Entreato
Há uma hora a apresentação terminara.
Ainda que a noite fosse de frio e garoa, o público retirara-se sem
retardatários. Também atrizes e atores não demoraram nas coxias. No palco, no
foco de um canhão de luz violeta, no entanto, resta o guarda-noturno.
Para ocupar o lugar onde está, foi preciso
ir trancar todas as portas; inclusive é seu dever desligar todas as luzes, menos
uma, a lâmpada que fica na marquise da frente do prédio.
Porque deseja aceso apenas o canhão de
luz violeta, e receoso de queimá-lo caso religue a lâmpada antes que esteja
completamente resfriada, vai desligando um a um os holofotes.
Pagar pelo dano, terá condições de
fazê-lo, contudo afundará mais ainda a cabeça no travesseiro. Se é homem de
responsabilizar-se pelo que faz, não é capacho a quem o queira sujo das vilanias
alheias. E o canhão, afinal, deveria estar apagado.
Por ser uma brincadeira, uma experiência
íntima, não é travessura de cabeça oca, não é safadeza, não é coisa para deixar
envergonhada uma pessoa, é só uma vontade sem nada demais.
“Vamos! Antes que o suor deixe fedorento
o uniforme, Claudiomiro Malaquias, tire ao menos a camisa.”
Ora, ele se desnuda porque tem motivo
para deixar o dorso nu.
“Madalena iria dizer que isso é porque a
Belisa passou a peça toda de peito de fora e pai de respeito não tem nada que
ficar imitando essa gente do teatro, porque essa gente do teatro não levanta às
cinco para bater o ponto às oito.”
No cenário, a jarra de água é de
verdade. Ele bebe um copo porque a sua sede não é de mentira.
“Ninguém vai reparar que tomei um gole.
De jeito algum. Não é por despeito que tomo um copo, quem sabe eu tome dois.”
Beber da água não lhe dá a sensação de fazer
algo errado. Com a mão esquerda erguendo no ar uma caveira de cristal, ele
discursa:
ꟷ Bom Rei, Guardião Soberano da
Dinamarca, sou vosso vassalo. Mas vou parar de ser vosso criado porque Vossa
Majestade tem pisado na bola ultimamente. Talvez o Senhor nem perceba, mas
Vossa Alteza tem feito muita cagada. Não é legal o Senhor usar os pratos da
justiça para açoitar quem tanto O venera. Guardião Soberano do Trono, não puna
quem à Vossa Graça tem dito a verdade que precisa ser dita, que o povo tem
fome. Não difunde mentira quem diz que a fome grassa na Pátria Amada. Porque
somos fiéis leais ao Trono, seremos leais e fiéis a quem traga justiça e paz
depois que o Senhor vier a ser apenas outro senhor, outro senhorzinho de barba
grisalha, talvez outro barrigudinho adorável, alguém que saiba contar piadas
como ninguém.”
Falando à caveira enquanto a devolve à
mesa de Dom Perlimplim, ele emenda:
“A minha patroa quer que eu largue este
emprego. Ela espera que eu trabalhe com o seu irmão. Ela fala que ele não
explora, que ele paga o justo, ele valoriza quem não enrola. Quando a pessoa
não faz corpo mole se pedem que pegue pesado no serviço, ele paga sorrindo.”
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 14 de janeiro de 2024.