quinta-feira, 15 de setembro de 2022

Em dose dupla

 

Em dose dupla

 

Além de bravas, Malena e Milena eram gêmeas.

Irmãs que não se desgrudavam, sempre que necessário, provavam que se amavam indiscutivelmente, não só nos álbuns da família.

No tempo em que eram moças normalistas em colégio mariano para meninas, resolveram viajar sozinhas. E fizeram rodar o automóvel que o papai comprou-lhes porque a ele alegrava bajulá-las.

E era um veículo potente, caro, trazido de Hamburgo por navio.

Não era segredo que o coronel tinha orgulho de gastar como queria, antes que o governo abocanhasse o dinheiro da venda de leite e queijo produzidos nas suas terras.

Certa feita, durante esse périplo pelo vale do Jequitinhonha, deram uma surra na primeira-dama de um lugarejo que jamais tinha visto um espetáculo tão grotesco, foram verdadeiramente furibundas.

Cidade serena, de arbustos podados, praças e ruas limpinhas, com um povo cuja gentileza pouco indicava ser capaz de revidar na mesma moeda. Só que o troco foi igualmente colérico, e patético, com o veículo das mocinhas atirado em esgoto, e dessa valeta pro ferro-velho.

Se ligaram o ventilador, que aguentassem o fedor.

Como ordem a ser cumprida imediatamente, a bocarra do mandrião fez valer que fosse passado o corretivo nos desrespeitosos do vilarejo, cujo nome provavelmente constava nos mapas, sobre os quais nunca passara os olhos, sequer ao ditar o castigo àqueles vilões.

Fazendeiro que não lia gráficos mas detonava fuças, o pai da dupla mandou queimar pastos, celeiros e peruzinhos carregados de alfafa. O porém é que fossem poupados pernas e braços, que só esmurrassem narizes, todos, os aduncos, aquilinos e até os esbeltos, pois era preciso cobrar àquela gente a bonomia, ao preço da causa justa.

Pagava mal os capangas, por que pedia lealdade acima de tudo?

Sim, cobrava dos cupinchas que mirassem nele a honra do sangue legitimado no sangue. Sem chalaças nem remorsos, pois o herdado ao pai do pai estava ao conforme do não escrito pelo que era sabido.

Sim, jagunço tinha que manter assegurado o silencioso do costume, ou sofreria as punições inevitáveis. Guardasse respeitosa distância do rio invisível, que aí corre a vida por segredos, degredos e vilanias.

Quem da bica bebe na taça a quem não bebe apõe desgraça?

Com a vingança, entusiasmou-se. Fortalecido, temido. Abrigado na hospitalidade energúmena, rechaçado a torto e a direito, ele sabia que não tinha inimigos à altura.

Se nada o fazia melhor, tudo o punha menos vulnerável.

Pra evitar que o amanhã chegasse sem que houvesse legado outro destino, desejava ter meninos que jamais fossem mimados pela gente boa do futuro.

Por esses outros frutos, mais almejou semeá-los.

Entretanto, dizem que o universo desconhece coincidências. Deve ser por isso que Melissa e Marissa vieram a ser gêmeas, e gêmeas em tudo, até nas gentilezas de gente boa.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 15 de setembro de 2022.


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