A
confissão
Por estar com dor na mão direita, estou
impedido de escrever. Com tempo pra pensar, penso na ociosidade.
Sem nada para fazer, a pessoa fique à
vontade para ter ideias. Sem necessidade de que suas ideias formulem respostas
aos problemas do mundo, pense espontaneamente. Aliás, ideias gratuitas não
precisam ser aberrantes, porque ideias familiares satisfazem a alma ociosa
tanto quanto os pensamentos mais severos. A quem não apraz render-se ao choque
pelo choque, a liberdade sugere à mente entusiasmar-se com ângulos não usuais. Ou
seja, libertar-se é revelar-se felizmente outro.
Assim, ao destro impossibilitado de
redigir a lápis, a felicidade pode estar na digitação com o indicador canhoto. Digito,
logo eu sou feliz por catar milho enquanto penso. Alegro-me por ter encontrado
a superação da dificuldade: com o dedo indicador, digito letra a letra; com o
polegar, dou espaço. Tecla a tecla, as palavras brotam na tela; todavia a crônica
ganhar corpo não enche a minha pança porque a fome que sinto é fruto do
desassossego. O que quero dizer com desajuste? Não temo que as ideias sucumbem
na cachola, meu desapontamento é comigo, pois sou sagaz o bastante pra registrar
apenas as últimas impressões, uma vez que as originais estão dobradas,
emaranhadas, enoveladas. Angustio-me, pois o fio a ser puxado talvez nem resista
se esticado. E angústias dão esse nó, o pânico da página em branco. Enfim,
preciso me segurar da euforia, preciso dosar a confiança na razão, pois ela não
se mantém o tempo todo no comando, como se manejasse minhas vontades com alguma
autoridade inquestionável, e verdadeiramente justa. Por sabê-lo um pensamento
ilusório, isso de crer que ideia puxar ideia possa me entreter, isso empaca.
Comigo empacado, haja frustração.
Já o sol...
Como o sol nada tem de decepcionante, largo
a escrita da crônica.
Saio do quarto, mantenho a porta aberta.
Passo pela sala, ignoro a TV desligada. Deito-me na rede da varanda; não, não
esqueci o micro ligado. Ligado, o computador que fique de prontidão.
De repente posso confiar que posso dar
conta do que posso pensar de repente, porque, assim, a confiar de novo que
posso acompanhar a correnteza da vida, posso cochilar de olhos abertos.
Há tanta gente na rua. Há tanta vida no
esgoto do meio-fio. Há o sol que brilha sem saber de mim que estou me
preparando para escrever a crônica. Na rua, há dois meninotes chutando uma bola
de plástico; o que irrita alguns motoristas, que buzinam e xingam e querem, na
real, é juntar-se aos garotos nessa alegria gratuita que é chutar bola no meio
da rua, como se a vida não cobrasse da gente um pouco mais de vida, outra vida
festiva, outra vida alegre, uma vida mais gostosa, e com refri ou sorvete, ou
ambos.
Agora, a vida são crianças a chutar de
primeira, a dar de letra, a dar de bico, a cabecear de olhos fechados.
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 14 de maio de 2023.
Nenhum comentário:
Postar um comentário