domingo, 21 de maio de 2023

A noite do sereno

 

A noite do sereno

 

Para diminuir meu cansaço, foi-me recomendado que mantivesse a tranquilidade por um dia, todo, as vinte e quatro horas, porém no último quarto, na madrugada, latidos na vizinhança me acordaram.

Como o cotidiano não se pauta somente por orientações razoáveis, sem nem pensar nisso, acordei, mas eu não precisei me acalmar.

Os cães latirem, algo banal, não foi o que me levou ao micro.

No computador tenho instalado um programa de monitoramento por câmera e a parte externa da casa pode ser vigiada.

Embora tivesse tomado uma sopa à noite e bebido um copo de leite quente pouco antes de deitar-me, o tumulto me atiçou à curiosidade.

Como as máquinas funcionavam, eu não estava às cegas.

Além dos muros, nenhum gatuno atrás dos limões verdes. No meio do quintal, nada de gatos assanhados. Na lavanderia, roupas pegavam a umidade da noite.

Só que os cães não paravam.

As câmeras da frente de casa também estavam ligadas.

Nas calçadas, ninguém. Sob a marquise do lado de lá, ninguém. Os automóveis, todos estacionados como sempre.

Por que latiam tanto?

De repente, escutei um barulho. Tinha alguma coisa no telhado.

Não tenho arma de fogo em casa, tenho telefone. Se fosse o caso, pediria que enviassem uma viatura. Queria não precisar que a polícia viesse, mas, de modo nenhum, eu bobearia. Como os cães do vizinho latiam sem parar, poderia realmente ter ladrão.

Fiz bem em não me afobar, porque as ações monitoradas contaram: de cima da casa, veio uma coruja; no chão, as garras da ave cravaram num rato.

Já coruja e rato sumirem limoeiro adentro, eu supus.

Com o desfecho, a cachorrada largou do escarcéu. Restabelecido o silêncio, deitei-me e eu logo adormeci.

A madrugada foi fria, mas eu estava bem aquecido; por acolchoado e meias e touquinha de lã, estava muito bem aquecido.

Dormi tranquilo. Não porque não sonhei com a caçada noturna, pois eu estava naturalmente calmo. Não precisei tomar remédios nem tomei outro copo de leite, nem mesmo morno, pois ter tido um dia em que as coisas transcorreram-se de modo sereno favoreceu a chegada rápida do sono.

Acredito que a tranquilidade possibilitou aquelas minhas boas horas de sono.

Pouco depois do café, quando fui verificar se o portão dos fundos do quintal ainda estava com o cadeado, foi que achei a cobra morta.

O mais estranho é que não acordei com o alvoroço dos cachorros, que deve ter acontecido, porque aquela matilha pequena, formada por três animais, sabia fazer uma barulheira e tanto.

Se a coruja atacou a cobra, aquele circo canino deve ter acontecido outra vez, mas, sem nenhum lamento, não fui acordado novamente.

Como despertei bem-disposto, atribuí à calmaria noturna do quintal, ao silêncio dos cães ou à cama quente ter conseguido dormir sem me sobressaltar com outra algazarra.

E foi pra ver nascer grama ou tiririca que cavei rasa a cova da cobra.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 21 de maio de 2023.

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