A
megera
Ruídos acordaram a mulher, que fora
dormir assim que a luz elétrica caiu; com aquele aguaceiro, por óbvio, a força acabaria;
e obviedades, por sinal, são inevitáveis.
Pra dormir, a mulher precisava de
condições específicas, que fosse baixo o travesseiro e os roncos do marido
mantivessem o ritmo.
Não se ofenda caso esteja passando por
semelhante situação, pois a pessoa padecer de seguidas noites em claro por obra
de terceiros é sofrimento; e a dor contínua amortece a sensibilidade; e a vítima
acaba acostumada; em havendo resignação, mesmo que não haja deliberada condescendência,
percebe-se em prazer involuntário.
Pasmado leitor, quem não dorme por amor é
insone no paraíso.
Todavia, o sono da mulher foi
interrompido por um barulho vindo de fora do quarto; disrítmico, era irritante;
sem mensagem secreta alguma, era código indecifrável; se não alcançava
decodificá-la, aquela era uma barafunda dos infernos.
Pilhada, ela deu com a filha no quintal.
Achando-se baterista, ela golpeava
caixas de papelão com colheres de pau; eram baquetas, não precisava a mamãe gritar-lhe
que parasse; o que fazia não era bagunça, aquilo era música.
E a mãe andava tiririca com aquela
rebelde.
Se estudasse em vez de batucar, ela iria
bem na escola. Não tirava notas mais altas porque vivia acelerada, pulando do
celular pro tablete. Mal começava a ler a lição de casa e já ia jogar bola na
rua.
A garota queria mesmo vê-la irritada.
Ela não poderia redundar contrariada, pois
a língua passaria a jorrar bile tóxica, o chinelo desejaria sapecar nádegas e o
tranquilizante mais eficaz era positivamente ir borboletear num shopping.
Que entrasse, fosse jogar no seu quarto,
a menina obedecesse.
Com a obediente indo à sala para assistir
ao jogo da seleção, o pai chega da rua exibindo um embrulho como se fosse um
troféu.
ꟷ O presente é pra mim, papis?
Era, sim.
A menina tomou-o ao pai; ignorou o
cartãozinho; rasgou o papel de presente como quem retira casca de banana; foi
atirando as folhas de jornal amassado que recheavam a caixa: o presente era uma
bola.
ꟷ Papis!
Ela sonhava ter uma bola, vivia pedindo
que lhe dessem uma, como há lógica quando a esperança é atendida: teve a
disparada do coração e o carreirão pro quintal.
Pra não machucar a bola, a felizarda passou
a cabeceá-la.
Como aquilo ficou chato, achou de chutá-la
contra a parede.
Batia com a parte interna do pé; dava
bico; arriscava uma trivela; e tudo era felicidade, até quando errava uma
chaleira.
Querendo-se uma senhora craque, a
garotinha chutava com os dois pés e, vez ou outra, fazia a bola subir o tanto
que precisava para matá-la no peito e soltar sem-pulos.
ꟷ Hora do almoço, amore.
Em vez de abrir o berreiro porque lhe
foi tirado o doce mais doce, a menininha pulava e, a cada vez que as mãozinhas nem
relavam a bola acima da cabeça, ela gritava um palavrão.
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 04 de julho de 2023.