terça-feira, 20 de setembro de 2022

Juras de artista

 

Juras de artista

 

O telefone tocou logo cedo. Preocupada com o dia seguinte, Leonor não o desligara ao deitar-se. Uma vez que o filho estaria na cidade pro festival, o celular soando antes das sete não a sobressaltou.

Ele chegaria na hora do almoço.

Se não ousou avisá-la que não tiraria a pestana da tarde, pediu, se não desse trabalho, aquele frango que ninguém mais sabia fazer.

ꟷ Santo Cristo!

Fernando pensou que agradaria à mãe se pedisse o prato preferido da irmã, frango com batatas, pois foi o que comeram da última vez que almoçaram juntos.

Ela mordeu os lábios para não discutir pelo telefone, pois fazia vinte anos, desde o enterro de Juliana, que estiveram à mesa.

Quando soube que Juliana adoecera, Leonor ficou muito irritada.

A filha merecia era cinta, mas o tratamento estava num estágio em que havia náusea, fraqueza e não apenas aparência de gente doente. Ainda assim, deu-lhe a bronca que entendeu bem dada, daquelas com cobras e lagartos a um passo do imperdoável.

Outra vez Juliana ouviu calada, porque era um jeito de defender-se. Que soltassem o verbo, gritassem, xingassem, até trocassem sopapos. Fosse quem fosse no buchicho, ela nunca foi de altercações.

Confrontada com o silêncio, Leonor rangia os dentes.

Reconhecendo o ruído, imediatamente ele falou que estava sendo um baita sucesso a temporada em Minas, e contou que fazia três anos que a sua cambada circulava por Furnas.

E o herdeiro do circo disse que a turnê passou por Alfenas, Carmo do Rio Claro, Conceição da Aparecida, São João Batista do Glória, Boa Esperança, Muzambinho, Nepomuceno, Formiga, Três Pontas, Fama, Lavras e Varginha.

Sempre séria, a ela nem ocorreu fazer piada com o ET.

Leonor sabia que aquilo era mentira, coisa decorada, papo de quem procurou no Google. Seria verdade se tivesse vivido na realidade. Mas, ele teve a quem puxar, e como puxou.

Mesmo sem saber se também viriam os netos, faria brigadeiro.

E há tempos não passava horas na cozinha. Queria que as crianças comessem o quanto aguentassem. Ela experimentaria uma colherada, poria mais açúcar. Experimentaria outra, colocaria canela em pó. Para que os doces ficassem perfeitos, precisaria prová-los.

O que tivessem ouvido a seu respeito era reversível, porque o papel de avó quituteira poria abaixo o de megera rancorosa.

Não era ódio, raiva ou rancor. Sofria de amor em demasia.

Fernando não teve coragem de falar o que os seus netos faziam no circo. Ele sequer falou os nomes dos meninos.

Ela sabia que os gêmeos eram Flávio e Fábio, eram palhaços desde o berço, tinham os olhos verdes como o avô, eram loiros de quase dois metros, eram felizes na estrada, tinham no sangue a anarquia libertária dos artistas da família.

Ela também tinha laços com os rincões de Itália e Espanha, só não gostava de brigadeiros, quindins e algodão doce.

De fato, é pipoca que Leonor adora.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 20 de setembro de 2022.


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