domingo, 10 de dezembro de 2023

Coração selvagem

 

Coração selvagem

 

Nina vem a mim com miadinhos. Em vez de pô-los no escaninho de vozes incompreensíveis que pululam no mundo, pra não me ocultar na pele de burocrata, feitio do qual me quero distanciado, escolho escutá-los já traduzidos ꟷ mais que atenção, Nina quer afagos.

Carinhoso apesar da hora, já que a gatinha chega por volta das seis e meia, capricho no tatibitate ao acariciá-la.

Embora não esteja disponível, interrompo o trabalho e concedo-lhe que a sua necessidade seja atendida: acarinho-a até que se deite aos meus pés, no tapetinho ao lado da cama.

Todos os dias ela vem, então, sei que ela sossegará depois de uns minutos de agrados. Uma vez ao dia, faço-lhe cafunés na cabeça e fico nisso até que se vire, desejosa que seja coçada na barriguinha.

Não me desespero dos afazeres adiados um tanto. Disponho-me a abrir esse intervalo sem calcular o quão benéfica seja a paradinha. No entanto, não recuso acreditar-me menos idiotizado pelo cotidiano.

Ainda que eu os repita dia a dia, manhã após manhã, meus carinhos são espontâneos, amorosos.

E sou amoroso não só à Nina, a gatinha miadeira, também ao Tales, o gato sorumbático.

Tales, o fleumático que não ronrona nem mesmo ao ser acarinhado, gosta que lhe cocem a cabeça mas só a cabeça, nada de coçadinhas pelo dorso; e se lhe tocam a cauda, ele ataca.

Tales não gosta de água; o dia é de garoa; o gato está seco.

Hoje, particularmente hoje que está garoando, Nina deu com o vidro abaixado, miou para que a janela fosse aberta. E miou com tal acento que a julguei mais dengosa, necessitada de ser acolhida com dengos mais lentos, mais calmos, tão substancialmente amorosos.

Com a gatinha precisando de ser afagada, a isso dou prioridade.

Os afazeres da manhã não me impõem urgência; antes, reafirmam a obviedade da rotina, que ela me enjoa.

Tenho compras a fazer, e posso fazê-las mais tarde. Com barba por raspar, eu a raparei após o almoço. Como tiro a manhã para escrever a crônica, não será por preguiça que deixá-la-ei pra amanhã.

Será castigo fugir pela procrastinação das coisas cansativas? Será que busco me salvar das garras do monstro? Será paliativa a pausa? Será que o tédio fortalece? Sem regeneração, não me faço outro?

Nina é este outro, é um animal, é imprevisível.

Nina ronrona e fecha os olhinhos enquanto é afagada; à vista disso, não transfiro urgência àquelas tarefas que ostentam importância; como agradar a gatinha é importante, é-me premente acarinhá-la.

Nina, no entanto, não gosta que lhe façam cócegas, nem na barriga nem no dorso. Nem com tatibitate Nina quer saber de cosquinhas.

Quando a minha mão atinge alguma parte que lhe seja sensível, ela se defende, e tenta morder.

Quando estou entregue ao sentimento de estar bem enquanto faço carinhos, os dentes da gata machucam-me.

Mordido, abro a porta. Grito pra que aprenda:

ꟷ Nina, sou livre.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 10 de dezembro de 2023.

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