domingo, 2 de julho de 2023

Ouvidor

 

Ouvidor

 

Enquanto isso, enquanto continuar pisando a grama sem a arrancar para comer, longe dos parvos que, para cuidarem de si pelos outros, passam os olhos pelas folhas paridas pelas ruas, a pessoa que ignora a tabuleta sabe o que ela traz por escrito: proibido pisar na grama.

Deitando ao largo a parvidez, aquele homem postado a dois passos de uma sapucaia em flor é sujeito identificado pela cidade.

De modo geral, quando estão suficientemente perto para ignorá-lo, os locais costumam ficar divididos em três grandes grupos: há pessoas que não veem fantasmas mesmo que sussurros lambam os lóbulos de suas orelhas que incandescem devido a curtos-circuitos do que mal se reprime; embora não consigam vê-los, há cidadãos que se comunicam com espectros por meio dos murmúrios e grunhidos, porque o invisível existe ou anjos agora à solta continuariam engaiolados nas páginas de quem se autoajuda como livro aberto; e tem a turma que vivencia o que desconhece, sensibilizada feito filme antigo que conta com as químicas das salas de luz negra para que, de fato, algaravias e tatibitates tomem forma, com gramática e semântica compreensíveis.

Pra traduzir o que a cidade não diz, com os ouvidos livres de pios e cantochões, à sombra da sapucaia em flor no centro da praça no centro da localidade, ele não faz cera ao desentranhar tantos labirintos.

Por sua verve vívida de moralista sedicioso, a segregar decadentes de crepusculares, há poucos que não fogem dele assim que o avistam e, menos ainda, há os que não o desaforam tal qual a um vira-lata, com balbúrdia e pontapés.

E o dia ia bom, sem que namorados brigassem por um beijo a mais, até que lhe contaram que os enamorados cessaram os beijos, pois foi um menino quem começou aquela encrenca.

E foi uma estilingada certeira.

Que infelicidade do mundo quando o desgramado é um menino que mata com mamona um passarinho que jamais poderia ter-lhe feito algo de mal, a não ser que seu canto, de bicho mavioso, soasse por demais ofensivo, a ponto de enraivecê-lo para o tiro do estilingue.

Raiva de quê, criatura?

Menino não tem que sentir raiva, precisa brincar, porque é divertido ser criança. Quando brinca, a criança aprende a ser furibundo somente de mentirinha.

Brinquedo quebrado, menino, custa dinheiro repô-lo.

Criatura, aprenda que não tem que bancar o destruidor do que seja belo, do que tenha vida, como o passarinho atacado à toa.

Então ali está, pisando a grama a dois passos da sapucaia em flor, tão logo soube da morte, o camarada veio escutar pardais, bem-te-vis, andorinhas, veio escutar o que estivesse na árvore àquele instante no centro da praça.

Já que a tristeza não pode ser ignorada, aviva-se o lamento.

De repente, na sapucaia em flor, o canto de um joão-de-barro vence falatórios, buzinas, marteladas e brocas de dentista.

E o tal camarada deita na grama.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 02 de julho de 2023.

Nenhum comentário:

Postar um comentário