domingo, 14 de maio de 2023

A confissão

 

A confissão

 

Por estar com dor na mão direita, estou impedido de escrever. Com tempo pra pensar, penso na ociosidade.

Sem nada para fazer, a pessoa fique à vontade para ter ideias. Sem necessidade de que suas ideias formulem respostas aos problemas do mundo, pense espontaneamente. Aliás, ideias gratuitas não precisam ser aberrantes, porque ideias familiares satisfazem a alma ociosa tanto quanto os pensamentos mais severos. A quem não apraz render-se ao choque pelo choque, a liberdade sugere à mente entusiasmar-se com ângulos não usuais. Ou seja, libertar-se é revelar-se felizmente outro.

Assim, ao destro impossibilitado de redigir a lápis, a felicidade pode estar na digitação com o indicador canhoto. Digito, logo eu sou feliz por catar milho enquanto penso. Alegro-me por ter encontrado a superação da dificuldade: com o dedo indicador, digito letra a letra; com o polegar, dou espaço. Tecla a tecla, as palavras brotam na tela; todavia a crônica ganhar corpo não enche a minha pança porque a fome que sinto é fruto do desassossego. O que quero dizer com desajuste? Não temo que as ideias sucumbem na cachola, meu desapontamento é comigo, pois sou sagaz o bastante pra registrar apenas as últimas impressões, uma vez que as originais estão dobradas, emaranhadas, enoveladas. Angustio-me, pois o fio a ser puxado talvez nem resista se esticado. E angústias dão esse nó, o pânico da página em branco. Enfim, preciso me segurar da euforia, preciso dosar a confiança na razão, pois ela não se mantém o tempo todo no comando, como se manejasse minhas vontades com alguma autoridade inquestionável, e verdadeiramente justa. Por sabê-lo um pensamento ilusório, isso de crer que ideia puxar ideia possa me entreter, isso empaca. Comigo empacado, haja frustração.

Já o sol...

Como o sol nada tem de decepcionante, largo a escrita da crônica.

Saio do quarto, mantenho a porta aberta. Passo pela sala, ignoro a TV desligada. Deito-me na rede da varanda; não, não esqueci o micro ligado. Ligado, o computador que fique de prontidão.

De repente posso confiar que posso dar conta do que posso pensar de repente, porque, assim, a confiar de novo que posso acompanhar a correnteza da vida, posso cochilar de olhos abertos.

Há tanta gente na rua. Há tanta vida no esgoto do meio-fio. Há o sol que brilha sem saber de mim que estou me preparando para escrever a crônica. Na rua, há dois meninotes chutando uma bola de plástico; o que irrita alguns motoristas, que buzinam e xingam e querem, na real, é juntar-se aos garotos nessa alegria gratuita que é chutar bola no meio da rua, como se a vida não cobrasse da gente um pouco mais de vida, outra vida festiva, outra vida alegre, uma vida mais gostosa, e com refri ou sorvete, ou ambos.

Agora, a vida são crianças a chutar de primeira, a dar de letra, a dar de bico, a cabecear de olhos fechados.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 14 de maio de 2023.

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