A
modéstia
Sem tempo, que seja agora. Na falta de cálice,
bebe no copo. Com vinho à mão, nem pensa em uísque. Enquanto for agradável
vivenciá-lo sozinho, o momento basta. Sem pedir que seja fácil vivê-lo, a
garrafa rege o presente. Havendo vinho, o tempo não passa. Sendo fácil
digeri-lo, é aprazível bebê-lo. Para que permaneça, o instante não para. Gota a
gota, a memória sedimenta o momento. O corpo reage: não resta um gole; o copo está
intacto; não se cortam as mãos que não tremem.
Depois do vinho, venha um charuto.
Poderia deixar a sala, mas o charuto fica
melhor quando fumado na poltrona. Já que não há poltrona na varanda, abre a
janela. Solta anéis de fumaça. Incomodado com a brisa, fecha a janela. Bafora a
fumaça contra a janela. Insensível, o vidro não se deixa defumar.
Sem sucesso, apaga a luz. Volta a
sentar-se na poltrona. Acende o abajur. Não pretende ler, mantém a lâmpada
acesa para que os anéis subindo sirvam de distração. Enfim, põe-se à vontade.
Não que haja graça no modo como as
lembranças vêm; engraçado é ter começado a fumar sem nem mesmo saber como
fazê-lo.
Começou tossindo. Principiante, querendo
desfrutar das delícias de um charuto, quis fumá-lo depois do almoço. Acendeu-o
e tragou-o, foi assim que tossiu. Tanto tossiu que passou mal. Acreditando que
o mal-estar fosse decorrente da bateria de tosses, tudo girou e escureceu de
repente. A sorte é que não estava em pé. Se precisou de balde e pano para
limpar o chão, o tapete foi para o lixo.
Depois dessa experiência, nem cachimbos
são tentação depois das refeições. Deliciando-se com as baforadas, fuma sem
susto. Fumando sereno, aprecia a tepidez. Gosta de sentir o calor vindo aos
lábios. Um tanto à tarde e outras baforadas à noite, fuma um charuto por dia.
Não que viva pelo prazer, embora fume todos os dias.
Sem petulância, conhece os limites pelas
limitações às quais debita simpatia, mais, deposita-lhes respeito, pois a
alegria que prepondera é um sentimento de gente sóbria, algo próximo da
jovialidade.
Contente, nota que não precisa
agradar-se. Ainda que não saiba o que deseja, desconfia do que pretende. Quem
sabe queira o que regue a mente, satisfaça apetites, estimule a experimentar-se
pelos sentidos.
Não bebe enquanto fuma, mas nada impede
que isso mude. Ainda que beba durante as refeições, crê que a digestão será
complicada se fumar um charutinho logo após as refeições. Mas nada sugere que
não possa tomar uma garrafa enquanto houver brasa pra fumar.
Fuma e bebe, mas percebe-se igual. É a
mesma, pessoa que bebe e fuma até que o vinho e o charuto acabam sem que sinta
precisar de mais vinho e outro charuto. Ainda que jamais tenha arriscado beber
e fumar ao mesmo tempo, segue sendo a mesma pessoa.
Sabe-se, tem a mesmíssima mente, cujo
sono nada faz para castrar a baba, abafar os sonhos ou camuflar as repugnâncias
do bafo.
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 14 de dezembro de 2023.
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