicassem outra hora qualquer, e não meia-noite e meia, talvez as circunstâncias fossem semelhantes, mas o frio seria menor. Terá que haver sol e cortinas balançando discretamente para que o dia seja propício à multiplicação de ideias. E ideias que sacudam a cachola desde a alvorada, ou antes até, ainda durante os sonhos.

Talvez a alma acomode-se melhor na carne aquecida pelos afagos solares, já os afluxos lunares não descartam uma agitação. Empenhar-se em trocar tanto dia pela noite quanto a noite pelo dia é comprometer-se, consciente e inconscientemente, a escutar-se em tique-taque.

O tempo é a pele em comunicação com o cosmo?

Não é à toa que uma dorzinha de cabeça surja pulsante, pois uma ideia instigante seduz de tal modo que, excedendo a influência natural, a lua e o sol agitam o sangue.

Há pessoas cujos sonhos afinam o sangue. Em raríssimas pessoas, o sonho agita o caldo cerebral, havendo tal efervescência espiritual que a boca profetiza.

A língua da pessoa que profetiza não seca fácil. Muita gente celebra as palavras proféticas, tanto celebram que as registram e as publicam, pois o dinheiro arrecadado com as vendas é motivo de júbilo.

Se a inspiração não vem, martele-se o dedo. Quem martela o dedo chega a ver estrelas, e ter aquela dor latejante, que não é pra qualquer um, é para ambiciosos. E defensores de ambição gananciosa, porque a pessoa que suporta a dor tem que aprender a sublimá-la.

Uma vez, e é claro que houve muitas vezes, martelei o polegar, isso ensina que palavrões não eliminam a dor. Com dor, cuidei das tarefas, fiz contas, li o meu Drummond. Há mágoa que não pulsa um dia inteiro, até omelete eu pude cortar quando bateu a fome.

Dificuldade maior eu tive ao lavar as mãos.

Porém é preciso chegar a isso: usar as próprias mãos para livrá-las da sujeira. Lavar-se não apesar da dor, mas porque dói. Apontar o que dói é banalizar a condição e banalizar-se é menosprezar-se. Ainda que não compreenda, a pessoa aprenda a cultivar a dignidade de sofrer em silêncio. Todavia sofra enquanto for preciso, ou restará presa à dor que não cessa. Mas sentir que o instante passa é profícuo.

Lavei-me, uma vez que havia feito o que tinha para fazer nesse dia: arranquei os matinhos dos xaxins, limpei os ralos do quintal e queimei a carta que eu não escrevi porque tenho cega a canhota.

Com mãos prenhes de emoções contraditórias, um tanto trêmulas, peguei do lápis para hospedar o que desejava escrito. E vi que as mãos realmente precisavam de uma boa esfregada, daquelas que deixam a pele vermelha. Essas mãos muito bem lavadas, com esfoladinhas aqui e ali, transmitem o perfume do sabonete líquido às palavras. Ah! Sim! Sentimentos perfumados inebriam.

Muito embora lavar as mãos seja salutar, sou mais sujá-las.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 28 de março de 2024.

terça-feira, 26 de março de 2024

Cuca fresca

 

Cuca fresca

 

Gritam, “olha o caminho”. Falam e acham que são objetivas as suas falas. Qualquer tentativa de veicular o que pretendem dizer com o grito é ato de perfídia. Em essência, o tradutor apresente-se, escale os vãos das palavras. Seja denunciante de quem trabalha pelo óbvio captado, ou pouco adiantaria o discurso aprumar-se na sinceridade do ouvinte. Por conferir aos contraditórios a falsidade, ao leal é imperativo que a lógica prevaleça. A ordem tácita, ‘sai da frente’, condiciona o evidente: ignore, sofra as consequências.

Voltemos ao berro. “Olha o caminho” indica que um ciclista precisa passar. As sinapses não estão vagarosas. A consciência trabalha essa frustração, de escutar como convém. O veloz prevê dificuldades. Quer evitar um acidente. Não quer sair como culpado. Acertará quem obstrui a passagem ou cairá pela freada abrupta ou só irá parar muitos metros adiante. É preciso dar-se as condições de escolher. À pessoa que não para de pensar nos próprios erros não agrada o papel de réu.

Em “olha o caminho” fique implícito “filho da cuca”.

Esmiuçemos o brado. “Filho da cuca” virá tarde. Depois de tombo, impacto, freada brusca, probabilidade da batida. Ainda assim o mundo não tomará conhecimento desse atropelamento. Nem as pessoas que normalmente prestam socorro saberão qual vítima tem razão.

Do rapaz ouviríamos, “vou perder o dia”. Da atropelada ouviríamos, “está doendo pra chuchu”. A acompanhante da senhorinha falaria, “que rapaz sem juízo!”

Ao acolhermos essa linha, e por nosso humanismo, incluiríamos um socorrista que se limitará a trazer a maca.

A médica da ambulância examinará pés, pernas, joelhos, as coxas. Apalpará braços. Verificará as mãos, os pulsos e os cotovelos. Sempre anunciando o que fará, ela eliminará qualquer fratura no pescoço.

Para não se ver incluído no imbróglio, mesmo afastado do telefone do ponto, o taxista acenderá o cigarro, tragá-lo-á sem pressa alguma, e, temeroso de balbuciar qualquer banalidade urbana, nem se arriscará a formular: “está quente, hein?”

Fixemos a atenção sobre “filho da cuca”.

Pratiquemos nossa humanidade. Apaguemos da ideia a senhorinha a orar, a pedir que a soltem da maca, a usar um colar cervical, chorosa. Silenciemos a sirene. Suprimamos o corpo de socorristas.

Escutemos o que nos diz este “filho da cuca!”

Quando a gente é atingida pelo pasmo, subitamente o corpo dói. A alma dói. Gemer é uma arma. Defenda-se. Suar, tremer e gemer, tudo é dor, a mente dói. Pelas dores que sente e pelas dores que imagina, a gente sofre. Pelas mágoas que precisam de cura, basta de aflição.

“Filha da cuca!”, ela grita o que grita à guria de patins por causa do susto. Embora saiba ser uma dama, a bem-educada e bem-apessoada torna a bradar à pequerrucha, “sua filha de uma cuca!”

Essa dona não perde a classe porque sempre tem razão.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 26 de março de 2024.

domingo, 24 de março de 2024

No vai da valsa

 

No vai da valsa

 

A chuva não me interessa; as roupas molhadas também não. Olho a criança que não se abala que chova. Por ela ainda não me interesso. Pode ser que traga alguma tristeza nos olhos, mas não enxergo seus olhos. Não perco a esperança de compreender o que me fascina, estou focado no olhar. Dou como interessante que esteja concentrada no que sei lá o que divise, mas ela não simular comoção é intrigante.

Ser vista não a instiga a continuar como está, pouco importa que só ela mantenha a impassibilidade. A sua indiferença me enerva, mas não manifesto o grau de ansiedade que me importuna.

Não cuido em descobrir por qual motivo ela não se interessa sequer pelos entregadores que não a abalroam porque têm o dever de provar a quem pediu comida que trabalham direitinho, sem camelo caindo aos pedaços e, indiscutivelmente, sem hematomas.

Na impossibilidade de especular o que tanto a motiva, desencavo o que excita naquele olhar. Nada pétreo ou petrificante, tal olhar acorda-me outro. Viro criança. Pela ansiedade de ser visto, desejo comovê-la. Sem transparecer que esteja afetada, pouco importa que a chuva não impeça que a observem viva. Incorrigivelmente, olhá-la é cativante.

Ainda que meu olhar ponha-me violento, a criança não percebe que o uso como bisturi. Não opero feito cirurgião. Tomo-me por câmera que enquadra tão somente o olhar. Não rasgo a carne, minha mirada é um instrumento cirúrgico que funciona como pincel. Não exploro tendões, vivifico tensões. Estou tenso, algo trêmulo. Não me policio, tenho medo de perder o encanto que me mobiliza retratá-la. Mesmo carregado, não me faço notar. Ela não liga que eu a pinte de maneira desastrosa, sem o manejo magistral de Goya em Saturno. Por bisonho que seja, ainda assim não abro mão de apostar no que expressa aquele olhar.

Saio da varanda, desço à rua, vou à chuva, desejo sê-la.

Um sexagenário levaria guarda-chuva, sou um e não levo. O trintão andaria rápido, sou esse e não ando. O debutante valsaria sua música, sou outro mas valseio.

Propenso a achar pelo em ovo cozido, descasco-me. Dou à criança a resposta que entendo apropriada. Sem volúpia de ficar imóvel, meus cinco anos seguem sendo aos sessenta.

Por um momento, paro. Posso o próximo passo, posso cruzar a rua, posso pôr meu olhar em diagonal ao olhar da criança na chuva. Passo a passo, posso garantir não nos vermos.

Num instante de exibicionismo, pra velarmos nossa nudez, as duas crianças são uma. Sim, inflexão é outro espelho.

Concebo essa estranha esfinge: sem corpo de leão e sem asas de águia, com uma face menina. Sem nos vermos, nos assanhamos. Uso a mente, gravo as iniciais do nome que não possuo. Com vontade de ter raspada a bochecha no muro, escancara-se o pas de deux.

Por timidez, eu choramingo muito bem. Todavia, agradeço à pessoa o desembaraço de beijar-me onde acuso a ferida.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 24 de março de 2024.

quinta-feira, 21 de março de 2024

Brincadeirinha

 

Brincadeirinha

 

Na primeira caminhada do dia, Mauro parou no instante em que um gavião atacou uma pomba em pleno ar. De estalo, ligou. Ninguém em casa àquela hora, aquilo era estranho. Estancou na rua, queria assistir à pomba sendo devorada. Tirou fotos, apagou algumas, usou o zoom. Ainda que insistissem em ignorá-lo, à imagem, a única que enviou por apreciá-la a mais visceral, ele apôs: outra manhã gloriosa.

Era só uma brincadeira, não mais que isso. Enviada para provocar reação, qualquer que fosse, mesmo para ter criticado o humor, pra que gerasse emojis exageradamente cáusticos, mormente infantis.

Todavia nada, do zap do Júnior vinha somente silêncio. Que fosse! Uma vez ignorado, igualmente ignoraria. Indo adiante, a caminhada do Mauro completar-se-ia à porta da padaria. No entanto, nenhum retorno. O Júnior não espernear de volta, aquilo era difícil de acontecer.

À mesa de canto, Mauro pediu o pão na chapa com pingado de todo dia. Como de hábito, deixaria guardanapo e telefone paralelos. Ainda que o filho não tenha enviado nem mesmo bom dia, interessou-o que tratassem do noticiário. A maioria condenava a falsificação dos cartões de vacina, no entanto, assim que entregaram o pedido, Mauro satisfez-se em comer e beber.

Feito o desjejum, telefonou. Outra vez, nada de atenderem.

Abriu a foto do gavião devorando a pomba. Não tinha nada demais, uma cena corriqueira do mundo animal.

O filho ficar melindrado era mimimi. A luta pela sobrevivência é real, a vida não dá moleza. O gavião precisa comer tanto quanto a pomba. É natural que pomba coma grãos e ave de rapina alimente-se de carne. O mau humor de sequer ralhar, aquilo era um despropósito, uma coisa de gente mimada. Como o Júnior não foi criado a pão-de-ló, fazer bico ofendia. E o Mauro, como pai, não era flexível com desfeita.

Quando desafiado, ainda mais por gente da família, a temperatura do sangue subia. Precisaria dar saída à pressão ou seus pensamentos caraminholariam. Ter uma cachola como a sua, pensar pensar pensar, isso o degringolaria.

Com o juízo embaraçado pelos vermezinhos em legião, Mauro tinha que se distrair. Seria divertido recriar o duelo do gavião com a pomba. Poderia fazê-lo, porque tinha compromisso com as ideias que assumia. Queria fazê-lo, pois um aplicativo dar-lhe-ia opções, sugestões, abriria veredas pra explorar, experimentar, vivenciar.

E se o gavião trucidasse um rato?

Com inteligência para resvalar as rés do chão, estava farto de ouvir sobre joias desviadas e devolvidas. Em vez de enfarar-se de inquéritos em andamento, podia escutar-se.

Que faria, então? Colocaria a pomba atacando o gavião?

Não era fã de clichês. Desdenhava de gente que se garantia criativa ao alterar detalhezinhos de algo mais que aprovado, tão batido.

Antes de pomba refestelar-se de pomba, Mauro fecha o aplicativo.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 21 de março de 2024.

terça-feira, 19 de março de 2024

Flanelinha

 

Flanelinha

 

A minha contribuição foi gesticular como se soubesse o que estava fazendo, a culpa, portanto, é do motorista que acreditou em mim.

Dizer que tenho duas caras é um erro, pois tenho muitas. As visíveis sem nada de extraordinário colaboram para que eu seja definido como uma pessoa normal. Também faço as surpreendentes, que podem ser aquelas que espanam a poeira depositada em mim pelas sensaborias cotidianas e aquelas que despertam censores, aqueles que me rotulam egocêntrico ou os que me invejam o narcisismo.

– Não nego nunca minha disposição pra ajudar.

Eu respeito, não abuso da confiança. Mas me irrita ser interrogado sobre minha cara fechada. Não gosto que me menosprezem. Peço que seja apontada a razão pra tamanho pé na bunda. Não se excedam.

– Sim, Antão, a minha casa me agrada. Se as pessoas reparassem, veriam que a garagem nunca viu um automóvel estacionado. Meu lar também não tem cão nem gato, pois não tenho tanto tempo assim.

Há quem não se importe de suportar miado o dia inteiro. Mas viver sozinho não me faz insensível. Precisado de carinho, qualquer bichano pode chegar. Gosto de acarinhar, e respiro melhor.

– Outra coisa que acalme?

A primeira coisa que me ocorre, é fechar os olhos por um tempo. E deixá-los fechados ao ouvir música. Mesmo que falatórios atrapalhem a curtição, aumento o som. Curto a vadiagem, ela refreia os rompantes. A última coisa que desejo é ser tomado por brusco, um selvagem.

– Sim, Antão, não vejo problema considerar a minha cama um divã. Na cama, satisfaço os afetos que careço. Nela, largo à realidade o que desestabiliza. Até consigo falar pro senhor o que normalmente me falta coragem. Não é mentira, eu sempre sou transparente dormindo.

Não sou dorminhoco.

– Sim, Antão, apago doze horas ao dia. Durmo oito horas por noite; a pestana depois do almoço dura duas horas; o cochilo depois da janta dura outras duas horas. Sou um cara consciente, eu durmo só o quanto preciso.

Dormindo, esqueço que meu time foi desclassificado no mata-mata. Dormindo, cruzo o rio pela pinguela atrás de casa. Passo carregando a coroa de flores. Martelo uma escada. Pinto de vermelho a porta dos fundos. No inverno, trepo no abacateiro. Dormindo, sonho que trabalho para que o mundo melhore um pouco.

– Sim, Antão, acho que tudo na vida tem razão de ser. Até quando o carro perde o freio, derruba o muro e atropela o gato do vizinho. Faz parte, não tem como impedir que o carro bata no muro, esmague rosas e assuste aquela gente que tem um gato que ronrona quando a gente faz carinho na sua cabeça.

Se a vida é ronronar para que sejam amorosos comigo?

– Antão, talvez eu precise cochilar. Talvez, dormindo, possa pensar sem refletir. Quem sabe tome da coragem para espalhar o que penso. Quiçá abandone a comichão de ajudar motoristas apenas porque eles não saem de fábrica com autonomia inteligente.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 19 de março de 2024.


domingo, 17 de março de 2024

De afogadilho

 

De afogadilho

 

Estou chocado. Porque estou, não me ampara a autocensura. Jogo a culpa na inclemência climática, pois me transtorna de tal modo que me obrigo a suar mais. Eu poderia ser gracioso na paródia de pessoa sensata que sabe o que não deve fazer, mas colapsar, já energúmeno, faz soar o mais chocante.

Luciferino, dou voz de liberdade às caraminholas elétricas da minha cachola. Pro tédio não me corroer, salivo o infernal a cada palavra que me horripila. Garoto-propaganda do jeito indômito de viver, estou apto a transgredir o colapso. Localizo-me no mundo, e sorrio.

Tolero a polarização. Conheço, fui apresentado às divisões: o Norte será o Ártico; o Sul será a Antártida. No entanto, a Terra não é redonda nem plana, é geoide. Aceito que a bolha científica permite-me respirar por aparelhos. Recorro a ar-condicionado, refrigerador e celular.

Já que ondas de 40 metros deixarão cidades litorâneas submersas, condoo-me de não ser geneticamente bilionário para trocar pulmão de aço por brânquias.

Mesmo com o fim do verão, dizem que o calorão continuará.

Pobre outono, cujo perfil sofrerá desgaste. Afinal, muita gente gosta de limonada gelada, mas o sol não agirá implacável, é a estufa gasosa que tanto nos aperreia.

Peço por aplicativo. Irei pegar na farmácia o remedinho que me põe tranquilo. Tranquilidade não é serenidade, trago nuvens nas veias.

Estou ruim da cabeça, exagero, acutilo, saio da estrada, passo sob pontes, adentro o brejo, avanço, entro, avanço pelo pântano.

Afundo na lama fétida, o lodo é terra ensopada de esgoto. Misturo-me ao brejo, ao nojo, ao que me deixa pior. Radical, desejo resistir, me quero adaptado ao charco. Quero sobreviver à charneca que me atola.

Chapado de sol, sinto-me escamoso. Já chaparro, eu sou outro.

Pergunta-me, porém, o moço da farmácia:

— Encontrou o seu dinheiro, senhor?

— Sim, encontrei as merrecas atrás de uns livros.

Não havia dinheiro algum caído atrás dos livros no meu quarto, mas tenho pressa.

Não seja suposto que o afobado seja um sujeito digno, que poderia sê-lo se não estivesse suado, querendo que os ansiolíticos pelejantes da boa peleja arriassem-no a céu aberto.

Questiona-me, entretanto, a moça dos sapatos:

— O senhorzinho tem coragem de usar tênis de mil reais?

— Sou um senhorzinho de espírito jovem, senhorita.

Entender, entendi. No entanto, preocupo-me. Uma vez preocupado, fico ansioso. Mais predisposto, mais atávica e civilmente brasileiro.

Com a cachola a ponto de pânico, fio que o destempero se deva ao calorão. Queria influente quem me carimba leviano, mas, flexível, vivo ao azar das turbas.

Ao ser abordado, eu percebo a possibilidade? OK, mendicante, não preciso repassar todo um rosário de misérias.

Sem forçar amizade, simpatia ou fajuta fraternidade, atalho:

— Viandante, carece que o sinhô lhe pague uma gelada?

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 17 de março de 2024.

quinta-feira, 14 de março de 2024

Estranhamente familiar

 

Estranhamente familiar

 

Poderia estar almoçando, mas o gás não chega. No portão de casa, espero o botijão que realimentará o fogo às panelas de arroz e quiabo. Porque a paciência evaporou em minutos, muito antes dos prometidos dez minutos, estou ao portão, plantado há quarenta minutos.

Não sou dado a precipitações, guardo posição. Entre ir para lá e pra cá, não desço à calçada. Longe de mim o degrau servir como pedestal, seria ordinário o motoqueiro ver-me de longe. Já que automóveis não abrem passagem só porque estou com fome, posiciono-me.

Conto que prepondere a lógica, que a atuação seja sentida na real dimensão. Como a representação de pessoa que tem fome precisa ser realista, paro quieto. Não é o temor de dar um passo que paralisa, é a realidade. Ainda que a pessoa perca os sentidos, o cimento fere.

Imóvel à porta de casa, não finjo melhor a fome que sinto. Espero, confio na imobilidade. Preservo os joelhos, pois é provável que eu caia se arriscar um passo. Mesmo parado, imobilizado, aquietado, poderia sorrir a quem passa, nem isso eu faço.

Uma vez que estômago vazio tem vida própria, não esboço nenhum sorrisinho. Não sou gente que encabula pela fome que sente.

Quem passa compreende, uma barriga roncar é sinal de fome. Faz sentido, a barriga da estátua ronca porque é hora do almoço.

É verdade, acredito que ídolo que não emana luz interior não passa de barro amassado. Nada tenho que incentive alguma adoração, tenho gases. E fósforo aceso posto à altura do meu nariz causará uma baita explosão.

Divago. Sei o que me faz inspirar: mais do que o quiabo com carne moída no prato, é imaginar a moto que não vem.

Quem passa não pensa que vê a fome representada. Seu olhar não é de quem agrega sofrimentos ao que vê. Quem passa não precisa se identificar nem sofrer comigo. Realmente, quem passa não tem que se inteirar da minha situação. Aliás não sofro nem alucino, espero.

Quem passa não liga que eu esteja esperando o gás. Não mudaria patavinas se soubesse que tenho dinheiro trocado. Quem me vê ignora qual o valor da gorjeta que darei ao entregador.

Que o mundo rode assim, isso só a mim produz efeito.

Se estou parado ao portão ao meio-dia, sei que a minha aflição não tem poder para mudar nada, mesmo a quem passe com fome.

Ainda que sinta fome que nem eu, essa gente passa sem saber que sou baixinho porque quero. Sim, tenho recursos para espichar. Porque escolho continuar fofo, não lastimo meu descontrole das gulas. E tanta gente sabe que sou careca porque dispenso peruca.

Motoqueiro, não me faça ficar feio na foto. Na banda da ilusão, não serei fantasma, um morto-vivo, outro camarada só osso.

Sem falsa modéstia, eu sei pilotar fogão. O frio na barriga é porque posso editar a figura que projeto. Pra deixar de ser baixinho, gorducho e careca, posso virar príncipe, alguém estranhamente familiar, quiçá o Ronnie Von.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 14 de março de 2024.

terça-feira, 12 de março de 2024

Página virada

 

Página virada

 

Trabalho com o Durval há dois anos. Embora trabalhemos em áreas diferentes, convivemos no refeitório, pro almoço ou eventualmente pro cafezinho. Pelo tempo de convivência, sinto-me autorizado a retratá-lo com autêntica fidelidade, pois eu o observei nos dias de alegrias e nos dias de tristezas, tanto nos bate-bocas ridículos quanto em papos sutis. Tenho convicção de que uma pessoa camuflar a personalidade vez ou outra, vá lá, que isso seja possível, mas só um sociopata para esconder as perversidades da sua natureza.

Não duvidaria deste Durval meu conhecido, mas algo aconteceu.

Ele não veio trabalhar na segunda-feira porque um mal-estar súbito deixou-o acamado. Ele se descreveu febril, com dor nas juntas, e disse que a luz o agulhava mesmo de olhos fechados. Ele achou natural que o diagnosticassem com dengue.

ꟷ Dengue que dura só um dia?

ꟷ Ô pessoa azarada pra ter dengue logo num domingão lindo.

ꟷ Ninguém duvide da palavra do Durval!

ꟷ Não serei eu a colocar em questão a dengue do nosso boa-praça, mas é um quadro muito esquisito, nem apareceu uma mancha naquela carinha em que não dá cupim.

ꟷ Silvestre, deixe de história. O Durval não é de inventar.

Tão logo Durval entrou no refeitório, a saúde voltou. Como sempre, falaram da falta de bola nos gramados tabajaras, caçoaram de políticos que não estão nem aí se entraram em rota de colisão com a realidade, generalizaram que a carestia vem torrando pacientes e a paciência.

Pela enfermidade que o assaltou, Durval lamentou não ter assistido a Anjos do Inferno X Demônios da Garoa, clássico disputado do outro lado da rua. Se houvesse subido na laje, toparia comparar o dérbi local com Liverpool X Manchester City, ambos 1 a 1 memoráveis.

ꟷ Pena que não viu. Se tivesse visto o jogo, você acharia o máximo o De Bruyne resmungão após ser substituído.

ꟷ Que nada! Quero dizer, eu fiquei sabendo que teve uma conversa do Guardiola com o Klopp depois do jogo. Será que não fizeram leitura labial do que os dois gênios disseram?

ꟷ Que nada! Deixaram passar aquelas genialidades.

Caraca! O que posso dizer do Silvestre? Que ele é o melhor gerente com quem trabalhei? Que é o sujeito mais bem preparado para fazer a equipe render? Que é ridículo alguém querer o seu lugar?

É impressionante o jogo de cintura que ele tem. Como ficou patente que médico algum daria atestado para doença que dura o conveniente, Silvestre seria justo para só assinalar a falta do Durval.

De prima, veio a cara feia.

Na firma, Durval é o Dunga. Assim que notou que o Durval gosta de brincar com todo mundo mas não gosta que brinquem com ele, o astuto não chamou o esquentadinho de Zangado.

Uma vez que teria descontado o dia, o Dunga brincalhão, piadista, o colega que não entra de carrinho pelas costas, ele encarnou o craque de maio de 2023, aquele do City 4 a 0 contra o Real de Madrid:

ꟷ Cale a boca!

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 12 de março de 2024.

domingo, 10 de março de 2024

Desforra

 

Desforra

 

Agora que estou em casa, tenho certeza que não deveria ter saído, mas saí. Queria uma voltinha à toa, sem cachorro nem boletos. Queria vagar ao léu, só pra admirar pessoas, espiar árvores, refrescar a cuca. Quis escutar passarinhos, mas gritei de dor. Porca miséria! Na esquina deu-se o que nunca me acontecera, fui atacado por um bode.

Por falta de melhor explicação, outra menos óbvia: creio irresistível a Betty Boop tatuada na batata da minha perna.

Mesmo que pareça improvável, admito que o acontecimento mexeu comigo. Ainda que eu não seja hipocondríaco, tenho medo de adoecer por desleixo. Então, pelas asas da paúra, voltei voando.

Pra limpar a mordida, usei água e sabão em pedra. Como temi que os grãozinhos do sabão em pó entrassem pela pele, lavei a canela com espuma. Usando a água da torneira do tanque, lavei-a tomando muito cuidado, receoso de esfregá-la.

Não esfreguei, pois o pensamento veio cristalino. De fato, o evento não pode ser apagado pelo esquecimento. Bingo! Sobre a ferida, ainda que nem seja a minha banda favorita, tatuarei a marca registrada dos Rolling Stones porque a boca do Mick Jagger tem força tremenda, tem fama mundial, é um poderoso ícone pop. Ao mesmo tempo exposta, a cicatriz no tornozelo ficará muito bem resguardada, pô!

Porque não sei o quanto a baba do bode é tóxica, não vacilei. Tanto não pensei no meu bem-estar que virei um copo de leite. Se me queria livre dos prováveis sintomas da peçonha, eu não tomei um copinho de requeijão, socorri-me do mais graúdo dos copos que estão no armário, o de azeitona, que é um copão de meio litro.

Como bom cabrito que não berra, bebi que nem pisquei e, uma vez bebido todo o leitinho, foi sem veneno que eu soltei:

ꟷ Orelana! À sua saúde, seu cabra da peste!

Orelana este que não vem a ser o Francisco, que é Orellana. Pois o bode em questão merece a minha, a sua e a saudação de toda gente que guarda afeto pelo Henfil, de cuja tira em quadrinho trago o seguinte diálogo.

Orelana:

ꟷ Nhoqui. Nhoqui.

Zeferino:

ꟷ Bode Orelana! Podia comer o livro de boca fechada?

Primeiro, o bode diz:

ꟷ Quer dizer que a gente tem que adquirir cultura de boca fechada?

Em seguida, ele mesmo tem a resposta:

ꟷ Nhoqui! Nhoqui! Nhoqui! Nhoqui!

No terceiro quadrinho, Zeferino passa o recado:

ꟷ Bodinho perigoso de inteligente.

Se tenho memória de elefante para tanto? Não tenho. Tratei de ir à internet encontrar o que, com bom humor, encaminhasse a prosa para a expressão do ponto de vista.

Assim que termino o relato, o Luisinho comenta:

“Viver é tornar-se livre a cada instante”.

Dialeticamente, como complemento, não entendo que sobreviver é tolerar-se liberto por estar vivo. Em outras palavras, estou com ele que viver é fazer-se livre a cada momento, até para tatuar o logo comercial dos Rolling Stones.

Sem delongas: já que ele faz bico, bebo o leite que lhe ofereci.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 10 de março de 2024.

quinta-feira, 7 de março de 2024

Que sujeitinho

 

Que sujeitinho

 

A chuva começa, mas o mistério é que as suas roupas ensopam de repente. Os tênis encharcarem nem bem os pingos engrossem, isso é mais que curioso, é interessante. Que estivera garoando faz um tempo, perceba-se. É vero, o mundo anda lhe escapando.

Já molhada, a pessoa que atravessa a rua não liga que chova. Está parada no meio da rua. Se um pingo lhe acerta o olho, acusa o impacto da gota. Ela pisca a cada gota, mas sustenta o olhar.

Embora esteja nublado, o céu acima é azul. Por esse azul que não borra nem descora, vale a pena levar na cara a chuva incessante. Bom é querer esse céu; ainda que não o veja, sabe que ele há.

Sabê-lo, isso não seca suas roupas.

Sabe que há um céu azul, límpido, que o céu acima das nuvens é impecavelmente azul, mas as suas pálpebras não estão fechadas por visualizá-lo lindamente azul. Até nem precisa dele irremediavelmente agradável, cristalino, porque esse céu vem à mente mesmo que não haja vontade que o faça vir. Porque não precisa que exista conforme o defina, gosta dele pelo que sente, pois o concebe paradisíaco, idílico, momentaneamente chuvoso.

Para empoçar os pingos, faz da mão uma concha. Bebe da água acumulada, e lambe a mão. Passa a mão lambida no rosto.

Gosta que os pingos acumulem, empocem, subam pelo meio-fio e encubram-no. Alagamento impacta, foge ao controle; não transformará suas mãos em remo, não nadará e não fará do corpo uma boia. Apaga o corpo flutuando; prefere a água acumulada na concha da mão.

Quer mais é bebê-la. Sustenta as mãos em concha; o quanto pode, aguenta-as no ar. Que beba da chuva o quanto queira; não lhe ocorre a ideia de câimbra. Que as mãos lhe deem tal utilidade: para permitirem o volume d’água, sirvam-lhe de concha.

Concha é calcária, é mineral, não é líquida, escorreita.

Já a careca não é útil em nada. Sem cabeleira, a cabeça não serve como fonte de irritação, pois não há cabelos escorridos, ridiculamente lambidos. A água não para, escorre, desce pela testa. Já a língua irrita porque é curta, não permite que a careca seja lambida. Nem para ser lambida a careca serve.

Se murmurasse o quão triste é esta condição, em nada diminuiria a imbecilidade. Pudesse aumentar a chuva, não lhe emudeceria o lirismo de avoado.

Como correr à rua quando começava a chover era pedir que a mãe admoestasse, assim muita gente aperta o passo. Como tem gente que atravessa a rua fora da faixa, assim queria brincar na chuva.

No entanto, a água sobe, a calçada some, a rua fica alagada.

Xingam. Amaldiçoam. Gritam que acorde, saia da rua, deixe que os automóveis passem. Contudo, não atingem o alvo.

O careca baixinho, barrigudo, quatro-olhos que não se abala, ao fim e ao cabo, ele sabe que faltaria fôlego pra correr, causaria vômito agitar a pança, ser-lhe-ia estúpido limpar os óculos.

Ainda assim, as buzinas esgoelam-me:

– Seu atrevido, quer morrer?

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 07 de março de 2024.


terça-feira, 5 de março de 2024

Ela tem razão

 

Ela tem razão

 

O que importa? Realmente, salvar-se.

É inteligente de sua parte, Mariana, trabalhar com afinco. Não basta pagar as contas, é uma grande sacada fazer reserva. A perspectiva de ter mais uns trocados não a deixa feliz, deixa-a esperançosa. A cabeça flutua no escuro, ainda que o travesseiro feda, consegue flutuar. Desde que passou a entregar comida, os três salários e meio são recompensa a quem pilota das dez às nove e meia. Não cair inadimplente, Mariana, não a salva do prazer. Quem anseia andar de gôndola, já com a gorjeta no bolso, tem mesmo que salivar.

Embora suada nas madrugadas abafadiças, Mariana tem juízo. Ela se deita após a novela das nove. Por causa das pedras nos rins, bebe mais que um litro de água por dia. Com tanta água bebida, de quando em quando, tem que urinar. O calor da madrugada a deixa mole-mole, mas Mariana gosta de água. Sonha com Veneza, com o Mediterrâneo, mas pouco pensou no Tietê limpinho.

Torcendo que a sua moto não quebre ainda que a use, diariamente, por onze horas, Mariana acredita que trabalhar dobrado há de produzir a salvação. Pela qual tanto labuta, há de alcançá-la.

Todavia, Mariana também põe confiança na sorte que é orientar-se no mundo sob as influências espirituais que pondera decisivas sobre a pessoa que ela é. Uma vez que o reconhecimento, de que o norte que a estimula na vida efetivamente tem existência, é o passo essencial na jornada pela autorrevelação, que ela nasceu na hora certa, no dia certo e na família certa, ou seria uma fraca, uma fracassada.

Mariana entra na tabacaria. Compra fumo-de-corda. Dispensa que entreguem o troco. Diz que não é propina porque santos não precisam se compadecer das misérias. Condenada à salvação, ela rala a bunda na motoca. Calejada, querendo a mente solta, Mariana fuma.

De barriga vazia, e fumada, Mariana tem sede. Entra na lanchonete, vê o quibe na estufa, quer comê-lo com limão e descê-lo com cerveja. Com moto pra montar, Mariana come em pé.

Sempre em frente, Mariana passa novamente diante da tabacaria. Desta vez, ainda apressada, ela tem certeza de que viu fumaça saindo do cachimbinho de barro do cacique.

Sempre em frente, ela passa por outra tabacaria, quiçá a mesma, e vê o preto velho de chapéu de palha sentado à porta. Mariana jura que viu, que aquele cachimbinho também fumou.

O que ambos têm em comum? Tanto o preto velho quanto o cacique seguram o cachimbo de barro com a mão esquerda.

Mas Mariana não liga pro detalhe.

Assim como não precisa saber que o artista que fez um também fez o outro, ela tem mais é que correr.

Para que as entregas não demorem chegar, confere a nota, pega a grana, dá as moedas do troco, agradece e toca em frente.

Se ela tivesse esta informação, até porque não é do seu feitio ficar indiferente, Mariana acharia caprichoso este canhoto ter imaginado um cachimbinho para gente canhota.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 05 de março de 2024.

domingo, 3 de março de 2024

Mera informalidade

 

Mera informalidade

 

Dos benefícios do desânimo, ficar à janela enquanto alvorece está entre os mais amenos. Bem entendido, depois de outra madrugada de calor, faz bem desestressar a cuca longe do sol.

O quanto puder, porque a ideia volta-se sobre si. Neurônios fritam-se quando expostos, fique à sombra. Já que há dor que só se percebe depois de convertida em exaustão, podendo resguardar-se, delicie-se. Aproveite, beberique uma água gelada, pois o sol não tem opção, ele subirá pelos céus como se fosse de sua vontade redimensionar o corpo pela mente desolada.

Equivoca-se a mente.

Abatido com o calor o tempo todo, a rotina tem desses enganos, de dar na gente a crença no que parece ser que funcione sempre assim.

E a realidade de hoje tem o mesmo sol de ontem, a mesma rua de anteontem, o marasmo de achar que sou o mesmo do mês passado, do ano anterior, que vivo na mesma batida há anos e anos.

Por trapaceira, a realidade nem se esforça de convencer-me de que causa menos torpor percebê-la debilitante. Não preciso estafar-me, eu ignore as evidências de que a fraqueza embaralha os pensamentos.

Quando me atrapalho, me desgasto. Melhor parar, antes que pense em colapso, antes que eu tema colapsar-me.

Cabe a reação. Ainda que não brote a esperança, ficar à janela bem pode dar uma reanimada. Ainda que o dia siga o roteiro, a boa jogada é observá-lo. Tenho calma.

Até pra lembrar que nem tudo abate e cansa, lá vem ele. Com suas ocupações, um tanto afobado, vem aí aquele cão de todo dia. Quando perto do poste, o rabo sacode o quarto traseiro, o que faz do açodado um ser em estado de euforia. Quiçá seja inexato falar que ele conheça o frenesi, mesmo que esteja obcecado com o pé do poste.

Bom camarada, perdido das amenidades?

Perdido não, estou suado.

E disposto a suar um bocadinho mais, porque bem sinto que o vidro da janela não é isolante. Que nem o cão às voltas com o poste, também me dou em retrato de outra pessoa afetada pela realidade.

Na minha basbaquice pouco lírica, embora as observações diárias permitam-me entender que não há dia igual a outro, não me quero um peso morto, uma marionete do tédio.

Ainda bem que tenho aquele cão pra observar.

A ele pouco se lhe dá que o observem. Solto na calçada do lado de lá da rua, também aquele cão tem instintos que o impulsionam.

Sem firulas, urina. Cobre a mijadinha com a terra que não há. Torna a cheirar o pé do poste, agora coberto pelo pó que nem ele vê.

Pra ir adiante, no entanto, o cão retorna.

Torna a cheirar o poste, a urinar, a cheirar o território mijado, a usar as patas traseiras para varrer a terra invisível sobre o poste marcado.

Ele avança em direção à jardineira, mas recua.

Inspeciona o poste com o focinho. Faz xixi e joga a areia imaginária. Por não ser nenhum abilolado bibelô, ele late.

Tenta que tenta, sem desespero, repete que repete, este cão tem a minha cara, esse aí é osso.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 03 de março de 2024.