O
rubi
Ia passando como quem sabe que ninguém
na fila da lotérica quer vê-lo pegá-la como se quisesse apostar; e essa gente
que põe a inveja a faiscar pelos olhos é a mesma gente que equipara a fila
quilométrica da lotérica a um cisco no universo; tal gente cai nesse cochilo que
nem saca que o demônio a cutuca como quem só esbarra.
Ele ia passando, mas abriram o portão.
Com o portão aberto, dona fulana e um de
seus fulaninhos estavam saindo, pediu um copo de água porque tinha sede, mas
não precisava desesperadamente beber água, estava com a garganta pronta para
ser molhada, amaciada um pouquinho, porque a gente, qualquer que seja essa
gente, toda gente conhece alguém que sabe de uma pessoa que deixou de beber
água por um tempo e pegou tosse de tanta secura nas cordas vocais e pariu uma
ampulheta, que era tanta a areia que tossiu, desbragadamente tossiu porque
tossia orgulhosamente.
Ele tossia, e ficou tossindo até que
esqueceu o copo d’água.
E bebeu um gole, experimentou que gosto
poderia ter aquela água; se fosse de fato água, saberia porque não sentiria
gosto; mas aquela coisa que trouxeram tinha era gosto de limão e tinha cheiro
de limão e, porque poderia muito bem ter sido coada, até a cor de suco de limão
a coisa tinha: se tudo isso ela parecia ter é porque era realmente água.
Sentou-se na mureta. Balançava as pernas
enquanto bebia o copo de água que demoraram uma eternidade pra lhe trazer, um
desgraçado que não tinha sede como camelo no zoológico nem achava direito que o
tratassem como camelo no circo quando tem espetáculo com o circo cheio, com os
donos do circo com o baú cheio, porque todos os donos de circo têm o seu baú de
carvalho, cuja chave está escondida no cabo da adaga que a mulher venera; quanto
maior for a adoração, maior o brilho do olhar de quem cobiça mais que o rubi no
cabo da adaga.
Acordaram o louco, e você diz que ele é um
cara pacato.
Ele fala como se tudo fosse normal, como
se os seus comentários não fossem disparatados, às vezes polêmicos, como
daquela vez que o detiveram para que esclarecesse aquilo de dizer que todo
mundo tem o direito de cometer um crime; pois se a lei existe é porque houve quem
fez alguma coisa que não deveria ter feito; quando alguém faz alguma coisa
chocante que esse alguém seja punido; e beltrano fique atento e saiba que será
punido porque houve quem tivesse sido punido.
Sentado na mureta, ele não se acha
maluco, nem quer que chamem quem venha convencê-lo a tomar a água que deram
porque esperam que ele acredite em quem espalha que o córrego atrás da montanha
é limpo; mas as mulheres sabem que a água daquele córrego é boa, se não fosse, não
lavariam cuecas, calcinhas e tapa-olho de quem dorme com luz acesa mas cobre os
olhos com essas vendas que pouca gente sabe quem são os sicranos que as costuram.
Vai, Zeca, fique sem tomar banho para ver
até quando vai continuar agradando.
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 06 de julho de 2023.
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