quinta-feira, 14 de dezembro de 2023

A modéstia

 

A modéstia

 

Sem tempo, que seja agora. Na falta de cálice, bebe no copo. Com vinho à mão, nem pensa em uísque. Enquanto for agradável vivenciá-lo sozinho, o momento basta. Sem pedir que seja fácil vivê-lo, a garrafa rege o presente. Havendo vinho, o tempo não passa. Sendo fácil digeri-lo, é aprazível bebê-lo. Para que permaneça, o instante não para. Gota a gota, a memória sedimenta o momento. O corpo reage: não resta um gole; o copo está intacto; não se cortam as mãos que não tremem.

Depois do vinho, venha um charuto.

Poderia deixar a sala, mas o charuto fica melhor quando fumado na poltrona. Já que não há poltrona na varanda, abre a janela. Solta anéis de fumaça. Incomodado com a brisa, fecha a janela. Bafora a fumaça contra a janela. Insensível, o vidro não se deixa defumar.

Sem sucesso, apaga a luz. Volta a sentar-se na poltrona. Acende o abajur. Não pretende ler, mantém a lâmpada acesa para que os anéis subindo sirvam de distração. Enfim, põe-se à vontade.

Não que haja graça no modo como as lembranças vêm; engraçado é ter começado a fumar sem nem mesmo saber como fazê-lo.

Começou tossindo. Principiante, querendo desfrutar das delícias de um charuto, quis fumá-lo depois do almoço. Acendeu-o e tragou-o, foi assim que tossiu. Tanto tossiu que passou mal. Acreditando que o mal-estar fosse decorrente da bateria de tosses, tudo girou e escureceu de repente. A sorte é que não estava em pé. Se precisou de balde e pano para limpar o chão, o tapete foi para o lixo.

Depois dessa experiência, nem cachimbos são tentação depois das refeições. Deliciando-se com as baforadas, fuma sem susto. Fumando sereno, aprecia a tepidez. Gosta de sentir o calor vindo aos lábios. Um tanto à tarde e outras baforadas à noite, fuma um charuto por dia. Não que viva pelo prazer, embora fume todos os dias.

Sem petulância, conhece os limites pelas limitações às quais debita simpatia, mais, deposita-lhes respeito, pois a alegria que prepondera é um sentimento de gente sóbria, algo próximo da jovialidade.

Contente, nota que não precisa agradar-se. Ainda que não saiba o que deseja, desconfia do que pretende. Quem sabe queira o que regue a mente, satisfaça apetites, estimule a experimentar-se pelos sentidos.

Não bebe enquanto fuma, mas nada impede que isso mude. Ainda que beba durante as refeições, crê que a digestão será complicada se fumar um charutinho logo após as refeições. Mas nada sugere que não possa tomar uma garrafa enquanto houver brasa pra fumar.

Fuma e bebe, mas percebe-se igual. É a mesma, pessoa que bebe e fuma até que o vinho e o charuto acabam sem que sinta precisar de mais vinho e outro charuto. Ainda que jamais tenha arriscado beber e fumar ao mesmo tempo, segue sendo a mesma pessoa.

Sabe-se, tem a mesmíssima mente, cujo sono nada faz para castrar a baba, abafar os sonhos ou camuflar as repugnâncias do bafo.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 14 de dezembro de 2023.

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