terça-feira, 23 de maio de 2023

A homenagem

 

A homenagem

 

No e-mail, a pessoa informa que nos conhecemos em uma escola, fomos convidados a falar a alunos sobre meio-ambiente e palestramos sobre as coisas do clima como poetas bem-humorados.

Faz anos que não cometo poemas, por isso não me recordo do que sequer palestrou àquelas alunas e àqueles alunos o tal bem-humorado que eu teria lá me apresentado.

A legenda da fotografia anexada identifica: exibindo, sorridentes, os nossos certificados, ladeamos a professora que nos convidara para o bate-papo com os estudantes.

Diante desta prova material, embora não guarde maiores detalhes do muito que realizei ao longo da vida, já fui gente certificada.

Como escassamente chegam os convites, sem estar em dívida com quem me procura até que eu seja encontrado, recuso-os.

Há quem se ofereça para comprar um exemplar dos meus livros; há os abusados que incluem outra cópia, autografada, para a biblioteca ꟷ mas respondo com firmeza a quem me assedie: não se empolgue.

Pelo visto, eu era um camarada animado, aceitava tudo de primeira, até conversar sobre reciclagem e compostagem do lixo.

Se me faltava conhecimento, fazia gracinhas. Com as informações que houvera pesquisado, pra arejar o ambiente, eu brincava.

Fazendo rir, achava que conseguia convencer que o entretenimento não era um disfarce, era um jeito de passar o tempo de modo divertido.

Eu acreditava, como ainda hoje eu acredito, que a informalidade me ajudava a suportar minha timidez e a minha insegurança.

Eu atuava e minha espontaneidade era um truque para envolver as pessoas. Eu improvisava e me enrolava, mas despistava, queria o riso, pois, embora surgissem incoerências e contradições, as pessoas não duvidavam que aprendiam sem dor enquanto riam.

Improvisação é instrumento para a surpresa, pois surpreender-se é produzir desvio, mudança de rumo, revisão, é retomada por ângulo não calculado. Surpreender-se é descobrir-se novo, fazer-se outro. E sem medir o próximo passo, coerente e alegre ao mesmo tempo, a pessoa que sabe rir de si é capaz de esconder-se a olhos vistos.

A partir da leitura deste e-mail inesperado, sinto que estou mudado, sinto-me livre de muitas daquelas ansiedades.

Hoje eu entendo que cada novo bate-papo era um palco que a mim era oferecido. E eu ocupava cada um deles com desembaraço porque gostava de estar no centro, me animava saber que eu era invejado por meu talento pra agir naturalmente.

Hoje não quero mais aquela confiança: fosse qual fosse a situação, eu perseguia o apoio de quem interagia com alegria.

Frente às demandas do mundo, respondo-lhe:

“Caro confrade, para falar com sinceridade, preciso saber o que tem feito, os prêmios que anda recebendo, quais postagens têm provocado rebuliços.

“Por respeito, enviar-lhe-ei no prazo a devida homenagem.

“Ao poeta que salva o dia, um fraterno abraço”.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 23 de maio de 2023.

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