A
noite do sereno
Para diminuir meu cansaço, foi-me
recomendado que mantivesse a tranquilidade por um dia, todo, as vinte e quatro
horas, porém no último quarto, na madrugada, latidos na vizinhança me
acordaram.
Como o cotidiano não se pauta somente por
orientações razoáveis, sem nem pensar nisso, acordei, mas eu não precisei me acalmar.
Os cães latirem, algo banal, não foi o
que me levou ao micro.
No computador tenho instalado um
programa de monitoramento por câmera e a parte externa da casa pode ser vigiada.
Embora tivesse tomado uma sopa à noite e
bebido um copo de leite quente pouco antes de deitar-me, o tumulto me atiçou à
curiosidade.
Como as máquinas funcionavam, eu não
estava às cegas.
Além dos muros, nenhum gatuno atrás dos
limões verdes. No meio do quintal, nada de gatos assanhados. Na lavanderia,
roupas pegavam a umidade da noite.
Só que os cães não paravam.
As câmeras da frente de casa também estavam
ligadas.
Nas calçadas, ninguém. Sob a marquise do
lado de lá, ninguém. Os automóveis, todos estacionados como sempre.
Por que latiam tanto?
De repente, escutei um barulho. Tinha
alguma coisa no telhado.
Não tenho arma de fogo em casa, tenho
telefone. Se fosse o caso, pediria que enviassem uma viatura. Queria não precisar
que a polícia viesse, mas, de modo nenhum, eu bobearia. Como os cães do vizinho
latiam sem parar, poderia realmente ter ladrão.
Fiz bem em não me afobar, porque as ações
monitoradas contaram: de cima da casa, veio uma coruja; no chão, as garras da
ave cravaram num rato.
Já coruja e rato sumirem limoeiro
adentro, eu supus.
Com o desfecho, a cachorrada largou do escarcéu.
Restabelecido o silêncio, deitei-me e eu logo adormeci.
A madrugada foi fria, mas eu estava bem
aquecido; por acolchoado e meias e touquinha de lã, estava muito bem aquecido.
Dormi tranquilo. Não porque não sonhei
com a caçada noturna, pois eu estava naturalmente calmo. Não precisei tomar remédios
nem tomei outro copo de leite, nem mesmo morno, pois ter tido um dia em que as
coisas transcorreram-se de modo sereno favoreceu a chegada rápida do sono.
Acredito que a tranquilidade
possibilitou aquelas minhas boas horas de sono.
Pouco depois do café, quando fui verificar se o portão dos fundos do quintal ainda estava com o cadeado, foi que achei a cobra morta.
O mais estranho é que não acordei com o alvoroço
dos cachorros, que deve ter acontecido, porque aquela matilha pequena, formada
por três animais, sabia fazer uma barulheira e tanto.
Se a coruja atacou a cobra, aquele circo
canino deve ter acontecido outra vez, mas, sem nenhum lamento, não fui acordado
novamente.
Como despertei bem-disposto, atribuí à
calmaria noturna do quintal, ao silêncio dos cães ou à cama quente ter conseguido
dormir sem me sobressaltar com outra algazarra.
E foi pra ver nascer grama ou tiririca
que cavei rasa a cova da cobra.
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 21 de maio de 2023.
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