domingo, 14 de janeiro de 2024

Entreato

 

Entreato

 

Há uma hora a apresentação terminara. Ainda que a noite fosse de frio e garoa, o público retirara-se sem retardatários. Também atrizes e atores não demoraram nas coxias. No palco, no foco de um canhão de luz violeta, no entanto, resta o guarda-noturno.

Para ocupar o lugar onde está, foi preciso ir trancar todas as portas; inclusive é seu dever desligar todas as luzes, menos uma, a lâmpada que fica na marquise da frente do prédio.

Porque deseja aceso apenas o canhão de luz violeta, e receoso de queimá-lo caso religue a lâmpada antes que esteja completamente resfriada, vai desligando um a um os holofotes.

Pagar pelo dano, terá condições de fazê-lo, contudo afundará mais ainda a cabeça no travesseiro. Se é homem de responsabilizar-se pelo que faz, não é capacho a quem o queira sujo das vilanias alheias. E o canhão, afinal, deveria estar apagado.

Por ser uma brincadeira, uma experiência íntima, não é travessura de cabeça oca, não é safadeza, não é coisa para deixar envergonhada uma pessoa, é só uma vontade sem nada demais.

“Vamos! Antes que o suor deixe fedorento o uniforme, Claudiomiro Malaquias, tire ao menos a camisa.”

Ora, ele se desnuda porque tem motivo para deixar o dorso nu.

“Madalena iria dizer que isso é porque a Belisa passou a peça toda de peito de fora e pai de respeito não tem nada que ficar imitando essa gente do teatro, porque essa gente do teatro não levanta às cinco para bater o ponto às oito.”

No cenário, a jarra de água é de verdade. Ele bebe um copo porque a sua sede não é de mentira.

“Ninguém vai reparar que tomei um gole. De jeito algum. Não é por despeito que tomo um copo, quem sabe eu tome dois.”

Beber da água não lhe dá a sensação de fazer algo errado. Com a mão esquerda erguendo no ar uma caveira de cristal, ele discursa:

ꟷ Bom Rei, Guardião Soberano da Dinamarca, sou vosso vassalo. Mas vou parar de ser vosso criado porque Vossa Majestade tem pisado na bola ultimamente. Talvez o Senhor nem perceba, mas Vossa Alteza tem feito muita cagada. Não é legal o Senhor usar os pratos da justiça para açoitar quem tanto O venera. Guardião Soberano do Trono, não puna quem à Vossa Graça tem dito a verdade que precisa ser dita, que o povo tem fome. Não difunde mentira quem diz que a fome grassa na Pátria Amada. Porque somos fiéis leais ao Trono, seremos leais e fiéis a quem traga justiça e paz depois que o Senhor vier a ser apenas outro senhor, outro senhorzinho de barba grisalha, talvez outro barrigudinho adorável, alguém que saiba contar piadas como ninguém.”

Falando à caveira enquanto a devolve à mesa de Dom Perlimplim, ele emenda:

“A minha patroa quer que eu largue este emprego. Ela espera que eu trabalhe com o seu irmão. Ela fala que ele não explora, que ele paga o justo, ele valoriza quem não enrola. Quando a pessoa não faz corpo mole se pedem que pegue pesado no serviço, ele paga sorrindo.”

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 14 de janeiro de 2024.

quinta-feira, 11 de janeiro de 2024

Mas que maravilha!

 

Mas que maravilha!

 

Quando me pedem para aguardar um minutinho, penso que tenho paciência na medida ꟷ esse minutinho, não cinco. Só que há no mundo uma gente que sabe se pôr no lugar do outro, gente que pede desculpa por deixar esperando por oito, nove ou dez, porque é quem realmente se incomoda quando a espera passa dos quinze minutos.

Também pratico a simpatia. Demonstro quanta educação eu tenho, assim é que nem esculacho quando a providência necessária não tem desfecho, qualquer desfecho.

Quem passou sessenta anos até que fosse merecida a preferência nas filas, tenho consciência da paciência que trago acumulada.

Mas acumular não é poupar. Se não tem jeito, entro na fila e escuto as conversas. Minha paciência é com a fila, pois eu reajo ao que dizem. Falam em público da vida privada, aborrecem-me, me quero surdo.

Ocorre-me que vou ao banco. Preciso que um funcionário livre-me da incerteza: tenho direito ou não a um empréstimo. Mesmo sendo dia 10, quero ser ouvido e orientado.

Em todo dia 10, um gênio sobe das catacumbas da minha natureza porque tenho obrigações para com a sociedade.

Com ânimo para não me renegar, decido acompanhar a celeridade dos dedos que, outra vez, digitam meus dados porque, como sempre, preciso autorizar que minha identidade seja confirmada pelo sistema, conforme às morosidades do sistema.

Pelas mesmíssimas opções que ainda não abjuro, precisam ratificar o que digo, reafirmo e dou fé. Então, apesar da alegria que é ter o olfato em condições bastantes pra exumar na flatulência das bocas ꟷ não os fiapos de frango intocados por um fio dental mas o arroz com feijão que confirmam o que digo ꟷ, falo com calma, pois meu hálito exala anis.

Gosto de falar, mas é dia 10. Mais um.

Alma que a todos ama com amabilidades de cínico, sorrio a quem percebe que não me esforço pra ser este cidadão conscienciosamente paciente, e emudecido.

Outra nuance do acúmulo. Quem acumula paciência não coleciona perfis de impacientes, tagarelas, de gente que não para de reclamar.

Se posso ser dez todo dia 10, justamente porque hoje é dia 10, não vou me apresentar como um camarada submisso.

Antes que a vontade de escutar música convença-me a ficar na fila, ouço a razão: o dinheiro não vai evaporar de um dia para outro.

Como quero ter crédito amanhã, vou chupar sorvete.

Entro em outra fila, mas não me incomodo, uma vez que o quiosque fica numa praça.

Com árvores, com frutinhas em muitas destas árvores, não demora e um passarinho de plumagem em tom vermelho vivo pousa.

Esta ave começa a cantar. Encantado, entro no ritmo do seu canto. Como eu não quero que ela voe e eu acabe sem conhecer-lhe o nome, fotografo-a e o buscador identifica-a: tiê-sangue.

Aparece outro passarinho, cuja cor é marrom-avermelhado na parte inferior. Nem preciso fotografá-lo, pois as aves não brigam, fazem artes de macho e fêmea.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 11 de janeiro de 2024.


terça-feira, 9 de janeiro de 2024

Algo errado

 

Algo errado

 

Cismei daquela cadeira, que ela era de encantamentos. Até a cisma de mais cedo, eu nunca a concebera mágica.

Mal sentei, vi minha intuição puxar por um quê de fantasia, ou teria tomado café no lugar de sempre, à mesa.

Não que a realidade ande mais desabusada, sou eu que ando mais assanhado. Por mais assanhado, tenho sentado mais. Mais ansioso de encontrar o que ando mais tentado a procurar, quiçá eu ache.

Não sento apenas por cansado, ando sentando mais porque espero que a magia do mundo seja revelada, para que perceba que não estou sozinho. Mesmo desacompanhado, sento onde não tenho o costume, e o pensamento faz com que eu ignore o que seja solidão.

Pelo estranhamento de estar ignorado na cadeira que normalmente não uso, desejo que os meus olhos não me confundam.

Se ainda não vejo, sei que tal mundo ainda invisível existe, uma vez que é pressentido. No súbito de mim, pressinto-o eu.

Então, o pensamento vem à mesa.

Eu vejo. Pelo que vejo, aprendo. Estou sentado no lugar de sempre. Tomo café e como pão. Pelo tempo de sempre, faço o que tenho para fazer. Sem maiores felicidades, cumpro o propósito de sentar-me para o café de todas as manhãs.

Vejo o meu fantasma ser eu mesmo por mais uma rotina, e não fico mais satisfeito pela visão objetiva de mim mesmo. É outra chatice.

Da cadeira que não uso, vejo que vou ler jornais.

Sou contra as guerras porque sempre fui pela extinção dos estados nacionais. Contra os exércitos, sempre fui pela abolição das fronteiras. Contra a morte estúpida, quero a vida. Sou pela vida não apenas banal, sou sempre por uma vida mais solar, mais alegre e festiva.

A leitura alegra a alma carente de festanças.

Meu avatar lê sem pressa. Não se apressa, pois seleciona o que lê. Sobretudo, novidades de bastidores. Sem encolerizar pelas fofocas, o avantesma lê com vagar, divaga e volta, retoma o lido.

Divagando e recuando, avançando e recuperando-se, a minha alma vence o mundo dos fatos. Cortando os galhos do caminho, ela ganha musculatura, exercita neurônios, flexibiliza a mente, torna-me gentil. E não digo nada que magoe ou entristeça. Quero-a esperançosa de que amanhã, e depois de amanhã, o mundo estará na mesma, gentilmente traduzido pelas notícias.

Ao duplo, nem preciso pedir-lhe que leia relatos de ganhadores de loteria que pagam cachaças a quem sabe que a salvação da lavoura é tornar-se saúva.

Duplo, meu caro duplo, ainda que o bule esteja pela metade, conto com que a mente não fique alvoroçada pelo excesso de café.

Muito além da desesperança, as bets prosseguirão online para que homens e mulheres vibrem, e sigam vencedores. Como a manhã trará sugestões certeiras, as crianças e velhos torcerão pra que os cassinos paguem impostos.

De café tomado, já altruísta restaurado, conto comigo para ajudar o mundo a mudar, começando pela cozinha que eu mesmo varrerei.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 09 de janeiro de 2024.

domingo, 7 de janeiro de 2024

Um momento difícil

 

Um momento difícil

 

Como outro qualquer objeto, menos pelo emprego a que o engenho humano destinara no seu fabrico, recai no abajur que seja outro detalhe a poupar os olhos das feiuras do mundo. Porque sala de estar é o canto do mundo para estar-se sem os entorpecimentos por monocromia, pô-lo junto da janela saturará em grená o olhar. Porque, também, o verde-musgo dos encostos e o vermelho-castanha do abajur harmonizam-se, a dona Caco coloca-o entre as duas poltronas.

À dona Caco incomoda que a leitura fique dificultada pela claridade baixa; intensa, todavia, seja a paz de quem se acomode naquele canto, de cujas paredes, outra vez recobertas pelo exclusivo papel de flor-de-lis dourado sobre fundo carmesim, não foram exilados os retratos.

Aquelas de lá, do passado tantas vezes louvável, são mulheres que seguem sussurrando o que seja apropriado a saraus.

Vê-se que dona Kika, mãe da Caco, não precisa munir-se dos livros para recitar os sonetos que a embalam ao luar da sua mocidade.

As teclas do piano de madame Chica, a mãe da mãe da dona Caco, dispensam metrômetros para bem temperarem Bach.

Na versão de corpo inteiro de todas elas, nenhuma teme empunhar chicote para trotar pela estância. A todas, da bisavó da bisavó da dona Chica, todas elas amazonas de impressão garbosa, sempre lhes apraz alinhar-se no lombo de alazão tostado.

Na carne viva de sua circunstância, é lamentável que esteja só. Pois dona Caco não prepara chás, não assa bolos, não coze nem arroz nem feijão. Do que sabe, sabe-o pelos tutores que enciclopediaram-na dos trabalhos de Hércules, das safadezas de Baco, das conquistas de Ciro, das maquinações de Próspero. De lenha para o fogo, de fermento para a massa, de panela para o que for, sobre este cotidiano tão doméstico, dona Caco entende-o como um desagregado latinório.

Sozinha em casa, perdida na própria casa, uma vez que aconteceu alguma coisa grave, coisa gravíssima, com algum parente próximo, de fato próximo, em algum lugar distante, num lugar realmente ermo, dona Caco passa por apuros porque se acha abandonada.

A vida anda injusta ultimamente. São dias tristes, pois uma pessoa de inteira confiança tem o direito de abandonar quem a considera como membro da família. Apesar da consideração, a ingrata prefere ir cuidar dos seus, em vez de ficar no posto para merecer que ainda seja tratada com respeito pelos serviços prestados, devidamente pagos.

Se dona Caco tem que ser quem vai comprar um copo de café com leite e um sanduíche de queijo fresco, ela é a pessoa certa.

Mesmo que tenha achado só um sanduíche de peito de peru, dona Caco está orgulhosa.

Dando voz a um automatizado pragmatismo, a funcionária fala:

ꟷ CPF na nota?

Como a abordagem revela-a desamparada, dona Marcolina Bartira Ramalho Olivares Urtigão Penteado diz:

ꟷ Virgem Santíssima das Mercês! O que é CPF?

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 07 de janeiro de 2024.


quinta-feira, 4 de janeiro de 2024

O amor está no ar

 

O amor está no ar

 

O cão antecipa-se ao cronista, que se vê instigado a interromper a leitura das notícias pra embalar-se noutra doidice tão natural.

Desta feita, é crível dar-lhe razão, porque aquela cadelinha passou junto ao muro, requebrou-se beco adentro, pôs-se a brincar no córrego que corre nos fundos do quintal.

É razoável esgueirar-se pela grade, tentar repetidamente superar o muro e atirar-se à água, não para extrovertê-lo, para saciar-se nele, no fogo que tanto late no espírito.

De fato, é-me compreensível tal loucura, pois não conheço pessoa que fique indiferente a um cheirinho bom.

Felizmente, nunca fui de resistir a salsichas.

De miúdo, vindo da escola, mal cruzado o portão, não havia mundo, apenas a panela. Mas, tinha que ter pão. E o miolo precisava ser tirado, pois imprescindível era exagerar no molho, nos anéis de cebola.

Sempre sou de comê-las pelo nariz, refocilar-me no molho, devorar só mais uma, só mais outra, que me baste só mais uma outra.

Sempre me asseguro que vou pelo mundo a bater-me pelos pães, que preciso ir pelos pães, jamais me faltem pãezinhos porque tranças, vinas e tomates não hão de acabar nunca.

Ao cão pouco se lhe dá que me norteie alegre ou triste, pois ele não carece de alimentar sua alma, tanto pelo que me fortaleça quanto pelo que me faça jururu.

Azar o meu que só sei latir por imitação.

E o cachorro entende que não precisa observar-me galante. Ele não é gato nem coruja. A espreitá-lo todo animado com a cadela cheirosa, eu é que fico elegante na minha curiosidade sutil.

O cronista nota que o cão não o ignora, porém o bicho não se coça por mim, que estou melindrado, meio borocoxô.

Coisas boas são as águas do riachinho que correm, os passarinhos que piam e os miquinhos que saltam nas copas.

Coisa boa é aprender que o cão e a cadela não ligam que qualquer pessoa fique olhando-os fornicar, eu aprendo na prática.

Eles copulam, ganem, ficam indo pra lá e vindo pra cá, até que haja o desengate. Quando há, eles se lambem, tão ansiosos.

Eu assobio pra que volte, todavia o cão vai atrás da cadela. Não irei atrás do meu cachorro, porque seria ridículo. Em vão, eu o chamo pelo nome, porque a cadelinha exala o que seria estúpido eu querer ter em mim, aquele apelo inconfundível.

Poderia dizer que lhe daria tirinhas de alcatra, que ele tanto gosta. Para que ele saiba que não estou blefando, poderia ir buscar as tirinhas de alcatra. Pra me convencer de que comer carne é prazer equiparável a copular, berro que tenho já os cubinhos de acém.

Se cadela e cão estão embriagados, que valha o pensamento: uma brincadeirinha improvisada suplanta cerimônia bem cronometrada.

Meu cão chama-se Rex. Sem fru-frus, o sabujo não faz truques por cortesia, só os faz por lhana picardia.

Não temo que terá fugido, mas, meu rei, juro-lhe que arrumarei uma dálmata tal qual a que nos tira do sério.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 04 de janeiro de 2024.

terça-feira, 2 de janeiro de 2024

As brisas do Ano-Bom

 

As brisas do Ano-Bom

 

Como tanta gente que aproveita a Virada para listar as coisas boas que deseja realizar no ano que está começando, paro um pouco e, pra não azedar o humor dessa gente prenha de boas intenções, rememoro a parte boa do que fiz à zero hora do Ano-Novo.

Enquanto outros celebravam com taças de champanhe, eu dormia no escuro. Como certas práticas são mais fortes que minhas ambições, deitei-me assim que o sono tornou patente que o melhor que eu podia fazer era voltar à TV quando estivesse menos babão.

Não vou polemizar, porque tenho certeza de que a queima de fogos da passagem foi tocante àquelas pessoas que pularam as sete ondas, vestiram-se nas cores que expressavam os votos pro ano vindouro ou, simplesmente, bebemoraram pra dedéu.

Dormindo sem sonhar que despertaria de ressaca, precisamente à meia-noite, fui agraciado com uma explosão de luzes, sons e cheiro de pólvora. Pois bem, virei de lado, cobri a cabeça com o lençol e puxei o ronco de sempre.

Senhoras e senhores, a vocês que beberam, cantaram e dançaram, a vocês que nem souberam que não bebi, não cantei e não dancei no réveillon, ainda que nem imaginem que também passei bem pela meia-noite, desejo que o futuro Ano-Bom seja ótimo, e haja fartura de comes, tenha muitos tim-tins, que o borogodó corra solto no forrobodó.

Para que sejam boas as festas de fim de ano, sento e reflito no que posso dizer. São sete as coisas que preciso fazer ou os próximos doze meses resultarão em travessia de costelinhas mal digeridas.

ꟷ Em janeiro, tive férias tropicais em um chalé quase suíço, todavia, depois de quatro horas grudando na garganta a terra batida, eu aprendi que não tenho de trabalhar para pagar boletos, farei dívidas pra forçar-me a saldá-las.

ꟷ Embebido dos rebuliços da alegria, beberei café de gole em gole, nunca de golada em golada, pois copo de vidro não tem que virar cacos somente porque me submeto à cautela, tendo-a já perdida.

ꟷ Apesar do frisson de safar-me das mais simples tarefas, a quem me enalteça pelos méritos que não valorizo, direi que a fortuna é vera porque a graça, ainda que demore outro dia, há de alcançar quem pode e deve ralar, e sopra que tem de ralar pra caraca.

ꟷ Na pescaria, a minha calma canse a carpa ou o marlim. À mercê das águas, resistirei ao tédio, seja à margem do córrego a que chegar numa pernada, seja a bombordo do barquinho no marzão sem gaivotas nem pelicanos.

ꟷ No boteco às três da tarde, saborearei o meu bauru sem nausear-me com a política verde-oliva de quem se anuncia contra aborto, contra transferência de renda, contra carro elétrico, contra o vento.

ꟷ Sem temer que me caiam na cabeça um abacate ou outro, apesar das saúvas incansáveis, seguirei sossegado, lendo Rubem Braga.

ꟷ Os fatos revelar-me-ão um quê satisfeito, outro tanto ressabiado, e, a depender do mormaço, bastante arejado dos porquês.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 02 de janeiro de 2024.

domingo, 31 de dezembro de 2023

Inzoneiro

 

Inzoneiro

 

Por respeitadoras, só depois de autorizadas é que as crianças vão às cadeiras. Preocupadas porque outros podem chegar antes, ambas transformam a ansiedade em balanço. E pela alegria de disputar entre si, cada qual ambiciona ser a primeira a ver o cruzeiro de cima.

Ainda que a capela seja singela, dê uns seis metros de pé-direito à singeleza, a cruz que encima a cúpula desafia a infância a passá-la um palmo, mesmo um palmo de criança, que essa ventura excite.

Refreada nas excitações, a terceira criança não pode sair correndo, ela grita, agita-se, grita mais alto porque voa um passo pelas mãos de mãe e pai que não hão de liberá-la, ela mesma nem precisa saber que a sua euforia torna manifesta a felicidade que vivencia.

E que leveza a família experimenta na pracinha.

É domingo, mas é um domingo diferente. Com a banda que desfilou pelas ruas do centro, é um dia especial desde a alvorada. Se o almoço teve os clássicos frango assado e macarronada, a tarde é memorável porque o coreto da Capelinha do Bom Jesus da Prisão dá palco a uma série de atrações.

Bem que o pai e a mãe desdobram-se, esforçam-se, tentam exercer igual controle que têm sobre o primogênito e a filha do meio, porém um entusiasmo solar não deixa as baterias do caçula descarregarem.

E o pequerrucho quer porque quer ficar pertinho do homem de luvas brancas e de capa e cartola pretas. E o menino ri, bate palmas, chupa o dedão porque o homem faz o que fala, tira buquê de cravos da cartola e puxa lenços, lenços e mais lenços pela boca afora.

Uma vez que é verdadeiramente inocente nos seus quatro aninhos, o guri não sabe que nenhum truque é comparável à apoteose de ficar com todas aquelas moedinhas lavradas detrás de orelha daquela gente que, magicamente, o aplaude por invejar-lhe o talento.

Todavia o coreto acolhe aquele esquisito, estranha-o o pimpolho.

Tanto o sujeito faz a bailarina rodopiar, faz malemolente a parceira, trata-a como se não tivesse ossos, assim faz crescer o estranhamento, faz mais desassossegado o fedelho.

O garoto não sorri, só observa aquelas piruetas. O incomodado não para de estranhar aquelas cambalhotas, tão angulosas, fora de prumo. As cores na cara não o deixam ver que o homem é aquela pessoa que põe os sonhos à altura da baba, e ele tem apenas que abrir o berreiro pra que lhe seja dado um.

Babando-se todo fofo, tão maluquinho ao chupar o dedão do pé, ele tagarela e tatibitateia, já molhando o short.

Quem conhece o caminho não precisa voltar por onde veio, então, assobiando ao trocar o impressionado, a mulher faz mais alegre o Tico-Tico no Fubá.

As nove violas muito afinadas da Orquestra de Violas da Terra Preta empolgam com Asa Branca, Luar do Sertão, Aquarela do Brasil, Garota de Ipanema, Festa de Arromba, O Calhambeque do Roberto.

Assim que Datemi un Martello termina, o violeiro-mor vibra:

ꟷ Feliz 1968!

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 31 de dezembro de 2023.

quinta-feira, 28 de dezembro de 2023

Lado a lado

 

Lado a lado

 

Temos caminhado, eu sei. Do jeito que podemos, vamos indo, você sabe. Vamos caminhando. Não paramos. Mesmo cansados, topamos seguir sob pressão. Que o momento peça-nos mais entrega, topamos atender o que é pedido.

Atenderemos, não seremos beligerantes. Viveremos sob demanda. Ainda que haja desconfiança e medo, desejaremos experimentar o que nos esteja proibido de aprender. Caso seja preciso, aprenderemos com a faca nos dentes, aprenderemos ainda que nos faltem os dentes.

Por isso, não paramos de suar. Embora suar seja consequência de caminharmos, prosseguimos. Mesmo suando, não desistimos. Mesmo fedendo, não deixaremos de continuar, e andamos.

Ainda que suados, cansados, com bolhas nos pés, caminharemos sempre. Nem que essa nem seja uma necessidade nossa, precisamos aprender que certas demandas que nos dizem respeito precisam ser percebidas. Ainda que estejamos suados, iremos em frente. Ainda que ziguezagueando, que nos seja imperativo parecermos perdidos, ainda assim, simularemos que vamos a esmo, e seguiremos em frente.

Você e eu precisaremos aprender que precisamos nos esforçar; as bolhas que podem ser evitadas precisarão não ser. E sofreremos. Você e eu não sabemos como tornar estimulante o esforço, e continuaremos caminhando. Ainda que você e eu nem saibamos que vamos em frente, nós iremos, daremos esse passo adiante.

E não vamos juntos, sabemos. Não pararmos de caminhar, isso não é novidade. Nada há de novo na caminhada. O novo, nem a você nem a mim o novo não nos aproxima. Antes, o novo afasta-nos.

Novo é sabermos que não estamos juntos, fomos ajuntados, fomos aproximados. Sem que nos déssemos conta da proximidade, seguimos próximos. Sem sabermos por que estamos juntos, nem paramos.

Por estarmos tão próximos, podemos cuspir um no outro. Sabemos que podemos atingir-nos com as nossas cusparadas. No entanto, não cuspimos. Nem olhamos de lado. Porque saberemos fingir, sequer nos olharemos de soslaio. Mesmo que possamos querer, não cuspiremos um na fuça do outro.

Que cada um cuspa no outro quando ninguém estiver vendo.

Eu, por exemplo, não olho de lado. Evito que nos encaremos. Você, por sua vez, me encara com raiva. Aprendermos a conviver, desde que forcemos a convivência. Sigamos intolerantes, você e eu saibamos nos suportar. Cegos e cegados, prosseguiremos.

Por não nos querermos iludidos, ainda que aprendamos a fingir que não estamos, saberemos que a caminhada não será menos cansativa sem que nos seja preciso desejarmos que nos seja uma jornada mais aprazível, mais deleitável, bem mais produtiva.

Pra sermos bons no que fizermos, aprenderemos a melhorar a cada dia. Para atingirmos a excelência, melhoraremos. Para prosseguirmos na jornada, viveremos um fracasso de cada vez.

Pro lobo que me fizer de lobo, pularei na casca do ovo.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 28 de dezembro de 2023.

terça-feira, 26 de dezembro de 2023

Objeto do desejo

 

Objeto do desejo

 

Sem quizílias momentosas, às sete, saio para a minha caminhada matinal. Só não ando nos dias de chuva forte, uma vez que as roupas ensopadas seriam mais do que peso no lombo, elas fariam da cachola um disco arranhado: sua anta, sua anta, sua anta.

Hoje, porém, a anta que aparece é aquela que gosta de suar porque o sol brilha e faz calor, ou seja, é um ótimo dia para não bobear.

Sem me vislumbrar morto por pneumonia, saio às sete pra voltar às oito. E eu volto satisfeito pelos cinco quilômetros caminhados sem que fosse apezinhado, sequer pela ideia de suportar-me maratonista.

Dispor dessa hora pra relaxar pelas canções que a memória sabe de cor, isso tem preço: minha rabugice fica educada, sem dar picos de ironia nem fossos de rancor.

Seu Rodrigues na versão medíocre, por óbvio.

Com as ruas vazias por conta do Natal, não tenho que me prender ao cidadão sem medo de ser simpático porque não temo que surja um sabichão com mil e uma opiniões.

Pelas circunstâncias tão aprazíveis, o feriado permite que aproveite melhor esta caminhadinha das manhãs.

Aproveitá-la quer dizer que eu estou dispensado de pensar o quão magnífica é a vida porque lojas fechadas não vomitam pacotes sobre as mãos estressadas, desairosas até com celular.

Porque estou sossegado de ter garganta seca quando me solicitam o posicionamento crítico sobre a mais recente cretinice da celebridade mais quente do momento, nem trouxe a garrafinha d’água.

Se meus beiços não salivam diante da vitrine vinda ao mundo após a inauguração da loja, salivo ao recordar como foi realizada a reforma: os operários só apareciam aos domingos e só começavam a trabalhar depois do almoço ꟷ depois de comida a marmita trazida de casa.

É Natal. E Natal costuma ser assim, um dia tranquilo.

No sossego de um dia como o Natal, percebo certa paz.

Ainda que a percepção desta paz seja sectária, posso demorar-me na rua, na calçada, na observação do interior deste comércio cuja porta foi aberta uma semana antes do Natal.

Embora curioso quanto aos negócios do mundo, este meu instante é regalia da qual desfruto, porque, pelo reflexo que meu olhar encontra, vejo-me abrandado, sem nenhum traço de atribulação.

Se agisse feito glutão dominado pela sovinice, precisando me livrar dos restos da ceia, não me divertiria como detetive que especula onde a harmonia entre as forças: centrífuga, que é a vontade de tomar água; a centrípeta, que é esse desejo de passar pela vitrine.

Sorridente, eu saúdo a inteligência que pôs aquele hidrante aos pés dos pôsteres da Estátua da Liberdade, da Golden Gate, da Cloud Gate, da CN Tower.

Ainda que não opere como bebedouro aos fãs de bonés, bermudas, camisetas e tênis de equipes das muitas ligas esportivas dos E.E.U.U., são vira-latas alvoroçados que o elegem referência icônica, a mais do que evidente Árvore do Paraíso.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 26 de dezembro de 2023.

domingo, 24 de dezembro de 2023

Anedota inédita

 

Anedota inédita

 

Por e-mail, recebo tal pedido: seja verdadeiramente moral a história ainda não contada sobre personagem viva, pessoa que contribua para a elevação dos nossos espíritos, alguém cuja presença sossegue-nos de tantos demônios. Em outras palavras, o pedido condiz com a época; ou melhor, por ocasião de outro solstício de verão, ao ponderar, porém, da oportunidade apresentada, opto pelo consenso de escrevinhá-la pra levar-me à verdade narrativa.

Vamos a ela! Se não nos conduz à verdade, traz um causo.

Dizem que aqueles irmãos andavam pelos campos, vagavam pelos vilarejos, passavam pelas salas que mal os entretinham, corriam pelas tavernas que os alegravam tanto, erravam por ignotas espeluncas dos arrabaldes. Pelo que afirmam, aqueles dois nunca foram de poupar-se de cotidianos quaisquer, e eram pacientes, bem pachorrentos.

Como quem sabe o que quer no instante mesmo em que descobre o que passa a querer, estes escribas não eram castos, posto que, tanto quanto ardiam pelas falas anotadas do povo, apachorravam-se a mais ouvir que remendá-las, conforme ouvidas.

Uma das historietas ouvidas conta que os carneiros daquela família tinham que ser pastoreados em dias de sol e dias de chuva, estando o pastor radiante ou sorumbático, porque tinham que ser, eram.

Houve um dia, enfarado com os balidos, que não eram muxoxos, o rapazote guiou o rebanho pro riacho, mas desviou-se.

Como a necessidade de beber água devia ser atendida, nada havia de errado se a grei fosse dirigida à altura da margem onde, distraídas por ceroulas e anáguas, labutavam as lavadouras.

Contudo, o garotão tinha preocupações e, urgentemente, precisava de orientação: ou baba de babosa ou manjerona macerada, qual teria efetivo poder sobre o horror das espinhas?

Espinhas, ora diríeis, espinhas.

Vossa Graça, todavia, não as diz, porque os sentimentos que agora a curam do que não vive dão realidade ao mundo.

Vossa Mercê, atenta ao justo pelo que ainda não tem, abastece-se de auroras pelas palavras que o Juca, pouco profético, proferiu: “nada mais chato que ser chato, chato a ponto de não vender ilusão, de dizer as coisas como as coisas são”.

Vossa Senhoria, ainda que nem fale, você pensa: em vez de Capitu, uma funcionária, equipada com caneta e prancheta, faz cara de moça precisamente careta; no lugar de Bentinho, um funcionário, que retruca para proteger-se, cola o valor a ser pago no saco de batatas já pesado; vem Santiago, outro funcionário, aquele que cutuca, não porque tenha o rosto coberto de acnes, azucrina porque é um cri-cri despudorado.

Digníssima pessoa, a moça da caneta, sem retesar o punho, fechar o cenho ou folgar na véspera do Natal, vai-se ela à hora do almoço.

Afrodite em mim, que não acalanto outra vazia nostalgia: vistas das rugas, no entanto, são azuis as espinhas tão exibidas.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 24 de dezembro de 2023.

quinta-feira, 21 de dezembro de 2023

Sincericídio

 

Sincericídio

 

Veio um buraco cruzar o meu caminho, mas sua agilidade foi menor que a minha. Um calãozinho após o susto de pressentir torcido um pé, vou sentar. A praça calha-me à pacificação da cachola desacorçoada. Qual é! Não me tranquilizo da consciência que ostento, pois ela me faz dado a dores por antecipação ꟷ que o buraco seja mais fundo.

Estaria torcido o tornozelo se andasse preocupado em não fazê-lo, provavelmente daria o ridículo de estatelar-me. Entretanto, pego nesse ligeiro desequilíbrio, frustrei o buraco ao gingar para não cair.

Os joelhos congratulam-se comigo, uma vez que estou safo de tê-los ralados. Mesmo sem arranhão, afinal insisto que, sempre, não caí, mancar da canhota foi patético. Os joelhos merecem a confissão, sim, manquei um pouco, sim é bem verdade, manquei por uns metros.

Sentado, avalio as carnes acima do calcanhar. O veredito é preciso: sem nada quebrado, o andar cambaio fez-me gente cujo charme sabe condicionar-se vulnerável aos acasos da realidade.

Não que esteja decidido a pensar no assunto, essa é, ao contrário, daquelas circunstâncias em que o assunto delibera que será refletido pela pessoa que nem se perceba disposta.

Quer a realidade que a revele o quão caótica ela pode ser?

Sei ser pela ponderação. Conservo a sensatez. Ainda que sensível aos calos que tenho cultivados nos pés, eu não descalço os sapatos.

Em síntese, o rebuliço é por conta do cão que corta a praça.

O animal corre, late, mas sua diagonal é retilínea porque ele não se projeta sobre as pombas, que voam tão logo latidos são ouvidos.

O alvo do vira-lata é uma criança, que para de chorar assim que se aproxima aquele bichinho tão peralta, brincalhão, bagunceiro.

A menina é lambida na boca, mas a babá não tem como desanuviar o olhar porque as tantas notificações não param de soar.

Se não fosse pela repentina vinda do cão, cujo companheiro de rua, embora o pulguento tenha tomado rumo diverso do seu, não deixou de fuçar cada uma das lixeiras, mas, sem a súbita aparição do sapeca, eu justamente não trataria das pombas.

Sem interesse, não as veria bicando o chão da praça. Sem remorso, eu especularia sobre bitucas e garrafinhas bicadas. Todavia, havendo culpa, por não mais ignorá-las, as pessoas capazes desse descarte de bitucas e garrafinhas estariam materializadas no ressentimento.

ꟷ É verdade, tenho sorte. E a convivência com gente sortuda ajuda a melhorar a vida. Agora, quem anda carente de energias positivas tem que conviver com gente iluminada pelo maior tempo possível.

Diz ainda o andarilho:

ꟷ A pessoa quando é sincera não tem que ter vergonha da pessoa honesta que ela é, porque o povo não tem que ficar com raiva de quem não chora por besteira. Eu mesmo sou de rezar o tempo todo, mas não tenho que ser grato pelo pão achado no lixo.

O andante assobia, o cão late ꟷ ambos dobram a esquina.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 21 de dezembro de 2023.


terça-feira, 19 de dezembro de 2023

Um pedido

 

Um pedido

 

Assim como pessoa que não perde novela é chamada de noveleira, ao vibrar com queima de fogos do Ano Bom e chorar ao abrir presente de Natal, pois bem, entendo quando me chamam de festeiro.

Não haja dúvidas. Mesmo que algum desmancha-prazeres apareça querendo abrir champanhe; mesmo que surjam baladeiros oferecendo carona; mesmo que postem as desgramas de outro ano ruim: nada me demoverá de fazer coro à contagem regressiva.

Contarei com euforia porque descontarei as estripulias.

Embora a natureza tenha reservas quanto às variações de humor, tenho ciência de que respondo bem às leis da física, uma vez que estou em sintonia com o universo.

A natureza arbitra a partida?

Haja vista que não privo comigo com cristalina naturalidade, é bem provável que cometa pênalti quando desembesto pro ataque.

Dizem que no centro da Via Láctea há um buraco negro, palpito que à deriva em mim vive um abismo obscuro. Como não faço ideia de que maneira meu inconsciente reage aos estímulos cósmicos, posso muito bem estar detonando a terceira lei de Newton.

Recordando os ensinamentos: é fato que buraco negro não fica fulo com prospecções amazônicas em Essequibo, todavia o petróleo altera termodinamicamente a fornalha terrestre.

E no jogo da grana a todo vapor, na área adversária onde verdinhas crescem mais do que grama, quem toma falta é o árbitro.

Desolado do futuro: saia a euforia, entre a embriaguez.

Beberei no gargalo o champanhe aberto por descuido. À vera, terei cuidado ao acompanhar pela TV o que estiver no ar. Enquanto houver felicidade no meu sangue, serei feliz. Não farei por menos, pedirei com ardor: o Sol não tarde, a Lua não suma, não me falte luz.

Que venham os amigos. Que tragam guloseimas. Comam e bebam. Darei o que tenho. Darei o que possa comprar. Que me entreguem em casa. Que trabalhem mais um pouco. E cobrem mais, que isso não tem importância. Amigos merecem o melhor acolhimento. Saibam, amigos, vocês são queridos e sempre bem-vindos. Saibam, não haverá futuro se não for agora. Que o presente seja desfrutado no momento.

Neste instante, encho o copo. Tenho água sem gelo, bebo-a assim mesmo. Já um segundo depois, talvez não haja água, mas o desejo de saciar-me seguirá ao meu dispor.

Pelo que sei, sou um tanto romântico, sentimental, até mesquinho, mas nunca fui de lastimar o que tenha deixado pra trás.

Ao olhar pra frente, solto-me à ideia de que os celulares inteligentes poderiam trazer instalado um aplicativo que acompanhe metro a metro a localização dos amigos.

Eu começaria a pensar em trocar de roupa se um deles estivesse a trinta metros da minha casa. Eu correria afofar almofadas se um deles estivesse a dez passos da porta de casa. Daria minha face se um deles estivesse ao alcance de um beijinho.

Quer saber o que eu acho?

Para não ficar devendo outra, aplique-se na ideia, Santa.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 19 de dezembro de 2023.

domingo, 17 de dezembro de 2023

Acurácias

 

Acurácias

 

Sem pesar conveniências, durmo de luz apagada. Se pesasse, diria que estabeleço tal condição porque conheço o funcionamento do meu corpo. Se corro as cortinas, diria que preciso ter controlado o ambiente ou alarmar-me-iam quaisquer barulhinhos.

Até escrever o parágrafo acima, eu ainda não tinha reparado que o melhor que faço é assumir titubeios. Se não tinha reparado, mas, agora que contradigo, percebo as ideias que sorriem. Franzo a testa porque hesito, pigarreio porque o ruído acalma, mas, agora que sigo reparado no que digo, sorrio ao próximo parágrafo.

De cortinas cerradas, porta trancada e pálpebras pesadas, dormirei até que o despertador retorne-me às indecências do mundo.

Porque indecente é o tempo que gasto para lavar atrás das orelhas, cinco minutos. É também indecente o tempo pro café com pão, outros cinco minutos. Sou esse indecente a quem concedo cinco minutos para escova e fio dental.

De banho tomado e café bebido: em quinze minutos, estarei apto a ser conduzido pelas brutalidades da vida, escutarei seduzido quem se diga brutalizado, estarei a postos como camarada bonzinho.

E serei brutal na seleção das notícias que lerei, pois o tempo é meu e não vou monetizá-lo com botox, bronzeamento artificial e silicone nos peitos. Nem pior nem indiferente, serei eu mesmo, porque há trabalhos que não protelarei mais do que já os tenho adiados.

Já que mais uma vez serei informado que humilharam pessoas que vivem sendo humilhadas em aeroportos brasileiros, ainda que amealhe curtidas de quem não lê o que curte e não curte o que lê, postar-me-ei um camaradinha mui revoltado.

Violentarei ansiedades, pois as previsões indicadas para o dia não surtirão o efeito de orientar-me. Violentado na esperança de viabilizar as melhores escolhas, tolerarei: se der cara, tomarei as porradas que me corrijam a falta de brio pra defender quem pede ajuda; se der coroa, serei gentil ao afirmar que bailarino não dá voadora, faz balé.

Em nome da estabilidade entre os setores, ponho reparo: parágrafo veio, parágrafo foi; isso é coisa bem hesitante. Todo hesitado, espio as palavras que desnudam o bocó que balança, balança, e cai.

Caído na lábia de quem?

Luisinho, sempre ele, diz que o ator Matheus Nachtergaele disse no jornal que o chapéu usado no filme Auto da Compadecida tinha sumido e que urdiram uma cópia pro filme Auto da Compadecida 2.

Luisinho, sempre o mesmo, diz que o João Grilo, por suas alegrias dramáticas e diatribes cômicas, entrou num arrepio danado porque lhe é difícil desencarnar-se de personagem tão querida, adorável, redonda feito o Matheus Nachtergaele.

Luisinho, ele próprio uma pessoa tão simpática, diz que acharam o tal chapéu empregado no primeiro filme e que, aliviado pelo encontro do original, o ator compôs o arguto:

ꟷ Não precisava ter chorado, garoto.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 17 de dezembro de 2023.

quinta-feira, 14 de dezembro de 2023

A modéstia

 

A modéstia

 

Sem tempo, que seja agora. Na falta de cálice, bebe no copo. Com vinho à mão, nem pensa em uísque. Enquanto for agradável vivenciá-lo sozinho, o momento basta. Sem pedir que seja fácil vivê-lo, a garrafa rege o presente. Havendo vinho, o tempo não passa. Sendo fácil digeri-lo, é aprazível bebê-lo. Para que permaneça, o instante não para. Gota a gota, a memória sedimenta o momento. O corpo reage: não resta um gole; o copo está intacto; não se cortam as mãos que não tremem.

Depois do vinho, venha um charuto.

Poderia deixar a sala, mas o charuto fica melhor quando fumado na poltrona. Já que não há poltrona na varanda, abre a janela. Solta anéis de fumaça. Incomodado com a brisa, fecha a janela. Bafora a fumaça contra a janela. Insensível, o vidro não se deixa defumar.

Sem sucesso, apaga a luz. Volta a sentar-se na poltrona. Acende o abajur. Não pretende ler, mantém a lâmpada acesa para que os anéis subindo sirvam de distração. Enfim, põe-se à vontade.

Não que haja graça no modo como as lembranças vêm; engraçado é ter começado a fumar sem nem mesmo saber como fazê-lo.

Começou tossindo. Principiante, querendo desfrutar das delícias de um charuto, quis fumá-lo depois do almoço. Acendeu-o e tragou-o, foi assim que tossiu. Tanto tossiu que passou mal. Acreditando que o mal-estar fosse decorrente da bateria de tosses, tudo girou e escureceu de repente. A sorte é que não estava em pé. Se precisou de balde e pano para limpar o chão, o tapete foi para o lixo.

Depois dessa experiência, nem cachimbos são tentação depois das refeições. Deliciando-se com as baforadas, fuma sem susto. Fumando sereno, aprecia a tepidez. Gosta de sentir o calor vindo aos lábios. Um tanto à tarde e outras baforadas à noite, fuma um charuto por dia. Não que viva pelo prazer, embora fume todos os dias.

Sem petulância, conhece os limites pelas limitações às quais debita simpatia, mais, deposita-lhes respeito, pois a alegria que prepondera é um sentimento de gente sóbria, algo próximo da jovialidade.

Contente, nota que não precisa agradar-se. Ainda que não saiba o que deseja, desconfia do que pretende. Quem sabe queira o que regue a mente, satisfaça apetites, estimule a experimentar-se pelos sentidos.

Não bebe enquanto fuma, mas nada impede que isso mude. Ainda que beba durante as refeições, crê que a digestão será complicada se fumar um charutinho logo após as refeições. Mas nada sugere que não possa tomar uma garrafa enquanto houver brasa pra fumar.

Fuma e bebe, mas percebe-se igual. É a mesma, pessoa que bebe e fuma até que o vinho e o charuto acabam sem que sinta precisar de mais vinho e outro charuto. Ainda que jamais tenha arriscado beber e fumar ao mesmo tempo, segue sendo a mesma pessoa.

Sabe-se, tem a mesmíssima mente, cujo sono nada faz para castrar a baba, abafar os sonhos ou camuflar as repugnâncias do bafo.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 14 de dezembro de 2023.

terça-feira, 12 de dezembro de 2023

A estrela

 

A estrela

 

Ele não acordou às seis, foi despertado três horas antes; e que bom ter sido tirado do sono por uma iluminação deveras inspirada.

Pela primeira vez na sua vida, Aristeu não tinha motivo para duvidar de que fora acordado no meio da noite por causa de alguma coisa boa, que era boa coisa porque o transformaria de maneira definitiva. Afinal sonhara com algo que efetivamente lhe extirparia dos caminhos aquilo que, no miserê de cada dia, sempre o abismava.

Recordou-se de um dia, de uma situação específica.

Tal circunstância não deveria ter acontecido como foi. O futuro que tivera nas mãos desmilinguiu-se com a chuva. Na condição de volante de loteria, a felicidade sucumbiu ao aguaceiro.

Da aposta desfeita resta a dor que o angustia, ou não teria acordado nessa madrugada que não era apocalíptica, não era infernal, era outra madrugada calma, enluarada, de piados de corujas e sem-fins.

Bem sabe quem sofre, angústia existe para ser acalentada.

No caso, Aristeu estava decidido a mudar de vida. Com os números surgidos do sonho da madrugada, ele entraria na lotérica sabendo que rupturas dependem da sorte não confrontada.

A sua aposta haveria de embelezá-lo aos olhos de quem o sempre vira como um pacóvio de dentes amarelados.

Com a bufunfa da bolada, clarearia os dentes, atacaria os cariados e implantaria o alinhamento que arrancasse arrepios.

Olho Gordo, Aristeu quer ser invejado pela beleza instituída.

Aristeu servirá de modelo a quem haverá de louvá-lo pela ousadia de ser bonito. Ele não temerá os olhares de gente que ainda insista em recapitulá-lo apagado na feiura que afortunadamente estará extinta, já que era máscara inapropriada à alma tão ardente, a que era a sua.

Lá atrás, diante do destino, Aristeu calou-se.

Sem guarda-chuva, Aristeu saiu temendo que a chuva molhasse o volante, desfizesse o jogo, levasse pro esgoto as dezenas surgidas no meio da madrugada.

Ele temia ter sido tocado em vão.

Naquele dia, Aristeu chorou na chuva, lastimou o azar que o fez sair mesmo que estivesse chovendo, pois teve receio de perder a hora, de ser impedido de fazer a aposta, temeu-se perdido da sorte.

Tomado dessa febre, Aristeu correu, escorregou e caiu na calçada; o volante ficou imprestável porque a enxurrada desfê-lo.

No dia doze de dezembro de dois mil e doze, com uma tempestade furibunda na cabeça, Aristeu fez picadinho do futuro.

Se tem alguém que aprendeu a não se abalar com chuvas e salivas, tal pessoa é o Aristeu, cuja serenidade advém de seguidas partidas de xadrez no computador.

Como se burlasse dos antidepressivos, neste doze de dezembro de dois mil e vinte e três, o novo homem chamado Aristeu fará o correto e apostará contra quem o vê cego ao fado que lhe pulsa na cachola.

Para Aristeu, a estrela da fortuna irremediavelmente soará as treze badaladas desse novíssimo meio-dia.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 12 de dezembro de 2023.

domingo, 10 de dezembro de 2023

Coração selvagem

 

Coração selvagem

 

Nina vem a mim com miadinhos. Em vez de pô-los no escaninho de vozes incompreensíveis que pululam no mundo, pra não me ocultar na pele de burocrata, feitio do qual me quero distanciado, escolho escutá-los já traduzidos ꟷ mais que atenção, Nina quer afagos.

Carinhoso apesar da hora, já que a gatinha chega por volta das seis e meia, capricho no tatibitate ao acariciá-la.

Embora não esteja disponível, interrompo o trabalho e concedo-lhe que a sua necessidade seja atendida: acarinho-a até que se deite aos meus pés, no tapetinho ao lado da cama.

Todos os dias ela vem, então, sei que ela sossegará depois de uns minutos de agrados. Uma vez ao dia, faço-lhe cafunés na cabeça e fico nisso até que se vire, desejosa que seja coçada na barriguinha.

Não me desespero dos afazeres adiados um tanto. Disponho-me a abrir esse intervalo sem calcular o quão benéfica seja a paradinha. No entanto, não recuso acreditar-me menos idiotizado pelo cotidiano.

Ainda que eu os repita dia a dia, manhã após manhã, meus carinhos são espontâneos, amorosos.

E sou amoroso não só à Nina, a gatinha miadeira, também ao Tales, o gato sorumbático.

Tales, o fleumático que não ronrona nem mesmo ao ser acarinhado, gosta que lhe cocem a cabeça mas só a cabeça, nada de coçadinhas pelo dorso; e se lhe tocam a cauda, ele ataca.

Tales não gosta de água; o dia é de garoa; o gato está seco.

Hoje, particularmente hoje que está garoando, Nina deu com o vidro abaixado, miou para que a janela fosse aberta. E miou com tal acento que a julguei mais dengosa, necessitada de ser acolhida com dengos mais lentos, mais calmos, tão substancialmente amorosos.

Com a gatinha precisando de ser afagada, a isso dou prioridade.

Os afazeres da manhã não me impõem urgência; antes, reafirmam a obviedade da rotina, que ela me enjoa.

Tenho compras a fazer, e posso fazê-las mais tarde. Com barba por raspar, eu a raparei após o almoço. Como tiro a manhã para escrever a crônica, não será por preguiça que deixá-la-ei pra amanhã.

Será castigo fugir pela procrastinação das coisas cansativas? Será que busco me salvar das garras do monstro? Será paliativa a pausa? Será que o tédio fortalece? Sem regeneração, não me faço outro?

Nina é este outro, é um animal, é imprevisível.

Nina ronrona e fecha os olhinhos enquanto é afagada; à vista disso, não transfiro urgência àquelas tarefas que ostentam importância; como agradar a gatinha é importante, é-me premente acarinhá-la.

Nina, no entanto, não gosta que lhe façam cócegas, nem na barriga nem no dorso. Nem com tatibitate Nina quer saber de cosquinhas.

Quando a minha mão atinge alguma parte que lhe seja sensível, ela se defende, e tenta morder.

Quando estou entregue ao sentimento de estar bem enquanto faço carinhos, os dentes da gata machucam-me.

Mordido, abro a porta. Grito pra que aprenda:

ꟷ Nina, sou livre.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 10 de dezembro de 2023.