domingo, 5 de novembro de 2023

Boca maldita

 

Boca maldita

 

Putisgrila, estão gritando. E a desgraça é que ninguém sai gritando de madrugada quando é dia de semana, então, acharam de vir berrar nos meus ouvidos justo no feriado.

Freguesia, bananas, abacaxis e laranjas estão quase de graça. Se não acredita, venha conferir. Mas venha logo, porque o caminhão das pechinchas está saindo. Freguesia, corre, corra, venha! Para já ir, é só o moço dar o troco. Estamos indo, freguesia. Banana, abacaxi, laranja, está tudo muito barato. Corre, corra, venha logo, freguesia!

Haja goela.

Quando era garoto, com o vendedor advertindo que aquilo era peso demais para criança mirrada, o sábado era reservado a torrar em frutas os cruzeiros que mamãe dispunha para que a sacola ficasse cheia.

Pelas lembranças do guri mirrado que não sossegava nem depois de ter esfolado os joelhos, conheci minhas fragilidades sem saber que criança feliz nem calcula o que seja infância.

Quando sou forçado à reação, felizmente sigo infantil, birrento, faço bico, franzo a testa e fecho a cara.

Madrugadores, hoje é Finados.

Vocês bem que poderiam não ter vindo perturbar minha paz, porque o que nem imaginava neste feriado é ter sido acordado pelos anúncios de pencas baratas, unidade dulcíssima, dúzias do mais melífluo néctar, pois o que eu menos esperava é ter perdido um segundo de sono com gente muito viva que não deixa as oportunidades passarem.

Madrugadores, vocês deveriam espelhar-se nos mortos que pedem apenas que, uma vez ao ano, pensemos neles, e só neles.

E que possamos avaliar o que fizeram conosco, o que fizemos com eles, o que faremos conosco a partir do que deles pensarmos.

Contudo, o caminhão não veio num sábado, veio em Finados.

Com laranja a preço de banana, quem saboreia abacaxis?

Embora ache graça ao espiar-me enquanto faço a barba, não sorrio mas faço caretas; por distraído, corta-me a navalha.

A navalha que servira ao meu pai, agora ela me fere.

Para estancar o sangue uso a espuma do sabonete: isso quem fazia era o meu pai; isso funciona porque acredito que funcione: e da ferida, pai, mais uma vez não sai sangue.

Como não sei contar piada, prefiro anedotas.

Lembro-me, três caras entraram num bar: o bacana diz horrores de quem fala barbaridades; quem se recusa a dizer barbaridades mesmo de quem fala horrores é o sacana; é o cara legal que pede paciência a quem pensa que paciente é quem nem sabe a força que tem.

Entendo o que estou tentando dizer.

Uma vez que Deus está nos detalhes, sou detalhista: entre a cama e a janela, o tapete; entre o tapete e a janela, a cadeira; entre a cadeira e o caminhão, a janela; entre a janela e o caminhão, a boca.

Apesar de toda deferência pelos vendedores de abacaxi, o franzino franzido pede que parem, tenham dó, imploro que fechem a matraca.

Eles não param, não se apiedam nem cortam o megafone.

ꟷ Vão pro inferno, filhotes do capeta!

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 05 de novembro de 2023.

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