Coração
selvagem
Nina vem a mim com miadinhos. Em vez de
pô-los no escaninho de vozes incompreensíveis que pululam no mundo, pra não me ocultar
na pele de burocrata, feitio do qual me quero distanciado, escolho escutá-los já
traduzidos ꟷ mais que atenção, Nina quer afagos.
Carinhoso apesar da hora, já que a
gatinha chega por volta das seis e meia, capricho no tatibitate ao acariciá-la.
Embora não esteja disponível, interrompo
o trabalho e concedo-lhe que a sua necessidade seja atendida: acarinho-a até
que se deite aos meus pés, no tapetinho ao lado da cama.
Todos os dias ela vem, então, sei que
ela sossegará depois de uns minutos de agrados. Uma vez ao dia, faço-lhe
cafunés na cabeça e fico nisso até que se vire, desejosa que seja coçada na
barriguinha.
Não me desespero dos afazeres adiados um
tanto. Disponho-me a abrir esse intervalo sem calcular o quão benéfica seja a
paradinha. No entanto, não recuso acreditar-me menos idiotizado pelo cotidiano.
Ainda que eu os repita dia a dia, manhã
após manhã, meus carinhos são espontâneos, amorosos.
E sou amoroso não só à Nina, a gatinha
miadeira, também ao Tales, o gato sorumbático.
Tales, o fleumático que não ronrona nem
mesmo ao ser acarinhado, gosta que lhe cocem a cabeça mas só a cabeça, nada de
coçadinhas pelo dorso; e se lhe tocam a cauda, ele ataca.
Tales não gosta de água; o dia é de
garoa; o gato está seco.
Hoje, particularmente hoje que está
garoando, Nina deu com o vidro abaixado, miou para que a janela fosse aberta. E
miou com tal acento que a julguei mais dengosa, necessitada de ser acolhida com
dengos mais lentos, mais calmos, tão substancialmente amorosos.
Com a gatinha precisando de ser afagada,
a isso dou prioridade.
Os afazeres da manhã não me impõem
urgência; antes, reafirmam a obviedade da rotina, que ela me enjoa.
Tenho compras a fazer, e posso fazê-las
mais tarde. Com barba por raspar, eu a raparei após o almoço. Como tiro a manhã
para escrever a crônica, não será por preguiça que deixá-la-ei pra amanhã.
Será castigo fugir pela procrastinação das
coisas cansativas? Será que busco me salvar das garras do monstro? Será
paliativa a pausa? Será que o tédio fortalece? Sem regeneração, não me faço
outro?
Nina é este outro, é um animal, é
imprevisível.
Nina ronrona e fecha os olhinhos enquanto
é afagada; à vista disso, não transfiro urgência àquelas tarefas que ostentam importância;
como agradar a gatinha é importante, é-me premente acarinhá-la.
Nina, no entanto, não gosta que lhe façam
cócegas, nem na barriga nem no dorso. Nem com tatibitate Nina quer saber de
cosquinhas.
Quando a minha mão atinge alguma parte
que lhe seja sensível, ela se defende, e tenta morder.
Quando estou entregue ao sentimento de
estar bem enquanto faço carinhos, os dentes da gata machucam-me.
Mordido, abro a porta. Grito pra que aprenda:
ꟷ Nina, sou livre.
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 10 de dezembro de 2023.
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