O
sol, o sal, o sim
Como pessoa a quem não se afiance
responsabilidade pelo que diz, tendo adiantado que só no sábado estaria livre
para vir, Luisinho veio na sexta-feira.
Soube que o fim de semana seria chuvoso
o tempo todo, antecipou a vinda.
Ele poderia ter avisado que chegaria
na hora do almoço, porque eu sequer havia preparado comida para mim.
Comeríamos salada. E beberíamos
groselha.
A mistura seria sardinha em conserva. Eu
abriria duas latas, porque meu amigo folgazão não chegou só. Acompanhava-o alguém
que julgo o mais racional dos meus amigos, Erasmo.
A vida toda Erasmo foi a vareta que é, e
com a sutileza elegante de Sócrates pra dar de calcanhar, ele cortou pro
quintal.
Fôssemos colher verduras, pois, se
resolvêssemos sentar-nos pro cafezinho, passaríamos a tarde a reviver fantasias.
É que, nas tartamudas leituras escolares,
nas empolgantes peladas de tênis feito trave e nos degradantes cartões
vermelhos às chacrinhas de coroinha, nós fomos meninos de turma.
E nossa patota era porreta.
Íamos comer biju na fecularia ainda que
a aula de religião fosse de prova. Deixávamos ruas às escuras com nossas
estilingadas certeiras. Uma vez que bem sabíamos que o éramos, éramos fogo.
Mais destrutivas eram as saúvas, porque elas
faziam a festa com a horta do quintal. Mas, o que fazer com as daninhas?
Sem economizar no sal grosso, que repeliu
de pronto as famélicas cortadeiras, Luisinho, Erasmo e eu cercamos os canteiros
de legumes, verduras e hortaliças.
E alface, tomate e cebola foram à mesa
como salada.
Luisinho acordou com barulho de água.
Tonto de tanto sonhar uma escapatória à
situação constrangedora, ele concluiu que a vizinha tinha deixado aberta alguma
torneira.
Mesmo que não fosse lavar roupa, ela
tinha o costume de encher o tanque para que o filho se divertisse um pouco, deixando
que enfiasse a cabeça na água, estimulando-o que, de fato, mergulhava no córrego
que serpenteia além das árvores do quintal.
Suado, preso no pesadelo de acompanhar
cada uma das bolinhas da loteria sendo cantadas a ele que tinha um lápis cuja
ponta quebrava tão logo se punha a anotar os números, Luisinho achou que
estivesse chovendo.
Erasmo cuspiu groselha no prato em que
comia: carvalho!
Para quem olha da varanda, o carvalho da
direita é uma goiabeira, o da esquerda é uma pereira; e bem no centro está o
abacateiro.
Disse que não vingou a macieira que
plantei na primavera passada: deu bicho nas folhas, fungo nas raízes e cupim no
tronco. Fui obrigado a pagar que a sacrificassem e a sua lenha serviu para uma
fogueira no último São João.
Depois de bebermos, comermos, rirmos,
chorarmos de tanto rir, nós três, o Luisinho, o Erasmo e esse que conta a você que
me lê e a quem você queira ler o que houve antes do sábado, nenhum fez segredo
do voto a ser dado no domingo:
ꟷ Pelo Estado Democrático de Direito,
sim!
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 02 de outubro de 2022.