Boca
maldita
Putisgrila, estão gritando. E a desgraça
é que ninguém sai gritando de madrugada quando é dia de semana, então, acharam
de vir berrar nos meus ouvidos justo no feriado.
Freguesia, bananas, abacaxis e laranjas
estão quase de graça. Se não acredita, venha conferir. Mas venha logo, porque o
caminhão das pechinchas está saindo. Freguesia, corre, corra, venha! Para já
ir, é só o moço dar o troco. Estamos indo, freguesia. Banana, abacaxi, laranja,
está tudo muito barato. Corre, corra, venha logo, freguesia!
Haja goela.
Quando era garoto, com o vendedor
advertindo que aquilo era peso demais para criança mirrada, o sábado era
reservado a torrar em frutas os cruzeiros que mamãe dispunha para que a sacola
ficasse cheia.
Pelas lembranças do guri mirrado que não
sossegava nem depois de ter esfolado os joelhos, conheci minhas fragilidades sem
saber que criança feliz nem calcula o que seja infância.
Quando sou forçado à reação, felizmente
sigo infantil, birrento, faço bico, franzo a testa e fecho a cara.
Madrugadores, hoje é Finados.
Vocês bem que poderiam não ter vindo perturbar
minha paz, porque o que nem imaginava neste feriado é ter sido acordado pelos
anúncios de pencas baratas, unidade dulcíssima, dúzias do mais melífluo néctar,
pois o que eu menos esperava é ter perdido um segundo de sono com gente muito
viva que não deixa as oportunidades passarem.
Madrugadores, vocês deveriam espelhar-se
nos mortos que pedem apenas que, uma vez ao ano, pensemos neles, e só neles.
E que possamos avaliar o que fizeram
conosco, o que fizemos com eles, o que faremos conosco a partir do que deles pensarmos.
Contudo, o caminhão não veio num sábado,
veio em Finados.
Com laranja a preço de banana, quem saboreia
abacaxis?
Embora ache graça ao espiar-me enquanto
faço a barba, não sorrio mas faço caretas; por distraído, corta-me a navalha.
A navalha que servira ao meu pai, agora
ela me fere.
Para estancar o sangue uso a espuma do
sabonete: isso quem fazia era o meu pai; isso funciona porque acredito que
funcione: e da ferida, pai, mais uma vez não sai sangue.
Como não sei contar piada, prefiro
anedotas.
Lembro-me, três caras entraram num bar:
o bacana diz horrores de quem fala barbaridades; quem se recusa a dizer
barbaridades mesmo de quem fala horrores é o sacana; é o cara legal que pede
paciência a quem pensa que paciente é quem nem sabe a força que tem.
Entendo o que estou tentando dizer.
Uma vez que Deus está nos detalhes, sou
detalhista: entre a cama e a janela, o tapete; entre o tapete e a janela, a
cadeira; entre a cadeira e o caminhão, a janela; entre a janela e o caminhão, a
boca.
Apesar de toda deferência pelos
vendedores de abacaxi, o franzino franzido pede que parem, tenham dó, imploro
que fechem a matraca.
Eles não param, não se apiedam nem cortam
o megafone.
ꟷ Vão pro inferno, filhotes do capeta!
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 05 de novembro de 2023.