quinta-feira, 15 de junho de 2023

A descoberto

 

A descoberto

 

Doutora, sou-lhe grato por ajudar-me a compreender que é fácil ver a realidade do que está visível e que o problema está em fazer os olhos conhecerem o imprevisto da realidade.

Doutora, hoje eu entendo que consegui superar minhas dificuldades pra perceber que a vida é basicamente o que sinto. Doutora, reconheço que o conhecimento mais profundo eu aprendi a construí-lo com a sua mediação, pois sem a sua colaboração eu continuaria pensando que a realidade que existe é só a que eu vivo.

Doutora, a senhora fez-me ver que silêncios abrem feridas mas nem toda mágoa precisa ser cicatrizada. É fundamental as dores educarem a ir além do sentimentalismo, pois emocionante é revelar-se em carne viva no mundo descoberto além das opacidades.

Doutora, eu sei, mesmo quando estou à vontade com o que desejo, não estou livre do mundo. É autoengano achar conveniente perder-me da realidade em nome da paz espiritual que traz resignação.

Quando não ouço a revolta que trago em mim, doutora, escuto-me na indiferença que me faz insensível.

Como não quero acomodar-me à escuridão que entorpece, porque a apatia me afeiçoa a mim, gosto de andar na chuva.

Quando chove, saio dar uma volta, uma volta bem longa, demorada o bastante para que os meus olhos fiquem limpos ou identifiquem quais as impurezas do dia a dia que me irritam.

Porque não vejo de outro modo, acho degradante atrelar quem sou ao cidadão que não protela nada do que tenha que ser atendido, como se as demandas diárias fossem de fato barreiras a serem vencidas.

Desculpe, doutora, mas não acho abuso eu sentar molhado. Porque indigno é reforçar: se o pagamento garante a qualidade da sessão, tem também que afiançar alguns direitos não descritos.

Mas eu não vim dar pito; conto que a senhora responda: quem teme se conhecer não quer revelado nenhum monstro?

Doutora, tenho essa questão porque lembrei o que ocorreu faz vinte anos. Desde aquele acontecido na chuva, creio que o mundo, de forma veladamente engenhosa, é movido pelo insólito.

Acho que a ciência nem queira dar explicação. Não interessa, pois o sentido do evento eu entrevi com ajuda da senhora.

Naquela época eu estava desempregado, pois tinha parado de dar aula e duvidava dessa vocação que é escrever.

Nesse dia de chuva, o Camões puxou conversa. E falamos de igual. O Poeta sentia o que me fez errar debaixo do aguaceiro. Ele percebia o que fui fuçar na caçamba de lixo.

Saber quem era? Foi fácil, doutora, foi pelo tapa-olho.

O esquisitíssimo caolho, que enxerga 2013 em tudo o que esmiuça, quando me falou, comigo encharcado de brasilidade, ensopado desde o cocuruto, fez-me ver a figura borrada, enevoada pelo não vivido.

Minha senhora, embora eu não tenha nascido escritor, fissurado no mundo ainda não escrito, este clássico estrangeiro põe-me estimulado a perseverar no papo com a vida toda.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 15 de junho de 2023.

terça-feira, 13 de junho de 2023

Fora do padrão

 

Fora do padrão

 

Aquele homem queria parar, mas não sabia como. Se soubesse ou se alguém o tivesse alertado, como não soube nem ninguém lhe gritou que prestasse atenção, deu-se aquele incidente.

Ele não sabia como parar e as pessoas preferiam ignorá-lo, sem ter a ajuda de quem fosse, então, aconteceu que ele caiu no buraco.

Com a queda, bateu a cabeça num cano e a vala encheu de água; só quando chegaram os primeiros trabalhadores, perto das sete, uma ambulância foi chamada.

Se tivessem reparado, veriam que sofria para andar. Se buscassem a raiz daquela dificuldade, saberiam das dores nos pés e em ambos os calcanhares.

Se lhe perguntassem, culparia o ácido úrico pela gota.

Apesar dos gastos para manter-se bêbado a maior parte do dia, não era amargurado nem se ressentia da vida. Aliás, não entendia o porquê de não beber uma taça de vinho à noite, achava bem esquisito.

Sofria. Se sofria tanto, por que o amor o mobilizava?

Ele só queria amar o próximo, mas sua barba grisalha tornava difícil que percebessem qual sua missão. As pessoas diziam que a barba era falsa, o ho ho ho era forçado e o barrigão era enchimento; no todo, não passava de um Papai Noel de araque.

Pra piorar, o cheiro de cachaça incomodava até mesmo as crianças. Não tinha jeito de ser amado pelo próximo, daí que o seu amor estava voltado pros vira-latas.

Não era amor exclusivo, mas fiel o bastante. Tanto era com os cães que nem precisava chamá-los, de manhã ou à tarde, para que viessem deitar perto. Gostavam de sol e baba, e tanto gostavam que a lambiam escorrida da boca.

Habituara-se a deitarem juntos.

O Papai Noel de araque sofria quando abraços e beijinhos lhe eram negados. Por doer-lhe tanto, bebia mais. O enjeitado queria ser amado, abraçado, que o beijassem. Só os cães lambiam sua boca.

Por falta de quem o aceitasse amável, o homem chamado de Papai Noel de araque não choramingava. O sono vinha logo. Não tinha de se sentir uma pessoa desprezada. Queria ter quem o amasse, o deixasse abraçar, beijá-lo, desejar-lhe o bem. Pena que não tinha.

O homem solitário tomara banho, jantara, desnudara-se, pegara no sono; sonhou, porém não ficava assuntando conexões entre um pardal abatido por pedrada e o frango assado dos domingos.

Todavia, tal homem não era de araque.

O barrigão era por causa dos pratões de comida. E bebendo o tanto que bebia, era inexplicável que encarasse aquelas montanhas.

A risada era esquisita porque pegara infecção. Durante uma chuva que não parava, com a enchente pelo peito, veio cobra ou ratazana do banhado. A picada coçava, a ferida sangrava. Deram injeções. Curado, mas com a voz rouca.

A barba era real. Não era para trabalhar na época natalina, era pra não virar monstro da cara rubra, pois o rosto ficava empipocado a cada vez que se barbeava.

O socorrista sequer sorriu ao escutá-lo:

ꟷ É errado amar quem não quer ser amado?

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 13 de junho de 2023.

domingo, 11 de junho de 2023

Por amor aos fatos

 

Por amor aos fatos

 

Pastel de carne seca com garapa levam-me à feira quase que toda semana; falto quando chove, mas peço que entreguem em casa.

Sem relógio a confranger-me a bebê-la gelada; com pimentinha que me destempere a língua: desdenho da minha medíocre pessoa quando sucumbo achar deliciosa uma vida sem aditivos.

Dou vivas às pílulas que me condicionam mentalmente estável, um sujeito confiável, aperfeiçoado pela cachola quimicamente adulterada, outro homem comum que escolhe ter consciência das coisas boas que possa fazer; por óbvio, faço-as pro irrestrito bem geral.

Azeitado pros eixos do cotidiano, contem comigo para tagarelar que a concórdia humana é a boa nova que a qualquer momento haverá de ser comunicada via celular.

Creio que a rede é fonte incontornável pra quem espontaneamente aumenta a confusão debaixo desse céu candidamente anil.

Não duvido que preciso estar em sintonia com medos e alegrias da época em que vivo ou, na ignorância de como ajo, estarei feito ameba, sincronizado por inércia às petulâncias do mundo.

Entre fazer o bem por escolha própria e ser feliz sob pressão, mordo o pastel frito na hora, aprecio o limão posto na garapa e acredito que o telefone que carrego logo tocará.

Se o mundo anda intragável, trato de lutar pra transmutá-lo.

Enquanto como e bebo, eu teria razão se rateasse com a estudante que veio a mim com um questionário sobre hábitos de leitura. Não sei se por prevenção ou acaso, mas ela de mim mantém uma distância tal que me possibilita escutá-la sem alucinações de cenófobo zureta.

Quantos livros eu leio por semana, mês, ano? Sei lá.

Gosto mais de ler romance, contos ou poesia? Crônicas.

Quais meus autores favoritos? Aquelas e aqueles que ainda não li.

A adolescente escreve as respostas sem sorrir ou encarar-me, até que ela quer saber qual personagem eu gostaria de ser.

ꟷ Sem dúvida, é a Emília.

De testa franzida, interpela-me a aluna:

ꟷ Senhor, será a Emília do Sítio do Pica-Pau Amarelo?

ꟷ Ela mesma.

ꟷ O senhor vai ter que trocar porque a Emília é uma boneca, não é personagem humano que seja masculino.

ꟷ Não posso pretender ser a Emília?

ꟷ Vou explicar melhor, senhor. Para não ter confusão, a professora acha que o homem tem que escolher um personagem que seja homem e a mulher tem que escolher uma personagem que seja mulher.

“Regras simples facilitam a vida.”

Posto que entendo os fatos da circunstância, não digo o que penso; para atender ao proposto pela simpática pesquisadora, digo:

ꟷ Garota, glorioso seria voltar ao mundo como a célebre criaturinha apaixonante nomeada Orlando por Virginia Woolf.

Basta ouvir ‘Orlando’ pra identificá-lo como homem, então, dela eu mereço um sorriso, o de quem dá sua aprovação.

Sei me portar de maneira civilizada, é sorrindo que a agrado. Já que também sorrio de dentro pra fora, tal sorriso me sai tão verdadeiro.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 11 de junho de 2023.

quinta-feira, 8 de junho de 2023

Doce balanço

 

Doce balanço

 

Quisera hoje folgar, mas nem cansaço nem fastio chancelam minha disposição para ficar de papo pro ar. Como querendo a gente encontra o que legitime o ócio, apelo à falta de assunto para ir às ruas em busca do que se me revele pitoresco ou afete-me por estranheza, ineditismo ou avacalhação descarada.

A caminho do bar, depois de reconhecer desanimadora a labuta de repaginar o que não me satisfizera ontem nem há pouco e pra que não me entorpeça em amargura, beberei laranjada.

Sem açúcar e sem açodamento, atento à movimentação dentro do bar, tenho uma jarra de laranjada para beber, e a vou bebendo de gole em gole. Com alguma tranquilidade, pois eu a bebo sozinho.

Ainda que esteja decepcionado comigo por escafeder-me da página em branco, eu seria grato a quem me houvesse proposto um servicinho remunerado.

Nada de espantoso, pois me apetece que o valor prometido não me demova de conjeturar que uma jaqueta, tentação em couro há meses corporificada na vitrine, a mim não esteja afortunadamente reservada.

Não fantasio: ela exposta, desejo-a. Tão logo eu junte a quantia que preciso para comprá-la, será minha.

Se fosse de sonhar, ou de assumir o que tenho sonhado, vislumbro-me convertido no Lou Reed que a cachola afeiçoa-me revistá-lo tal qual o recordo na capa de Transformer, tremendamente sensual.

Como desafinado é pesadelo até no chuveiro, reconheço que tenho dotes minúsculos, como cantor e manequim irremediavelmente sexy.

Uma vez que bar não dá palco a quem não sabe cantar, não pedirei vodca na laranjada e manterei a bossa de que tenho muito a ouvir.

Ouço o burburinho, falam de mortes e achaques, dizem que odeiam e amam. Pouco a pouco estou envolvido, até meneio sins e nãos.

Antes de vir sentar-se comigo, Luisinho pede uma KS gelada e um pacotinho de amendoim japonês.

Reclama do quanto terá de pagar à Receita. Não tem dúvida que o escritório deve ter errado na sua declaração. Pela renda que tem, acha um absurdo não entrar em alguma faixa de isenção. Se falam tanto em inteligência artificial, por que o sistema não o reconhece pobre?

Meneio nem sim nem não, que ele entende como quer.

ꟷ O país tem forçado a gente passar por uma fase complicada.

ꟷ Complicadíssima, faz quinhentos anos que ela não passa.

Para aliviar, peço uma porção de calabresa na chapa.

Para entortar de vez, Luisinho pede uma caipirinha.

Os dois homens da mesa ao lado não param de falar, e acham que prisão por falta de pagamento de pensão é vergonhosa, pois deveriam prender criminosos de colarinho branco, que é vergonhoso um tribunal condenar salafrários e descondená-los, que nunca obrigam poluidor de rio a despoluí-lo, que o ouro extraído de terra demarcada é exportado ilegalmente, meninos são forçados a fazer a mata virar carvão.

Doce de pessoa, Luisinho mata a charada:

ꟷ Botam coisa na água que a gente bebe, camará.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 08 de junho de 2023.

terça-feira, 6 de junho de 2023

Espeloteado

 

Espeloteado

 

Se o convidarem, não se precipite. Embora o rancoroso mostre-se satisfeito quando contrafeito, veja-se entre quem não adula nem deseja que o bajule. Por se importar com a tranquilidade, particularmente com a sua, recuse rastejar seu ego festeiro entre festeiros.

Acredite, embora goste de demonstrar-se atento ao instante, a ele não se apegue, que o momento passa e segue virando. Se hoje é lama grudada na roupa, amanhã são cacos contando histórias.

Torne-se menos impetuoso, conscientize-se, dar like é registrar-se ativo, comentar com sinceridade fotos postadas faz com que seja visto como rude. Como incomoda tal rudeza sinceramente consciente, pode crer que o consideram um chato, petulante, um babaca metido a besta. Que seja. Só esteja seguro que é preferível ir dar pipocas a rinoceronte, pela distância daquelas pessoas, convivas de caco cheio.

Bastante distante, pra que as palavras desairosas não o atinjam em um dos seus pontos fracos, as orelhas. Pois orelha queimando diz que reprimendas e contestações voam ligeiras e cobrem quilômetros assim que profetizadas por aquelas bocas encharcadas de cachaça.

Vá para longe e fique lá pelo tempo necessário para que as pragas esfriem no caminho. Lembre-se de que há quem o queira adestrado, a tirar selfies com todo mundo, que isso é normal, bacana, coisa de gente bem simpática.

Seja antipático, vá à festa para contrariar quem o queira sorridente, sóbrio, um exemplo maravilhoso de pessoa iluminada. Dê o melhor de si: leve a escuridão e faça trovejar. Seja autêntico, pois não é problema seu que o repilam, que desgostem de temporais.

Sim, pecado é faltar à festa boa. Frente à felicidade fotogênica, não seja outro ressentido. Comentários irônicos não bastam, esteja lá com o semblante carregado, de quem pode chover a qualquer momento.

No clima da festa, com você já alegrinho, pela malícia de mentiroso que não se envergonha das próprias bazófias, solte essa: o rinoceronte come pipoca.

Com certeza a alegria embriaga, brinde a isso.

Embriagado, seria um pecado não se alegrar com as fanfarronices de achar falhas morais em quem não se anima com a embriaguez que a consciência ventila ao bel-prazer de gozar na hora o que tenha para ser gozado.

Porque dá pelota do quão verdadeira é esta ideia, você a pensa de passagem: maravilhoso é ir ao zoológico que a cidade não tem.

Já que a invenção coloca-o no mapa, o zoo existe. E qualquer um pode achá-lo, basta usar a bússola afetiva que o configura mais longe que a inexistência: na mente em que o coração não a cativa.

Onde ofegante o afobado?

Onde convém visitar quando o medo puxa pelo ar, sufoca, paralisa. Onde as verdades desconcertantes são içadas do pântano mental em que a gente naufragada nem se sabe encoberta pelo vistoso do coral.

Travesso, se rinocerontes são bestas, belo é ser coral.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 06 de junho de 2023.

domingo, 4 de junho de 2023

O sogro

 

O sogro

 

Livre da chateação de querer-se perfeita, pessoa interessante que revela o que é capaz não pela felicidade que possa alcançar, mas pelo que compreende de si ao entender-se com as coisas do mundo, à flor da pele, Dona Cremilda faz-se brisa.

Sobrevivendo ao sufoco do tempo rarefeito, não se dispensa de ver na folhinha que encargos terá no domingo: tem anotado um churrasco de aniversário pra ir. Só depois do meio-dia, irá.

Com uma elegância sutil, chega sem fanfarras, senta-se ao lado de quem não está cativado pelo celular. Conversa amenidades, distrai-se, sorri de vez em quando. Com meninas e meninos que brincam com os cachorros, diverte-se. Bebe suco, come quibe. Com a barra do vestido suja de barro, sem temer um tombo nesta terra, corre com os cães.

Pelas cervejinhas a mais, a aniversariante inventou de contar:

Precisamos que chovia e a chuva havida foi a dádiva ansiosamente pedida e nossa súplica atendida caiu madrugada adentro e madrugada afora, tanto que houvemos por bem que chorássemos e emocionados choramos. Por nossa gratidão, por sermos ouvidos pelas nuvens, pela água das nuvens, pela terra que acolheu a chuva, recolheu fecunda a água da madrugada, o que nos encheu de alegria, convictos de sermos abençoados. Pessoas íntegras, inteiramente humanos, que somos nós de corpo e alma, tanto que choramos e suplicamos, seres penhorados de gratidão, fomos dormir e dormimos. Não sonhamos pesadelos com a morte pela água nem com a carência d’água no chão, tanto choramos de contentamento que fomos dormir e dormimos. E apenas dormimos, exauridos por dentro e extenuados por fora, pois éramos os cansados. Agradecemos, e então, dormimos. Vivas!

Foi quando o bêbado entrevado na sabedoria de seus fios cofiados, foi então que levou Dona Cremilda a recordá-lo sábio justamente pelo imponderado, pessoa impulsiva, mente embebida no conhecimento do mundo pela pele que sente, um ser humano belo, estúpido, patético e emocionado, que se deixa emocionar pelo que conhece ao sentir-se à tona do mundo, entregue à vida no instante:

ꟷ Vou buscar pastel. Quem vai querer?

Foi quando a irmã da aniversariante apareceu:

ꟷ Vai comprar ali na esquina?

ꟷ Vou, sim. Eu vi o carrinho ali na esquina.

ꟷ Traz pra mim um pastel de vento.

ꟷ É sério que não leva nada a sério?

ꟷ Não faço piada. Achei cinco reais, e é só o que eu tenho. E pastel de vento custa justo cinco reais, colega.

Dona Cremilda comia um coraçãozinho quando lhe contaram que o pai do marido da aniversariante chegara bêbado, que chegou tomando uma latinha, falava a língua engrolada dos bêbados, achando graça de arrotar a cada gole, que ele estava mesmo se julgando em casa.

Gente que não menospreza a felicidade alheia, quiçá para criticar a alegria desmesurada, Dona Cremilda deu àquele sogro solto no vento a latinha que deram a ela, a ainda abstêmia.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 04 de junho de 2023.

quinta-feira, 1 de junho de 2023

O trivial do instante

 

O trivial do instante

 

Consciente das minhas fraquezas, admito que a que tem produzido mais alegrias que vergonha é o apego à razão: lógico!

Conscientemente lógico, confesso-me outro hedonista que se apraz em fazer do melhor modo o que o dia a dia tem para mim: beleza!

Não me condeno pelo prazer em tomar banho depois de ter corrido bancos e lojas. Me condenaria se, no meio da correria, tivesse deixado de assistir à moça interpretando Trem das Cores: bravo!

É comovente a lembrança vir dar comigo a querer um prodígio que me desperte pro tédio que é sempre ter fé na irritabilidade, embora eu fique embaraçado ao andar pelado pela praça: tô gordo.

É hilariante querer dormir mais do que tenho dormido quando o sol bate nas pernas, como se a manhã comunicasse que tenho de acordar e mandar consertar a TV, mas, mesmo dormindo eu sinto, é óbvio que vou da irritação comigo à raiva com o vizinho que não tem TV, e meus olhos traduzem os algarismos no celular: tô atrasado.

É mimoso pensar no gatinho que toma sol ao lado da cama, ele não finge que dorme nem eu finjo que concordo com quem diz que a pressa é dos outros, porque não tenho nada de me meter na vida alheia, pois ansiedade me dá fome, e fome lembra almoço: oba!

É estimulante pensar que vou almoçar, que tem mais gente em casa e que a mesa estará posta quando eu me sentar, ora, se o alarme não disparou é que a pessoa me conhece e quem agrada o bichano sabe que a manhã continuará ensolarada: maravilha.

É maravilhoso ter quem goste do gato, cuide dele como se cuidasse de mim, embora eu não mie nem quando estou tenso, sei que preciso levantar antes que me telefonem, sei do prazo pro envio do texto, tenho que fazer esse trabalhinho: já tá pago.

É esquisita a sensação de que sou outra pessoa: quem é você?

É salutar o desejo de acordar sem tédios nem melancolias, embora essa outra pessoa não queira papo comigo, porque eu tenho perguntas e quero que as respostas sejam sinceras, porque a verdade é uma só, ou a gente conversa ou o mundo continuará na mesma: uma droga.

É estranho outra pessoa cuidar da gente como se cuidasse do gato que continua dormindo mesmo com o sol forte, porque já é meio-dia e o marmitex em cima da mesa vai precisar do micro-ondas, ou a gente come a comida fria ou a gente fica feliz por compartilhar: eba!

É contagiante a ideia que o mundo pode ser melhorado, desde que se saiba qual seja esse melhor a ser construído, embora eu me enerve só de temer a frustração, porque os meus momentos de lucidez andam escassos, tenho sentido medo; quando estou com medo é que entendo que os dias são tristes, de tristezas pesadas, que me atrapalham, tiram de mim a vagareza, que eu corro e sei que estou correndo: é pra já.

É repentino o mundo que me revela ordinário, porque a gente pode conversar numa boa, embora eu ainda esteja cochilando: peraí!

É tenebroso esse mundo de sol com o gatinho faltando.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 01 de junho de 2023.

terça-feira, 30 de maio de 2023

Sumidade

 

Sumidade

 

Aquele homem nem disfarça, gosta mesmo de ser do contra; sobre seja lá o que seja, diz-se que é pessoa livre, autônoma, independente, um pensador que não se sujeita; no fundo, se o carimbo de gente livre for examinado de perto, é evidente que a tinta ꟷ nem a cor verde nem a azul são empregadas, só o vermelhoꟷ não infunde fundamentos nem enraíza fundamentações, apenas mancham o caráter, contaminando a leitura da sua aura, essa aura em cujo espírito o ser humano de ideias precisamente dignas e sóbrias gera a identidade oportunista de quem sabe ganhar a vida, ainda que não assuma o otimismo.

Tal otimista não avalia como estapafúrdias as opiniões que dispara assim que a comichão acossa-o. Seus dedos são rápidos na digitação, seus olhos são pródigos em leitura enviesada, em seus lábios abunda a saliva do satisfeito. Pelo êxito alcançado: milhares de curtidas a cada postagem, milhões de neurônios recompensados pelo reconhecimento do seu afeto fundamental, que é contrariar a corrente majoritária que impregna com sensatez a mente da nossa gente.

“Tem brasileiro que samba ao ter sofrido outra derrota”: a primeira ideia estapafúrdia que o otimista que sabe contradizer-se teve durante a noite passada foi que a ventania uivante garantia que o final das eras aconteceria assim que a chuvarada caísse, rios transbordassem, ruas restassem alagadas e não fosse mais leviandade afirmar que os raios eram raios tão somente raios.

Duvidar do apocalipse no seio da madrugada? Céus!

Sendo um temporal, cadê que não se escutaram os estrondos? Isso foi o que foi, que o mais assustador da noite foi que houve relampejos, os clarões terríveis, e nada disso foi evidência que o fim do mundo iria ser escuro, silenciosamente apagado, aquele breu só.

Afeiçoado a repentes apocalípticos, o homem foi às compras.

Lá ele encontrou quem gosta de felicitá-lo ao encontrarem-se; e por nada, por qualquer coisa, como se a felicidade girasse feito o girassol, ao léu desses encontros circunstanciais.

A segunda ideia idiota, ele a pensou assim que se livrou do abraço: que o sol da lágrima não aquece a língua da gente porque não é sol, é sal, é amargo, e o sal da lágrima não é dor nem sofrimento, nem sequer dá paixão à alma.

A terceira idiotice veio da segunda, que ele não tinha como assumir a autoria daquela besteira, porque ele diz o que diz e esquece, vai em frente, como se a chuva caída de madrugada não tivesse acarretado o alagamento da rua nem que os bombeiros não vieram socorrer as duas mulheres, a cacatua, a calopsita e aquele gato angorá, que, por conta daquele olho esbranquiçado, é o Simão.

Comentaram que o homem que gosta de ser do contra não merecia audiência, que ele era uma pessoa nefasta, alguém indigno de dó, até porque ele repassou: “a gente quer bem o próximo quando está bem, o contrário é vulgaridade hipócrita”.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 30 de maio de 2023.

domingo, 28 de maio de 2023

Na retranca

 

Na retranca

 

Eu estava pensando em sair, mas chegou visita.

Pra minha diversão, quem veio nem teve o cuidado de perguntar se desagradava-me a sua chegada. Chegou e pronto: que fosse recebido com a simpatia costumeira, sem salamaleques.

Incapaz de mimimi, e por cultivar os bons modos de gente educada, eu não retruquei que fosse logo se sentando na minha poltrona.

Porque visita tem o privilégio de estar sempre com a razão, e antes que as costas indicassem desconforto, até lhe atirei uma almofada.

As pessoas que convivem comigo acham-me razoável. A elas o que vigora é a postura de sujeito que só explode quando bem contrariado.

Irreverências à parte, só tenho louvores a fazer a quem enxerga as qualidades que consideram primordiais em uma pessoa agradável, que nem eu, gente evidentemente nascida para bem servir.

Por possuírem um conhecimento profundo sobre mim, por saberem que sou fleumático, com enraizados acentos civilizados, escusando-as de elogiar-me a afabilidade, sinto-me gente verdadeiramente polida se abusam e tratam de extrair de mim o meu melhor.

Bem-criado, em vez de ter oferecido água, preferi os ouvidos.

Na verdade, ofereci água; não apenas um copo d’água, pois ofereci a escolha: água gelada ou nada.

Ora, estou ciente de que as boas maneiras dão-me consciência de que posso gentilezas e cortesias, que jogar a favor da identidade como bom jogador é apostar em mim como gente pragmaticamente servil.

Se posso ser útil, ainda que isso me vulgarize um serviçal esforçado aos olhos de quem sabe que sou capaz de vaidades menos banais, é perfeitamente natural que eu me realize gentil, cortês e aprovado.

Aprovo minha atitude, que a visita perceba que posso deixá-la leve, motivada a falar, porque eu sei ser o bom ouvinte.

E eu ouço o que o meu coração canta: que o corpo sente que é bom o pulso seguir tranquilo, leve, tão leve e tão tranquilo que minha mente capta o impulso constante que gera uma alegria serena.

Gente amena que sorri quando entende o mundo durante uma visita ao meio-dia, não me abate a felicidade que é a revelação desta faceta de ser humano feliz, alegre e satisfeito.

Se minha generosidade estivesse condicionada a biscoitos e sucos, eu me implicaria em separar as visitas: aquelas merecem ter estragada a saúde com salgadinho de camarão e estas, pessoas amigas que não se rebelam por ninharia, nego-lhes o copo estupidamente gelado.

Camaradinha a quem não me cativam os confrontos com o mundo, prudente ao refletir: que o sorriso de anfitrião desarmado comprovasse a ânsia de ser melhor compreendido, feito tolo.

Como perna de pau que não sabe fintar o instinto, abri o jogo:

ꟷ Vamos almoçar?

Ela tinha acabado de acender um cigarro, baforou-o, bateu a cinza no vasinho de violeta e, na marca da cal, foi elegantemente sábia:

ꟷ O que você ficou fazendo até agora que ainda nem almoçou?

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 28 de maio de 2023.

quinta-feira, 25 de maio de 2023

Zona de conforto

 

Zona de conforto

 

Para entrar no quarto, a porta foi aberta.

Como passara a manhã na rua, até se esquecera dos motivos pelos quais tinha que deixar fechada aquela porta.

Se tivesse dado crédito à sensação de que sair de novo seria o mais aconselhável pra lidar melhor com o momento, pois um picolé sempre cai bem quando a mente parece que está pedindo uma lufadinha de ar no rosto, uma boa caminhadinha à toa pelas alamedas do bairro, uma paradinha na praça pra maravilhar-se com os passarinhos que pipilam, cantam e, cantando, dizem que o mundo segue o seu curso.

Uma vez aberta a porta, percebe que não valorizara a intuição que tivera: o melhor teria sido mesmo ter entrado no quarto, não agora mas pela manhã, depois do café.

Se não tivesse saído pagar contas, em vez de tomar o quarto como mais outro campo de tarefas infindáveis, poderia vencer o esgotamento com um sorvetinho na praça.

Não que o raio caído tenha esvaziado o cérebro, o pressentimento basta pras mangas morais serem arregaçadas, pra que o cansaço não dê raiz a doença.

O cérebro conscientiza-se de que está cansado enquanto trabalha, e limpa o chão do quarto. Tira as roupas do chão. Tira o pó dos móveis. E varre o tapete, varre a flor de fiapinhos do tapete. Coloca os tênis no armário. Faz uma nova pilha com os livros que não foram lidos. Monta a pilha de livros que anda lendo antes de dormir; empilha-os no criado ao lado da guarda da cama. Limpa o abajur. Consulta o celular, nega-se a responder as mensagens. Limpa o celular. Cospe na tela e limpa. Varre o vão entre o tapete e o criado. Tira o pó do anjinho de plástico acima da guarda da cama. Limpa a Bíblia da Barsa. Limpa as imagens de Nossa Senhora de Fátima, Nossa Senhora de Medjugorje e Nossa Senhora Aparecida. Limpa cada uma das contas do terço que fica lado a lado com o anjinho que brilha no escuro.

Pleno de Deus em todo canto, por sombra e luz, Deus não brota no quarto, não é saliva, é o ar que se sente na respiração, que se respira.

Deus são os grãos de areia passando pelo poroso da mente, porque a mente cansada acumula-se de Deus, que as fissuras não Lhe barram a passagem, porque a mente cansada percebe a presença divina pela continuidade dos grãos, que a luz divina faz-se calor, vira água, nuvens são o rastro, o pensamento pipocando na mente, dão carne ao brilho, passam mas aderem, são cores, manchas de calor e água, o cansaço que pensa é cérebro a se retroalimentar.

Deus é presença contínua, não se ausenta, não falta, os seus grãos vão passando, aderindo sem assoreamento, sem afogar a correnteza, sem interromper o fluxo, tornando mais e mais perceptível o cansaço, mas com a sutileza de um cansaço moral que não se impõe como dor nem obstáculo pra fazer, a consciência é feita enquanto se faz.

Por óbvio, quarto arrumado, a pessoa que se deita para tirar a sua pestana só pode mesmo chamar-se Felícia ou Feliciano.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 25 de maio de 2023.

terça-feira, 23 de maio de 2023

A homenagem

 

A homenagem

 

No e-mail, a pessoa informa que nos conhecemos em uma escola, fomos convidados a falar a alunos sobre meio-ambiente e palestramos sobre as coisas do clima como poetas bem-humorados.

Faz anos que não cometo poemas, por isso não me recordo do que sequer palestrou àquelas alunas e àqueles alunos o tal bem-humorado que eu teria lá me apresentado.

A legenda da fotografia anexada identifica: exibindo, sorridentes, os nossos certificados, ladeamos a professora que nos convidara para o bate-papo com os estudantes.

Diante desta prova material, embora não guarde maiores detalhes do muito que realizei ao longo da vida, já fui gente certificada.

Como escassamente chegam os convites, sem estar em dívida com quem me procura até que eu seja encontrado, recuso-os.

Há quem se ofereça para comprar um exemplar dos meus livros; há os abusados que incluem outra cópia, autografada, para a biblioteca ꟷ mas respondo com firmeza a quem me assedie: não se empolgue.

Pelo visto, eu era um camarada animado, aceitava tudo de primeira, até conversar sobre reciclagem e compostagem do lixo.

Se me faltava conhecimento, fazia gracinhas. Com as informações que houvera pesquisado, pra arejar o ambiente, eu brincava.

Fazendo rir, achava que conseguia convencer que o entretenimento não era um disfarce, era um jeito de passar o tempo de modo divertido.

Eu acreditava, como ainda hoje eu acredito, que a informalidade me ajudava a suportar minha timidez e a minha insegurança.

Eu atuava e minha espontaneidade era um truque para envolver as pessoas. Eu improvisava e me enrolava, mas despistava, queria o riso, pois, embora surgissem incoerências e contradições, as pessoas não duvidavam que aprendiam sem dor enquanto riam.

Improvisação é instrumento para a surpresa, pois surpreender-se é produzir desvio, mudança de rumo, revisão, é retomada por ângulo não calculado. Surpreender-se é descobrir-se novo, fazer-se outro. E sem medir o próximo passo, coerente e alegre ao mesmo tempo, a pessoa que sabe rir de si é capaz de esconder-se a olhos vistos.

A partir da leitura deste e-mail inesperado, sinto que estou mudado, sinto-me livre de muitas daquelas ansiedades.

Hoje eu entendo que cada novo bate-papo era um palco que a mim era oferecido. E eu ocupava cada um deles com desembaraço porque gostava de estar no centro, me animava saber que eu era invejado por meu talento pra agir naturalmente.

Hoje não quero mais aquela confiança: fosse qual fosse a situação, eu perseguia o apoio de quem interagia com alegria.

Frente às demandas do mundo, respondo-lhe:

“Caro confrade, para falar com sinceridade, preciso saber o que tem feito, os prêmios que anda recebendo, quais postagens têm provocado rebuliços.

“Por respeito, enviar-lhe-ei no prazo a devida homenagem.

“Ao poeta que salva o dia, um fraterno abraço”.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 23 de maio de 2023.

domingo, 21 de maio de 2023

A noite do sereno

 

A noite do sereno

 

Para diminuir meu cansaço, foi-me recomendado que mantivesse a tranquilidade por um dia, todo, as vinte e quatro horas, porém no último quarto, na madrugada, latidos na vizinhança me acordaram.

Como o cotidiano não se pauta somente por orientações razoáveis, sem nem pensar nisso, acordei, mas eu não precisei me acalmar.

Os cães latirem, algo banal, não foi o que me levou ao micro.

No computador tenho instalado um programa de monitoramento por câmera e a parte externa da casa pode ser vigiada.

Embora tivesse tomado uma sopa à noite e bebido um copo de leite quente pouco antes de deitar-me, o tumulto me atiçou à curiosidade.

Como as máquinas funcionavam, eu não estava às cegas.

Além dos muros, nenhum gatuno atrás dos limões verdes. No meio do quintal, nada de gatos assanhados. Na lavanderia, roupas pegavam a umidade da noite.

Só que os cães não paravam.

As câmeras da frente de casa também estavam ligadas.

Nas calçadas, ninguém. Sob a marquise do lado de lá, ninguém. Os automóveis, todos estacionados como sempre.

Por que latiam tanto?

De repente, escutei um barulho. Tinha alguma coisa no telhado.

Não tenho arma de fogo em casa, tenho telefone. Se fosse o caso, pediria que enviassem uma viatura. Queria não precisar que a polícia viesse, mas, de modo nenhum, eu bobearia. Como os cães do vizinho latiam sem parar, poderia realmente ter ladrão.

Fiz bem em não me afobar, porque as ações monitoradas contaram: de cima da casa, veio uma coruja; no chão, as garras da ave cravaram num rato.

Já coruja e rato sumirem limoeiro adentro, eu supus.

Com o desfecho, a cachorrada largou do escarcéu. Restabelecido o silêncio, deitei-me e eu logo adormeci.

A madrugada foi fria, mas eu estava bem aquecido; por acolchoado e meias e touquinha de lã, estava muito bem aquecido.

Dormi tranquilo. Não porque não sonhei com a caçada noturna, pois eu estava naturalmente calmo. Não precisei tomar remédios nem tomei outro copo de leite, nem mesmo morno, pois ter tido um dia em que as coisas transcorreram-se de modo sereno favoreceu a chegada rápida do sono.

Acredito que a tranquilidade possibilitou aquelas minhas boas horas de sono.

Pouco depois do café, quando fui verificar se o portão dos fundos do quintal ainda estava com o cadeado, foi que achei a cobra morta.

O mais estranho é que não acordei com o alvoroço dos cachorros, que deve ter acontecido, porque aquela matilha pequena, formada por três animais, sabia fazer uma barulheira e tanto.

Se a coruja atacou a cobra, aquele circo canino deve ter acontecido outra vez, mas, sem nenhum lamento, não fui acordado novamente.

Como despertei bem-disposto, atribuí à calmaria noturna do quintal, ao silêncio dos cães ou à cama quente ter conseguido dormir sem me sobressaltar com outra algazarra.

E foi pra ver nascer grama ou tiririca que cavei rasa a cova da cobra.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 21 de maio de 2023.

quinta-feira, 18 de maio de 2023

O foco

 

O foco

 

A apresentação dos eventos pode ser dada com o realismo do osso, que é o que dispõe ereta a cerviz, no epicentro do que é dito: na manhã de outono dessa cidade: à sombra, o friozinho; vinte graus ao sol.

Qual é a versão da mulher sobre o que teria feito?

Ela não punha em dúvida de que chegara a tempo. Embora o último sinal tivesse sido tocado, era imperativo que o seu filho entrasse.

Para que não acabasse atrasada pro trabalho, ela pediu ao inspetor que fosse permitida a entrada imediata do seu menino.

Ela insistiu pra que lhe dessem a permissão pra correr à sala porque haveria prova e seria uma injustiça o seu filho ficar com zero por causa daqueles cinco minutos.

Achando-se convincente, a mulher narrou que: houve um problema com o despertador, que não tocou na hora; houve um problema com o gás, cujo botijão achou de esvaziar bem na hora de ferver a água a ser usada para fazer o café; houve um problema com a partida elétrica do carro, justo no instante em que acabou ciente, pelos dígitos do celular, que avançaram os atrasos: dela pro trabalho, do filho pruma prova.

Certa de que estava no direito de apontar terceiros como culpados, a mulher disse que o problema não fora agravado por ela, uma vez que a sirene tocou antes do horário. Sem dúvida! Seu menino tinha o dever de fazer a prova, mas ninguém podia sacanear com ambos: o seu filho nunca faltava, nem mesmo tossindo; e ela jamais admitiria ser vista no papel de vítima, ainda mais num processo tão abjeto.

Contudo, o inspetor de alunos disse que: o relógio da escola estava certo; o portão foi fechado no momento certo; a mulher estava certa ao reclamar como um direito de seu filho tirar nota maior do que zero, mas qualquer valor acima de zero era dever do professor não atribuí-lo, nem a um aluno cujo atraso do dia de ontem deu-se porque o seu cachorro teve de ser levado às pressas a uma clínica, nem ao citado aluno que, realmente febril e mesmo tossindo, veio ao dia de prova, veio, portanto, para confirmar por atos seu envolvimento pessoal com o futuro, como cidadão que conhece e preza os preceitos da Constituição Federal, um dos quais assegura que todo mundo é igual perante a Lei.

Por deferência às regras, o funcionário disse que a mulher atrasada responsabilizava-se pela acusação de que o relógio da escola estaria adiantado em cinco minutos, mas que só responderia verbalmente pela dita acusação porque teria mesmo de passar pela leitura biométrica da sua chegada ao posto de trabalho, sofrendo desconto do ordenado de acordo com o tempo de atraso.

Para maior credulidade, desloquemos o nosso olhar para a porta de entrada dos alunos que estão atrasados, pois aí o encontramos: assim como consultava as suas redes trinta minutos antes da saída de casa, o carinha nem dá pelota pros vinte graus Celsius, bacana é o Papa do Casacão atendendo o telefone lá no Vaticano.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 18 de maio de 2023.

terça-feira, 16 de maio de 2023

Censura livre

 

Censura livre

 

Abro a porta e Dona Cremilda, “este presidente não me representa”, chega de zap aberto pra mostrar que o meme inteligente, que debocha no ponto justo, fala por ela.

Tenho paciência, mas paciência não é condescendência. Peço-lhe que diga por quais razões a imagem merece aprovação e publicidade. Faço-o, não por ter achado o meme, que associa uma pessoa de roupa laranja com a marca de certo refrigerante laranja, uma piada fácil, faço-o, pois cabe à Dona Cremilda falar o que pensa.

Ao vê-la contrariada, cujo semblante diz que pessoa inteligente não precisa que lhe expliquem a sacada de uma piada engraçada, confirmo o desembaraço: quando aguardam benevolência, ajo com a tolerância de quem ri por dentro.

Seria divertido se me negasse espirituoso no que digo, mas ser uma pessoa preconceituosa não é bonito, lindo é chatear quem aborrece.

Faz bem ser o chato; mesmo que não levite, eu sinto.

Meu método pra levitação é simples: tolero como favas contadas as características que as pessoas elegem pra diferenciá-las das demais.

Dona Cremilda segue algumas figurinhas das redes sociais, mas só troca mensagens com quem pensa a vida tal qual ela pensa.

Discricionária, Dona Cremilda tem consciência de que é preciso ser rigorosa com o critério. Ela acha correto compartilhar o que as estrelas escrevem na internet, mas, do que vê, ela aprova apenas o que é útil, o que sirva de ajuda, ou o mundo seria pior. Sem precisar ser inventado a cada post, a Terra tem que ser esse lugar menos terrível.

O mundo horroriza porque não é mais como foi nos idos da infância: lá, quem trabalhava fora era o pai; lá, sua mãe cuidava do dia a dia da casa; lá, na ausência do pai e da mãe, quem lhe devia obediência eram os seus irmãos mais novos. Poxa, a sua casa era o mundo.

Dona Cremilda compartilhar o meme da Fanta é seu direito, mas a mim me parece mais engraçado irritá-la.

Se Floriano, Vargas, Juscelino ou Collor estivessem na presidência, a senhora os julgaria como seus dignos representantes?

ꟷ Quem vive de passado é colecionador de selos.

Dona Cremilda, curtidas carimbam, são a sua chancela pra memes, fotos e opiniões. Páginas são álbuns, e a senhora vai preenchendo-os, seja por amor, seja por raiva.

ꟷ Minhas redes só têm figurinhas de valor acentuado, pois não vou na onda. Eu só cancelo quem tem mesmo de ser cancelado. Sigo quem tem verdades pra dizer. Porque as verdades incomodam quem espalha mentiras, acodem os bobinhos seduzidos pelos espertalhões, afastam da beira do abismo quem pensa que basta falar que honra pai e mãe pra honrá-los de fato.

Sou paciente, também tolerante, mas o complacente pisca gostoso, para que diga o sal da ojeriza.

ꟷ Agora diga se estou errada no que vejo: quem casou com a fulana aparecida foi esse danado de sapo. Mas, olhe direito. Se a ridicularizo pela foto, é porque a censura ainda é livre.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 16 de maio de 2023.

domingo, 14 de maio de 2023

A confissão

 

A confissão

 

Por estar com dor na mão direita, estou impedido de escrever. Com tempo pra pensar, penso na ociosidade.

Sem nada para fazer, a pessoa fique à vontade para ter ideias. Sem necessidade de que suas ideias formulem respostas aos problemas do mundo, pense espontaneamente. Aliás, ideias gratuitas não precisam ser aberrantes, porque ideias familiares satisfazem a alma ociosa tanto quanto os pensamentos mais severos. A quem não apraz render-se ao choque pelo choque, a liberdade sugere à mente entusiasmar-se com ângulos não usuais. Ou seja, libertar-se é revelar-se felizmente outro.

Assim, ao destro impossibilitado de redigir a lápis, a felicidade pode estar na digitação com o indicador canhoto. Digito, logo eu sou feliz por catar milho enquanto penso. Alegro-me por ter encontrado a superação da dificuldade: com o dedo indicador, digito letra a letra; com o polegar, dou espaço. Tecla a tecla, as palavras brotam na tela; todavia a crônica ganhar corpo não enche a minha pança porque a fome que sinto é fruto do desassossego. O que quero dizer com desajuste? Não temo que as ideias sucumbem na cachola, meu desapontamento é comigo, pois sou sagaz o bastante pra registrar apenas as últimas impressões, uma vez que as originais estão dobradas, emaranhadas, enoveladas. Angustio-me, pois o fio a ser puxado talvez nem resista se esticado. E angústias dão esse nó, o pânico da página em branco. Enfim, preciso me segurar da euforia, preciso dosar a confiança na razão, pois ela não se mantém o tempo todo no comando, como se manejasse minhas vontades com alguma autoridade inquestionável, e verdadeiramente justa. Por sabê-lo um pensamento ilusório, isso de crer que ideia puxar ideia possa me entreter, isso empaca. Comigo empacado, haja frustração.

Já o sol...

Como o sol nada tem de decepcionante, largo a escrita da crônica.

Saio do quarto, mantenho a porta aberta. Passo pela sala, ignoro a TV desligada. Deito-me na rede da varanda; não, não esqueci o micro ligado. Ligado, o computador que fique de prontidão.

De repente posso confiar que posso dar conta do que posso pensar de repente, porque, assim, a confiar de novo que posso acompanhar a correnteza da vida, posso cochilar de olhos abertos.

Há tanta gente na rua. Há tanta vida no esgoto do meio-fio. Há o sol que brilha sem saber de mim que estou me preparando para escrever a crônica. Na rua, há dois meninotes chutando uma bola de plástico; o que irrita alguns motoristas, que buzinam e xingam e querem, na real, é juntar-se aos garotos nessa alegria gratuita que é chutar bola no meio da rua, como se a vida não cobrasse da gente um pouco mais de vida, outra vida festiva, outra vida alegre, uma vida mais gostosa, e com refri ou sorvete, ou ambos.

Agora, a vida são crianças a chutar de primeira, a dar de letra, a dar de bico, a cabecear de olhos fechados.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 14 de maio de 2023.

quinta-feira, 11 de maio de 2023

Canoa furada

 

Canoa furada

 

Em pé numa escadinha, perco o equilíbrio porque pedem algumas palavras sobre a Rita Lee. Pelo enfoque, falar da morte da cantautora, faz sentido bater-me com o espanador. Mas só depois de reequilibrado é que me bato com o cabo; e uma batida basta pra constatar que estou mesmo desnorteado.

Pasmo de susto, justo eu que me asseguro que os arroubos sempre dão merda. Descontrolado, não hesito e me machuco. Exagero, e trago à pele o amor de fã. Logo quem odeia fanatismos, amo de paixão.

Não me envergonha o quanto dói a notícia.

Não fantasio. A dor lateja, pulsa, faz brotar a aflição. Meu corpo é a dor que aflige, e arrepia. O coração, a espinha, a cabeça, olhos, língua e ouvidos, estou mexido. Respiro com dificuldade. Com as dificuldades de pensar em pé na escadinha, ainda respiro.

Embarcado nessa canoa furada, remo rio acima e rio abaixo, a favor da correnteza, contra, remo porque remar é o meu jeito de lidar com a certeza da perda, com o ganho que possa ter. Remar é redimensionar-me. Não imagino: me afoga o que vivo; me afogo no que vivo. Faço da água a fonte, o rio, a canoa. E o que me faz vivo, eu experimento.

E essa, agora: viver é navegar numa escadinha?

Lutar para não cair, brigar para não afundar, batalhar pra subir, pirar pra ficar à linha d’água, beber da água, mijar n’água, sentar no degrau, descer um, descer outro, brigar para não pular, voltar a subir, pois sim: viver é manter-se de pé em uma escadinha.

Esta metáfora não é muito feliz; ela, no fundo, é ridícula.

Mas não é ridículo rir de si. Rir das próprias bobagens. Há situações que pedem o riso, que precisam do riso para serem melhor percebidas, para mais bem serem ingeridas, digeridas e excretadas.

Como diz Madame Lee: tudo vira bosta.

Orra meu! As coisas da vida, pepino e camarão; arroz e risoto; cerva e tubaína; uísque e cachaça; o pé-de-valsa e o rabo-de-saia; linho cru e a seda pura; bota e botina; o bocudo e o sisudo; carranca e pelanca; cocar e coqueiro; a cama e o sofá; ipê, saquê e a cana caiana; suruba e sururu; a mão amiga e a língua de sogra; o dente de alho e o olho de vidro; o dente de leite e a bala de prata; a colher de chá e a pá de cal; o papagaio do pirata e a mulher do padre, dão vida às coisas.

Faço festa. Acho bom me achar festivo. Ainda que a felicidade ande distante, difícil de vir, além do horizonte, nem que eu limpe a casa.

Não quero mais tirar o pó. Não quero saber dos livros empoeirados. Me desnorteio das palavras. Se os clichês falam da Rita Lee mutante, a mina maluca da Vila Mariana, puta, santa, a emponderada Santa Rita de Sampa, o meu discurso talvez constranja.

Criança distraída, nem noto que endosso os clichês que destacam, naquilo que todo mundo sabe, o que toda gente ama.

Então, carolas, caretas e cafonas podem xingar à vontade, mas eu não cancelo mais esta outra verdade, bem comum:

Rita Lee Jones virou pó; Rita Lee é para sempre.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 11 de maio de 2023.