terça-feira, 11 de julho de 2023

Terreno santo

 

Terreno santo

 

Naquela família, era o primeiro aniversário que se comemorava fora da casa, mas festa de criança que mais parecia velório?

Uma vez que a menina não sabia o que era velório, ela corria, dava gritinhos e, para que a mãe parasse de insistir que o fizesse, chegou a comer um sandubinha de patê de sardinha.

As primas e os primos de idade próxima da aniversariante também corriam, davam gritinhos, sem reparar na falta das coxinhas.

Sem reclamar que estava quente, o pai bebia tubaína.

Porque o colega mais interessante da classe tinha ido ao cinema, a irmã mais velha não achava graça em nada.

Satisfeitas por servir os convidados, as irmãs do meio eram gêmeas até na surdez que as impediam de ouvir queixas.

Ainda que houvesse descontentes, foi a esposa do irmão caçula do pai da aniversariante que fez aquela comparação, que a festa lembrava um velório.

Já que ninguém sequer choramingava, a pessoa velada talvez não tivesse tanta importância, quiçá fosse político ou advogado, essa gente conhecida cujo passamento ficasse registrado com uma selfie, alguém cujos comes e bebes tinham que ser miseráveis daquele jeito.

Com a festinha encaminhando-se pro ápice melancólico, que seria cortar o bolo com os presentes formalizando os parabéns, eis que veio um homem responsabilizar-se pela virada.

Ninguém o conhecia, mas era uma pessoa bacana, tão bacana que seria descortês se lhe recusassem o sorvete e o chope.

Com a gentileza de potes e mais potes, de colherada em colherada, até a criançada foi bastante genuína pra não deixar passar em brancas nuvens toda aquela gratidão:

ꟷ Aleluia, moço, aleluia!

Embora ninguém o conhecesse, o moço que não era mais tão moço seguiu servindo as três bolas generosas de sorvete porque as graças, sem ilusória modéstia, não deveriam ser dirigidas a ele.

Embora ninguém lhe soubesse o nome, uma vez que providenciara aqueles rapazes que sabiam mesmo tirar chope, o moço que não pedia louvores para si merecia realmente encômios de toda gente.

Quem não parava de cumprimentá-lo era o pai da menina que fazia sete anos. Das quatro, era a primeira filha a ter festa com convite. Quão misericordioso era o Pai Celestial por trazer ao quintal da sua casa um ser iluminado a ponto de proporcionar tal evento realmente muitíssimo inesquecível.

ꟷ Até fotógrafo profissional o senhor trouxe!

ꟷ Às vezes a memória falha, mas são as fotos que eternizam cada momento; garantiu a mãe da mãe da aniversariante.

Uma vez que a realidade não para de gerar maravilhas, muita gente nem se dá conta que a eternidade passa.

Passado um ano, na festinha da mesma menina aniversariante, por saber que um ano é tempo demais pra quem vive preocupado com os mesmíssimos problemas de todo dia, o sorriso confiante do benfeitor brilha nos santinhos que a equipe devidamente uniformizada distribui a mancheias.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 11 de julho de 2023.

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