A
homenagem
No e-mail, a pessoa informa que nos
conhecemos em uma escola, fomos convidados a falar a alunos sobre meio-ambiente
e palestramos sobre as coisas do clima como poetas bem-humorados.
Faz anos que não cometo poemas, por isso
não me recordo do que sequer palestrou àquelas alunas e àqueles alunos o tal
bem-humorado que eu teria lá me apresentado.
A legenda da fotografia anexada
identifica: exibindo, sorridentes, os nossos certificados, ladeamos a
professora que nos convidara para o bate-papo com os estudantes.
Diante desta prova material, embora não
guarde maiores detalhes do muito que realizei ao longo da vida, já fui gente
certificada.
Como escassamente chegam os convites, sem
estar em dívida com quem me procura até que eu seja encontrado, recuso-os.
Há quem se ofereça para comprar um exemplar
dos meus livros; há os abusados que incluem outra cópia, autografada, para a
biblioteca ꟷ mas respondo com firmeza a quem me assedie: não se empolgue.
Pelo visto, eu era um camarada animado,
aceitava tudo de primeira, até conversar sobre reciclagem e compostagem do
lixo.
Se me faltava conhecimento, fazia
gracinhas. Com as informações que houvera pesquisado, pra arejar o ambiente, eu
brincava.
Fazendo rir, achava que conseguia convencer
que o entretenimento não era um disfarce, era um jeito de passar o tempo de modo
divertido.
Eu acreditava, como ainda hoje eu acredito,
que a informalidade me ajudava a suportar minha timidez e a minha insegurança.
Eu atuava e minha espontaneidade era um
truque para envolver as pessoas. Eu improvisava e me enrolava, mas despistava, queria
o riso, pois, embora surgissem incoerências e contradições, as pessoas não
duvidavam que aprendiam sem dor enquanto riam.
Improvisação é instrumento para a
surpresa, pois surpreender-se é produzir desvio, mudança de rumo, revisão, é retomada
por ângulo não calculado. Surpreender-se é descobrir-se novo, fazer-se outro. E
sem medir o próximo passo, coerente e alegre ao mesmo tempo, a pessoa que sabe
rir de si é capaz de esconder-se a olhos vistos.
A partir da leitura deste e-mail
inesperado, sinto que estou mudado, sinto-me livre de muitas daquelas
ansiedades.
Hoje eu entendo que cada novo bate-papo
era um palco que a mim era oferecido. E eu ocupava cada um deles com
desembaraço porque gostava de estar no centro, me animava saber que eu era
invejado por meu talento pra agir naturalmente.
Hoje não quero mais aquela confiança: fosse
qual fosse a situação, eu perseguia o apoio de quem interagia com alegria.
Frente às demandas do mundo,
respondo-lhe:
“Caro confrade, para falar com
sinceridade, preciso saber o que tem feito, os prêmios que anda recebendo, quais
postagens têm provocado rebuliços.
“Por respeito, enviar-lhe-ei no prazo a devida
homenagem.
“Ao poeta que salva o dia, um fraterno
abraço”.
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 23 de maio de 2023.
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