domingo, 4 de setembro de 2022

O violão do Martins

 

O violão do Martins

 

À espera de que o bar fosse aberto, o freguês de todos os dias corre ajudar o dono a descer mercadorias do carro. Sorrindo, ele sabe quem é que sempre pede a primeira dose, a que é bebida de um gole só.

Encontrar o Martins bebendo sozinho é fácil, difícil é vê-lo tocando violão sem que esteja bêbado.

Discreto, ele vai ficando bêbado sem que os outros o percebam já alegrinho. Ainda que beba a metade de cada dose que peça, ninguém o valoriza pelo silêncio de gente que não abre a boca quando não tem nada de novo a acrescentar.

Quando pigarreia, ajeita-se na cadeira, penteia-se, acerta o chapéu, levanta-se, embora pare de repente porque é preciso ajeitar a peninha do chapeuzinho de feltro, nem parece um bêbado.

Se realmente estivesse bêbado, não sentiria que está transpirando mais que o normal. Em todo caso, lava o rosto antes de urinar.

Se evidentemente estivesse bêbado, não lembraria que traz lenços consigo. E quando passasse a usar os do bolso esquerdo, nem saberia mais que tem que se enxugar com o menos úmido.

Enxuga-se com o primeiro que acha nos bolsos.

Sóbrio ou embriagado, o Martins sempre tem muito cuidado com o chapeuzinho de feltro, porque ele se vangloria de ter sido presenteado por um alemão.

Uma vez, durante um dos jogos do mundial, antes de vê-lo bebendo cerveja como quem bebe ouro líquido, um louro de sotaque carregado falou que era seu fã.

Será sábio dar valor à cerveja que vai mijar dali a pouco?

Supostamente bêbado, aprumado o chapeuzinho bávaro, engolido outro dedo da cervejinha estupidamente pilsen, o Martins solta:

ꟷ Skol! Skol!

E dá gosto ver o Martins enchendo a boca quando resolve brindar, uma vez que ele nem desconfia que a língua de Hamlet não é a mesma dos comedores de joelho de porco.

Quanto o Martins aguenta beber?

Contam que o dono do boteco teria separado as garrafas que o seu freguês tão fiel bebeu. Especulam que quatro caixas foram empilhadas à parte. Especula-se que nem teria sido o recorde que o Martins bebera sozinho, uma vez que ele esvaziava garrafas sem a ajuda de ninguém, pois ai daquele que ousasse pedir-lhe um dedinho.

Saúde, Martins, saúde!

Mas, quando foi a última vez que o Martins apareceu?

Foi no dia de uma partida complicada, um clássico, um embate que começara antes do apito, com os torcedores se digladiando longe das câmeras que monitoram o centro.

E era o Martins de sempre, que ajudou a descarregar o carro, bebeu a sua pinga numa golada, pôs o violão atrás de si e foi bebendo cerveja como se aquele domingo estivesse fadado a ser igualzinho aos demais domingos.

Com o bar entupido, com gente em pé, o Martins teria ficado irritado quando insistiram que boteco é lugar para falatórios paralelos.

Uma vez desaparecido o dono, foi aberto o estojo do violão e foram achados santinhos, apenas santinhos de candidatas, sem nenhum pra presidente.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 04 de setembro de 2022.

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