Ouvidor
Enquanto isso, enquanto continuar
pisando a grama sem a arrancar para comer, longe dos parvos que, para
cuidarem de si pelos outros, passam os olhos pelas folhas paridas pelas ruas, a
pessoa que ignora a tabuleta sabe o que ela traz por escrito: proibido pisar na
grama.
Deitando ao largo a parvidez, aquele
homem postado a dois passos de uma sapucaia em flor é sujeito identificado pela
cidade.
De modo geral, quando estão
suficientemente perto para ignorá-lo, os locais costumam ficar divididos em
três grandes grupos: há pessoas que não veem fantasmas mesmo que sussurros
lambam os lóbulos de suas orelhas que incandescem devido a curtos-circuitos do que
mal se reprime; embora não consigam vê-los, há cidadãos que se comunicam com
espectros por meio dos murmúrios e grunhidos, porque o invisível existe ou
anjos agora à solta continuariam engaiolados nas páginas de quem se autoajuda como
livro aberto; e tem a turma que vivencia o que desconhece, sensibilizada feito
filme antigo que conta com as químicas das salas de luz negra para que, de
fato, algaravias e tatibitates tomem forma, com gramática e semântica
compreensíveis.
Pra traduzir o que a cidade não diz, com
os ouvidos livres de pios e cantochões, à sombra da sapucaia em flor no centro
da praça no centro da localidade, ele não faz cera ao desentranhar tantos
labirintos.
Por sua verve vívida de moralista
sedicioso, a segregar decadentes de crepusculares, há poucos que não fogem dele
assim que o avistam e, menos ainda, há os que não o desaforam tal qual a um
vira-lata, com balbúrdia e pontapés.
E o dia ia bom, sem que namorados
brigassem por um beijo a mais, até que lhe contaram que os enamorados cessaram
os beijos, pois foi um menino quem começou aquela encrenca.
E foi uma estilingada certeira.
Que infelicidade do mundo quando o
desgramado é um menino que mata com mamona um passarinho que jamais poderia
ter-lhe feito algo de mal, a não ser que seu canto, de bicho mavioso, soasse
por demais ofensivo, a ponto de enraivecê-lo para o tiro do estilingue.
Raiva de quê, criatura?
Menino não tem que sentir raiva, precisa
brincar, porque é divertido ser criança. Quando brinca, a criança aprende a ser
furibundo somente de mentirinha.
Brinquedo quebrado, menino, custa
dinheiro repô-lo.
Criatura, aprenda que não tem que bancar
o destruidor do que seja belo, do que tenha vida, como o passarinho atacado à
toa.
Então ali está, pisando a grama a dois
passos da sapucaia em flor, tão logo soube da morte, o camarada veio escutar
pardais, bem-te-vis, andorinhas, veio escutar o que estivesse na árvore àquele
instante no centro da praça.
Já que a tristeza não pode ser ignorada,
aviva-se o lamento.
De repente, na sapucaia em flor, o canto
de um joão-de-barro vence falatórios, buzinas, marteladas e brocas de dentista.
E o tal camarada deita na grama.
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 02 de julho de 2023.
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