terça-feira, 19 de dezembro de 2023

Um pedido

 

Um pedido

 

Assim como pessoa que não perde novela é chamada de noveleira, ao vibrar com queima de fogos do Ano Bom e chorar ao abrir presente de Natal, pois bem, entendo quando me chamam de festeiro.

Não haja dúvidas. Mesmo que algum desmancha-prazeres apareça querendo abrir champanhe; mesmo que surjam baladeiros oferecendo carona; mesmo que postem as desgramas de outro ano ruim: nada me demoverá de fazer coro à contagem regressiva.

Contarei com euforia porque descontarei as estripulias.

Embora a natureza tenha reservas quanto às variações de humor, tenho ciência de que respondo bem às leis da física, uma vez que estou em sintonia com o universo.

A natureza arbitra a partida?

Haja vista que não privo comigo com cristalina naturalidade, é bem provável que cometa pênalti quando desembesto pro ataque.

Dizem que no centro da Via Láctea há um buraco negro, palpito que à deriva em mim vive um abismo obscuro. Como não faço ideia de que maneira meu inconsciente reage aos estímulos cósmicos, posso muito bem estar detonando a terceira lei de Newton.

Recordando os ensinamentos: é fato que buraco negro não fica fulo com prospecções amazônicas em Essequibo, todavia o petróleo altera termodinamicamente a fornalha terrestre.

E no jogo da grana a todo vapor, na área adversária onde verdinhas crescem mais do que grama, quem toma falta é o árbitro.

Desolado do futuro: saia a euforia, entre a embriaguez.

Beberei no gargalo o champanhe aberto por descuido. À vera, terei cuidado ao acompanhar pela TV o que estiver no ar. Enquanto houver felicidade no meu sangue, serei feliz. Não farei por menos, pedirei com ardor: o Sol não tarde, a Lua não suma, não me falte luz.

Que venham os amigos. Que tragam guloseimas. Comam e bebam. Darei o que tenho. Darei o que possa comprar. Que me entreguem em casa. Que trabalhem mais um pouco. E cobrem mais, que isso não tem importância. Amigos merecem o melhor acolhimento. Saibam, amigos, vocês são queridos e sempre bem-vindos. Saibam, não haverá futuro se não for agora. Que o presente seja desfrutado no momento.

Neste instante, encho o copo. Tenho água sem gelo, bebo-a assim mesmo. Já um segundo depois, talvez não haja água, mas o desejo de saciar-me seguirá ao meu dispor.

Pelo que sei, sou um tanto romântico, sentimental, até mesquinho, mas nunca fui de lastimar o que tenha deixado pra trás.

Ao olhar pra frente, solto-me à ideia de que os celulares inteligentes poderiam trazer instalado um aplicativo que acompanhe metro a metro a localização dos amigos.

Eu começaria a pensar em trocar de roupa se um deles estivesse a trinta metros da minha casa. Eu correria afofar almofadas se um deles estivesse a dez passos da porta de casa. Daria minha face se um deles estivesse ao alcance de um beijinho.

Quer saber o que eu acho?

Para não ficar devendo outra, aplique-se na ideia, Santa.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 19 de dezembro de 2023.

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