quinta-feira, 11 de maio de 2023

Canoa furada

 

Canoa furada

 

Em pé numa escadinha, perco o equilíbrio porque pedem algumas palavras sobre a Rita Lee. Pelo enfoque, falar da morte da cantautora, faz sentido bater-me com o espanador. Mas só depois de reequilibrado é que me bato com o cabo; e uma batida basta pra constatar que estou mesmo desnorteado.

Pasmo de susto, justo eu que me asseguro que os arroubos sempre dão merda. Descontrolado, não hesito e me machuco. Exagero, e trago à pele o amor de fã. Logo quem odeia fanatismos, amo de paixão.

Não me envergonha o quanto dói a notícia.

Não fantasio. A dor lateja, pulsa, faz brotar a aflição. Meu corpo é a dor que aflige, e arrepia. O coração, a espinha, a cabeça, olhos, língua e ouvidos, estou mexido. Respiro com dificuldade. Com as dificuldades de pensar em pé na escadinha, ainda respiro.

Embarcado nessa canoa furada, remo rio acima e rio abaixo, a favor da correnteza, contra, remo porque remar é o meu jeito de lidar com a certeza da perda, com o ganho que possa ter. Remar é redimensionar-me. Não imagino: me afoga o que vivo; me afogo no que vivo. Faço da água a fonte, o rio, a canoa. E o que me faz vivo, eu experimento.

E essa, agora: viver é navegar numa escadinha?

Lutar para não cair, brigar para não afundar, batalhar pra subir, pirar pra ficar à linha d’água, beber da água, mijar n’água, sentar no degrau, descer um, descer outro, brigar para não pular, voltar a subir, pois sim: viver é manter-se de pé em uma escadinha.

Esta metáfora não é muito feliz; ela, no fundo, é ridícula.

Mas não é ridículo rir de si. Rir das próprias bobagens. Há situações que pedem o riso, que precisam do riso para serem melhor percebidas, para mais bem serem ingeridas, digeridas e excretadas.

Como diz Madame Lee: tudo vira bosta.

Orra meu! As coisas da vida, pepino e camarão; arroz e risoto; cerva e tubaína; uísque e cachaça; o pé-de-valsa e o rabo-de-saia; linho cru e a seda pura; bota e botina; o bocudo e o sisudo; carranca e pelanca; cocar e coqueiro; a cama e o sofá; ipê, saquê e a cana caiana; suruba e sururu; a mão amiga e a língua de sogra; o dente de alho e o olho de vidro; o dente de leite e a bala de prata; a colher de chá e a pá de cal; o papagaio do pirata e a mulher do padre, dão vida às coisas.

Faço festa. Acho bom me achar festivo. Ainda que a felicidade ande distante, difícil de vir, além do horizonte, nem que eu limpe a casa.

Não quero mais tirar o pó. Não quero saber dos livros empoeirados. Me desnorteio das palavras. Se os clichês falam da Rita Lee mutante, a mina maluca da Vila Mariana, puta, santa, a emponderada Santa Rita de Sampa, o meu discurso talvez constranja.

Criança distraída, nem noto que endosso os clichês que destacam, naquilo que todo mundo sabe, o que toda gente ama.

Então, carolas, caretas e cafonas podem xingar à vontade, mas eu não cancelo mais esta outra verdade, bem comum:

Rita Lee Jones virou pó; Rita Lee é para sempre.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 11 de maio de 2023.

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