Uma
constipação cordial
Foi num nove de julho que nada tinha de
especial, seria outra tarde de terça de tranquilidade, na faina que dava sempre
o mesmo trabalho, repentino, porém, foi o temporal.
Tinha acabado de almoçar, estava sonolento;
a ideia de correr não o empolgou. Poderia escorregar nos paralelepípedos se
acelerasse na direção do escritório; acendeu o cachimbo.
Quando aborrecido, o reloginho da
natureza era implacável: o nariz trancava, a barriga empedrava; travou ali
mesmo, no passeio.
Uma vez que não estava disposto a
incomodar ninguém, não entrou em loja alguma nem para evadir-se de si.
O toró caía, a rua alagava, as pessoas
paravam, o trânsito não fluía; o mundo não o interessava, sequer o celular.
Parado, fumava. Para a mente trabalhar
sem distrações, mantinha o olhar no horizonte. Só especulando pra entrar na
cachola? Ajeitou a borboleta, aquela gravata era violeta por conta da
Fiorentina, o time do pai, do avô, do galho da sua família nascida Médici.
Tudo ficou evidente: a mudança súbita
era catiço de quem contava com que ficasse fora de si. Contudo não seria um maldito
mandingueiro que o iria tirar do sério.
Pessoa cuja seriedade ficava bem de
terno e gravata, matutou que, se as condições não indicavam a brusca alteração
do tempo, poderia aproveitar o cachimbo, acompanhar o alagamento da rua,
dispunha de um tempinho a mais para matutar sem culpa.
Que pensamento bom: sem culpa, sem
remorso.
Não sentia remorso, uma vez que aquela
circunstância era algo que o favorecia, isso, ‘ter mais tempo’, não significava
que a hora deixava de passar, podia esquecê-la, podia suspender o cronológico,
ignorá-lo que passava, ia passando, não parava de passar.
Gostando de continuar parado, fumando,
pensando, isso o deixava tranquilo quanto à leitura do que acontecia.
Ler o mundo, ler a realidade, ler livros
que sabiam de outras vidas, passadas, presentes e futuras, que davam a conhecer
os mundos que existiram, existem, hão de vir à tona, até mundos imaginários,
era isso que tanto o agradava e seduzia, punha-o esquecido de si.
No princípio não tinha verba, precisava
trabalhar. E trabalhava para ter condições de ler. Além de comida e diversão,
havia a autocrítica.
Se o almoço aconteceu, a chuva
acontecia.
Pro Paulo Mendes Campos, “o que
aconteceu já é eternidade”.
O que acontecia era o quê? Era obra da
eternidade?
Sumidos no silêncio, acontecimentos viravam
lama. Lembrados, os eventos relampejavam feito cacos. Na consciência, recordações
eram o vaso restaurado.
De volta ao cachimbo, ao alagamento da
rua, ao congestionamento, à chuva que não diminuía, de volta à gravatinha
violeta, ao terno cinza, ele sabia que, naquele instante incomensurável, relógios
não existiam, a Terra não rodava, o cosmos não pulsava, seu coração nunca fora de
getulismos, ele era trabalhista.
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 09 de julho de 2023.
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