Em
dose dupla
Além de bravas, Malena e Milena eram
gêmeas.
Irmãs que não se desgrudavam, sempre que
necessário, provavam que se amavam indiscutivelmente, não só nos álbuns da
família.
No tempo em que eram moças normalistas em
colégio mariano para meninas, resolveram viajar sozinhas. E fizeram rodar o
automóvel que o papai comprou-lhes porque a ele alegrava bajulá-las.
E era um veículo potente, caro, trazido
de Hamburgo por navio.
Não era segredo que o coronel tinha orgulho
de gastar como queria, antes que o governo abocanhasse o dinheiro da venda de
leite e queijo produzidos nas suas terras.
Certa feita, durante esse périplo pelo
vale do Jequitinhonha, deram uma surra na primeira-dama de um lugarejo que jamais
tinha visto um espetáculo tão grotesco, foram verdadeiramente furibundas.
Cidade serena, de arbustos podados, praças
e ruas limpinhas, com um povo cuja gentileza pouco indicava ser capaz de revidar
na mesma moeda. Só que o troco foi igualmente colérico, e patético, com o
veículo das mocinhas atirado em esgoto, e dessa valeta pro ferro-velho.
Se ligaram o ventilador, que aguentassem
o fedor.
Como ordem a ser cumprida imediatamente,
a bocarra do mandrião fez valer que fosse passado o corretivo nos
desrespeitosos do vilarejo, cujo nome provavelmente constava nos mapas, sobre os
quais nunca passara os olhos, sequer ao ditar o castigo àqueles vilões.
Fazendeiro que não lia gráficos mas
detonava fuças, o pai da dupla mandou queimar pastos, celeiros e peruzinhos
carregados de alfafa. O porém é que fossem poupados pernas e braços, que só
esmurrassem narizes, todos, os aduncos, aquilinos e até os esbeltos, pois era
preciso cobrar àquela gente a bonomia, ao preço da causa justa.
Pagava mal os capangas, por que pedia
lealdade acima de tudo?
Sim, cobrava dos cupinchas que mirassem
nele a honra do sangue legitimado no sangue. Sem chalaças nem remorsos, pois o
herdado ao pai do pai estava ao conforme do não escrito pelo que era sabido.
Sim, jagunço tinha que manter assegurado
o silencioso do costume, ou sofreria as punições inevitáveis. Guardasse
respeitosa distância do rio invisível, que aí corre a vida por segredos,
degredos e vilanias.
Quem da bica bebe na taça a quem não
bebe apõe desgraça?
Com a vingança, entusiasmou-se. Fortalecido,
temido. Abrigado na hospitalidade energúmena, rechaçado a torto e a direito, ele
sabia que não tinha inimigos à altura.
Se nada o fazia melhor, tudo o punha menos
vulnerável.
Pra evitar que o amanhã chegasse sem que
houvesse legado outro destino, desejava ter meninos que jamais fossem mimados pela
gente boa do futuro.
Por esses outros frutos, mais almejou
semeá-los.
Entretanto, dizem que o universo
desconhece coincidências. Deve ser por isso que Melissa e Marissa vieram a ser gêmeas,
e gêmeas em tudo, até nas gentilezas de gente boa.
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 15 de setembro de 2022.
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