Terreno
santo
Naquela família, era o primeiro
aniversário que se comemorava fora da casa, mas festa de criança que mais
parecia velório?
Uma vez que a menina não sabia o que era
velório, ela corria, dava gritinhos e, para que a mãe parasse de insistir que o
fizesse, chegou a comer um sandubinha de patê de sardinha.
As primas e os primos de idade próxima
da aniversariante também corriam, davam gritinhos, sem reparar na falta das
coxinhas.
Sem reclamar que estava quente, o pai
bebia tubaína.
Porque o colega mais interessante da
classe tinha ido ao cinema, a irmã mais velha não achava graça em nada.
Satisfeitas por servir os convidados, as
irmãs do meio eram gêmeas até na surdez que as impediam de ouvir queixas.
Ainda que houvesse descontentes, foi a
esposa do irmão caçula do pai da aniversariante que fez aquela comparação, que
a festa lembrava um velório.
Já que ninguém sequer choramingava, a
pessoa velada talvez não tivesse tanta importância, quiçá fosse político ou advogado,
essa gente conhecida cujo passamento ficasse registrado com uma selfie, alguém cujos
comes e bebes tinham que ser miseráveis daquele jeito.
Com a festinha encaminhando-se pro ápice
melancólico, que seria cortar o bolo com os presentes formalizando os parabéns,
eis que veio um homem responsabilizar-se pela virada.
Ninguém o conhecia, mas era uma pessoa
bacana, tão bacana que seria descortês se lhe recusassem o sorvete e o chope.
Com a gentileza de potes e mais potes,
de colherada em colherada, até a criançada foi bastante genuína pra não deixar
passar em brancas nuvens toda aquela gratidão:
ꟷ Aleluia, moço, aleluia!
Embora ninguém o conhecesse, o moço que
não era mais tão moço seguiu servindo as três bolas generosas de sorvete porque
as graças, sem ilusória modéstia, não deveriam ser dirigidas a ele.
Embora ninguém lhe soubesse o nome, uma
vez que providenciara aqueles rapazes que sabiam mesmo tirar chope, o moço que
não pedia louvores para si merecia realmente encômios de toda gente.
Quem não parava de cumprimentá-lo era o
pai da menina que fazia sete anos. Das quatro, era a primeira filha a ter festa
com convite. Quão misericordioso era o Pai Celestial por trazer ao quintal da
sua casa um ser iluminado a ponto de proporcionar tal evento realmente
muitíssimo inesquecível.
ꟷ Até fotógrafo profissional o senhor
trouxe!
ꟷ Às vezes a memória falha, mas são as fotos
que eternizam cada momento; garantiu a mãe da mãe da aniversariante.
Uma vez que a realidade não para de
gerar maravilhas, muita gente nem se dá conta que a eternidade passa.
Passado um ano, na festinha da mesma
menina aniversariante, por saber que um ano é tempo demais pra quem vive preocupado
com os mesmíssimos problemas de todo dia, o sorriso confiante do benfeitor brilha nos santinhos que a equipe devidamente uniformizada distribui a mancheias.
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 11 de julho de 2023.