Zona
de conforto
Para entrar no quarto, a porta foi
aberta.
Como passara a manhã na rua, até se
esquecera dos motivos pelos quais tinha que deixar fechada aquela porta.
Se tivesse dado crédito à sensação de
que sair de novo seria o mais aconselhável pra lidar melhor com o momento, pois
um picolé sempre cai bem quando a mente parece que está pedindo uma lufadinha
de ar no rosto, uma boa caminhadinha à toa pelas alamedas do bairro, uma
paradinha na praça pra maravilhar-se com os passarinhos que pipilam, cantam e, cantando,
dizem que o mundo segue o seu curso.
Uma vez aberta a porta, percebe que não
valorizara a intuição que tivera: o melhor teria sido mesmo ter entrado no
quarto, não agora mas pela manhã, depois do café.
Se não tivesse saído pagar contas, em
vez de tomar o quarto como mais outro campo de tarefas infindáveis, poderia vencer
o esgotamento com um sorvetinho na praça.
Não que o raio caído tenha esvaziado o
cérebro, o pressentimento basta pras mangas morais serem arregaçadas, pra que o
cansaço não dê raiz a doença.
O cérebro conscientiza-se de que está
cansado enquanto trabalha, e limpa o chão do quarto. Tira as roupas do chão. Tira
o pó dos móveis. E varre o tapete, varre a flor de fiapinhos do tapete. Coloca
os tênis no armário. Faz uma nova pilha com os livros que não foram lidos. Monta
a pilha de livros que anda lendo antes de dormir; empilha-os no criado ao lado
da guarda da cama. Limpa o abajur. Consulta o celular, nega-se a responder as
mensagens. Limpa o celular. Cospe na tela e limpa. Varre o vão entre o tapete e
o criado. Tira o pó do anjinho de plástico acima da guarda da cama. Limpa a
Bíblia da Barsa. Limpa as imagens de Nossa Senhora de Fátima, Nossa Senhora de
Medjugorje e Nossa Senhora Aparecida. Limpa cada uma das contas do terço que
fica lado a lado com o anjinho que brilha no escuro.
Pleno de Deus em todo canto, por sombra
e luz, Deus não brota no quarto, não é saliva, é o ar que se sente na
respiração, que se respira.
Deus são os grãos de areia passando pelo
poroso da mente, porque a mente cansada acumula-se de Deus, que as fissuras não
Lhe barram a passagem, porque a mente cansada percebe a presença divina pela
continuidade dos grãos, que a luz divina faz-se calor, vira água, nuvens são o
rastro, o pensamento pipocando na mente, dão carne ao brilho, passam mas aderem,
são cores, manchas de calor e água, o cansaço que pensa é cérebro a se retroalimentar.
Deus é presença contínua, não se
ausenta, não falta, os seus grãos vão passando, aderindo sem assoreamento, sem
afogar a correnteza, sem interromper o fluxo, tornando mais e mais perceptível
o cansaço, mas com a sutileza de um cansaço moral que não se impõe como dor nem
obstáculo pra fazer, a consciência é feita enquanto se faz.
Por óbvio, quarto arrumado, a pessoa que
se deita para tirar a sua pestana só pode mesmo chamar-se Felícia ou Feliciano.
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 25 de maio de 2023.
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