Confissões
de um comedor de bacon
É feriado, gente boa. Putisgrila! É
feriadão prolongado.
Eu poderia chatear com muita coisa que é
preciso debater, discutir, ratificar, retificar, coisa que não dá para deixar
pra depois do chope, da pizza, do virtual campeão apurado no Engenhão.
Mas, gente boa, você fique em paz, que
também não vim pedir-lhe que abone alguma reflexão extravagante pela qual me
expresse mal e cause indignação, revolta, desperte em você a vontade assanhada
de mijar na minha roseira.
É feriado, gente boa. Maravilha! É
feriadão prolongado.
Em paz, esqueça guerras, a meta fiscal,
a prometida ida do Papa à COP, e supere o espaventoso da virada do verdão no
Tapetinho.
Gente boa, você não abra mão da
tranquilidade, que não estou aqui pra manipular o seu entusiasmo, sua euforia,
sua atenção, porque você não tem que receber o vil tratamento de quem seja
público, audiência, doador de um realzinho a mais na minha conta.
É feriado, gente boa. Cáspite! É um
feriadão prolongado.
Gente boa, você trabalha honestamente,
gosta do que fabrica, tem orgulho de fazer um automóvel, é vaidoso quando vê o
veículo rodando nas ruas, sente-se confortável por sabê-lo moderno, com
airbags, freio a disco, um troço porreta, porquanto meio elétrico, meio a
gasolina.
Você labuta arduamente, ardorosamente,
porque ama os canaviais, ama essa caninha brasileira, boa de plantar, colher e
ser destilada.
É feriado, gente boa. Caramba! É um
feriadão prolongado.
Todavia, você se recorda, pode
desconsiderar-se responsável pelo cachaceiro alucinado que trafega pelas
avenidas, rodovias e infovias, porque cultiva minhocas na cachola.
Entranhado cachaceiro, suas minhocas arribam-no
ao pedestal azul da planilha, pois tiram angústia, depressão e viés camicase.
É feriado, gente boa. Carambolas! É
feriado prolongado.
Gente amiga, se me considera uma pessoa apta
a merecer perdão, embora na surdina, no abafadiço dos meus silêncios, esteja em
guerra, às armas, embora faça mortíferas as minhas mãos, perdoe-me.
Camaradinha, gente boa, fique sabendo
que não recuo de tapas de mão aberta e sopapos sorrateiros, não temo noites em
claro nem nego meus dias de cochilo mesmo em cadeira de assento duro.
É feriado, gente boa. Maravilha! É
feriadão prolongado.
Gente boa, gente amiga, sou humano,
fraquejo, me envergonho de mim por minhas pusilanimidades, sou uma pessoa sensível,
tenho para mim que lhe pareço um sujeito vigoroso, mas não sou cidadão de fibra
para ignorar o zunzunzum de um pernilongo.
Depois de outra noite dedicado à
eliminação desse monstro que me quer desequilibrado, você sabe, o corpo humano
não sobrevive a seis dias sem água, mas à minha mente, para me convencer de que
posso ficar mal-humorado, bastam três madrugadas sem dormir.
Sei, porco esmeraldino, tem feriado que não
me cai bem.
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 02 de novembro de 2023.
Nenhum comentário:
Postar um comentário