domingo, 2 de outubro de 2022

O sol, o sal, o sim

 

O sol, o sal, o sim

 

Como pessoa a quem não se afiance responsabilidade pelo que diz, tendo adiantado que só no sábado estaria livre para vir, Luisinho veio na sexta-feira.

Soube que o fim de semana seria chuvoso o tempo todo, antecipou a vinda.

Ele poderia ter avisado que chegaria na hora do almoço, porque eu sequer havia preparado comida para mim.

Comeríamos salada. E beberíamos groselha.

A mistura seria sardinha em conserva. Eu abriria duas latas, porque meu amigo folgazão não chegou só. Acompanhava-o alguém que julgo o mais racional dos meus amigos, Erasmo.

A vida toda Erasmo foi a vareta que é, e com a sutileza elegante de Sócrates pra dar de calcanhar, ele cortou pro quintal.

Fôssemos colher verduras, pois, se resolvêssemos sentar-nos pro cafezinho, passaríamos a tarde a reviver fantasias.

É que, nas tartamudas leituras escolares, nas empolgantes peladas de tênis feito trave e nos degradantes cartões vermelhos às chacrinhas de coroinha, nós fomos meninos de turma.

E nossa patota era porreta.

Íamos comer biju na fecularia ainda que a aula de religião fosse de prova. Deixávamos ruas às escuras com nossas estilingadas certeiras. Uma vez que bem sabíamos que o éramos, éramos fogo.

Mais destrutivas eram as saúvas, porque elas faziam a festa com a horta do quintal. Mas, o que fazer com as daninhas?

Sem economizar no sal grosso, que repeliu de pronto as famélicas cortadeiras, Luisinho, Erasmo e eu cercamos os canteiros de legumes, verduras e hortaliças.

E alface, tomate e cebola foram à mesa como salada.

Luisinho acordou com barulho de água.

Tonto de tanto sonhar uma escapatória à situação constrangedora, ele concluiu que a vizinha tinha deixado aberta alguma torneira.

Mesmo que não fosse lavar roupa, ela tinha o costume de encher o tanque para que o filho se divertisse um pouco, deixando que enfiasse a cabeça na água, estimulando-o que, de fato, mergulhava no córrego que serpenteia além das árvores do quintal.

Suado, preso no pesadelo de acompanhar cada uma das bolinhas da loteria sendo cantadas a ele que tinha um lápis cuja ponta quebrava tão logo se punha a anotar os números, Luisinho achou que estivesse chovendo.

Erasmo cuspiu groselha no prato em que comia: carvalho!

Para quem olha da varanda, o carvalho da direita é uma goiabeira, o da esquerda é uma pereira; e bem no centro está o abacateiro.

Disse que não vingou a macieira que plantei na primavera passada: deu bicho nas folhas, fungo nas raízes e cupim no tronco. Fui obrigado a pagar que a sacrificassem e a sua lenha serviu para uma fogueira no último São João.

Depois de bebermos, comermos, rirmos, chorarmos de tanto rir, nós três, o Luisinho, o Erasmo e esse que conta a você que me lê e a quem você queira ler o que houve antes do sábado, nenhum fez segredo do voto a ser dado no domingo:

ꟷ Pelo Estado Democrático de Direito, sim!

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 02 de outubro de 2022.

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