Canoa
furada
Em pé numa escadinha, perco o equilíbrio
porque pedem algumas palavras sobre a Rita Lee. Pelo enfoque, falar da morte da
cantautora, faz sentido bater-me com o espanador. Mas só depois de
reequilibrado é que me bato com o cabo; e uma batida basta pra constatar que estou
mesmo desnorteado.
Pasmo de susto, justo eu que me asseguro
que os arroubos sempre dão merda. Descontrolado, não hesito e me machuco. Exagero,
e trago à pele o amor de fã. Logo quem odeia fanatismos, amo de paixão.
Não me envergonha o quanto dói a notícia.
Não fantasio. A dor lateja, pulsa, faz
brotar a aflição. Meu corpo é a dor que aflige, e arrepia. O coração, a
espinha, a cabeça, olhos, língua e ouvidos, estou mexido. Respiro com
dificuldade. Com as dificuldades de pensar em pé na escadinha, ainda respiro.
Embarcado nessa canoa furada, remo rio
acima e rio abaixo, a favor da correnteza, contra, remo porque remar é o meu
jeito de lidar com a certeza da perda, com o ganho que possa ter. Remar é redimensionar-me.
Não imagino: me afoga o que vivo; me afogo no que vivo. Faço da água a fonte, o
rio, a canoa. E o que me faz vivo, eu experimento.
E essa, agora: viver é navegar numa
escadinha?
Lutar para não cair, brigar para não
afundar, batalhar pra subir, pirar pra ficar à linha d’água, beber da água,
mijar n’água, sentar no degrau, descer um, descer outro, brigar para não pular,
voltar a subir, pois sim: viver é manter-se de pé em uma escadinha.
Esta metáfora não é muito feliz; ela, no
fundo, é ridícula.
Mas não é ridículo rir de si. Rir das
próprias bobagens. Há situações que pedem o riso, que precisam do riso para
serem melhor percebidas, para mais bem serem ingeridas, digeridas e excretadas.
Como diz Madame Lee: tudo vira bosta.
Orra meu! As coisas da vida, pepino e
camarão; arroz e risoto; cerva e tubaína; uísque e cachaça; o pé-de-valsa e o
rabo-de-saia; linho cru e a seda pura; bota e botina; o bocudo e o sisudo;
carranca e pelanca; cocar e coqueiro; a cama e o sofá; ipê, saquê e a cana
caiana; suruba e sururu; a mão amiga e a língua de sogra; o dente de alho e o
olho de vidro; o dente de leite e a bala de prata; a colher de chá e a pá de
cal; o papagaio do pirata e a mulher do padre, dão vida às coisas.
Faço festa. Acho bom me achar festivo. Ainda
que a felicidade ande distante, difícil de vir, além do horizonte, nem que eu
limpe a casa.
Não quero mais tirar o pó. Não quero
saber dos livros empoeirados. Me desnorteio das palavras. Se os clichês falam
da Rita Lee mutante, a mina maluca da Vila Mariana, puta, santa, a emponderada Santa
Rita de Sampa, o meu discurso talvez constranja.
Criança distraída, nem noto que endosso os
clichês que destacam, naquilo que todo mundo sabe, o que toda gente ama.
Então, carolas, caretas e cafonas podem
xingar à vontade, mas eu não cancelo mais esta outra verdade, bem comum:
Rita Lee Jones virou pó; Rita Lee é para
sempre.
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 11 de maio de 2023.
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