domingo, 9 de julho de 2023

Uma constipação cordial

 

Uma constipação cordial

 

Foi num nove de julho que nada tinha de especial, seria outra tarde de terça de tranquilidade, na faina que dava sempre o mesmo trabalho, repentino, porém, foi o temporal.

Tinha acabado de almoçar, estava sonolento; a ideia de correr não o empolgou. Poderia escorregar nos paralelepípedos se acelerasse na direção do escritório; acendeu o cachimbo.

Quando aborrecido, o reloginho da natureza era implacável: o nariz trancava, a barriga empedrava; travou ali mesmo, no passeio.

Uma vez que não estava disposto a incomodar ninguém, não entrou em loja alguma nem para evadir-se de si.

O toró caía, a rua alagava, as pessoas paravam, o trânsito não fluía; o mundo não o interessava, sequer o celular.

Parado, fumava. Para a mente trabalhar sem distrações, mantinha o olhar no horizonte. Só especulando pra entrar na cachola? Ajeitou a borboleta, aquela gravata era violeta por conta da Fiorentina, o time do pai, do avô, do galho da sua família nascida Médici.

Tudo ficou evidente: a mudança súbita era catiço de quem contava com que ficasse fora de si. Contudo não seria um maldito mandingueiro que o iria tirar do sério.

Pessoa cuja seriedade ficava bem de terno e gravata, matutou que, se as condições não indicavam a brusca alteração do tempo, poderia aproveitar o cachimbo, acompanhar o alagamento da rua, dispunha de um tempinho a mais para matutar sem culpa.

Que pensamento bom: sem culpa, sem remorso.

Não sentia remorso, uma vez que aquela circunstância era algo que o favorecia, isso, ‘ter mais tempo’, não significava que a hora deixava de passar, podia esquecê-la, podia suspender o cronológico, ignorá-lo que passava, ia passando, não parava de passar.

Gostando de continuar parado, fumando, pensando, isso o deixava tranquilo quanto à leitura do que acontecia.

Ler o mundo, ler a realidade, ler livros que sabiam de outras vidas, passadas, presentes e futuras, que davam a conhecer os mundos que existiram, existem, hão de vir à tona, até mundos imaginários, era isso que tanto o agradava e seduzia, punha-o esquecido de si.

No princípio não tinha verba, precisava trabalhar. E trabalhava para ter condições de ler. Além de comida e diversão, havia a autocrítica.

Se o almoço aconteceu, a chuva acontecia.

Pro Paulo Mendes Campos, “o que aconteceu já é eternidade”.

O que acontecia era o quê? Era obra da eternidade?

Sumidos no silêncio, acontecimentos viravam lama. Lembrados, os eventos relampejavam feito cacos. Na consciência, recordações eram o vaso restaurado.

De volta ao cachimbo, ao alagamento da rua, ao congestionamento, à chuva que não diminuía, de volta à gravatinha violeta, ao terno cinza, ele sabia que, naquele instante incomensurável, relógios não existiam, a Terra não rodava, o cosmos não pulsava, seu coração nunca fora de getulismos, ele era trabalhista.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 09 de julho de 2023.

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