quarta-feira, 7 de setembro de 2022

Ótimo ponto

 

Ótimo ponto

 

A mulher está vomitando.

Horas antes, para que o marido não faltasse à festa organizada por ela, foi preciso contar-lhe os preparativos.

Sem gastos excessivos ou vexatória escassez, que o churrasco não causasse frustrações ou chacotas, talvez uma leve invídia.

Desfeita a surpresa, ele não teria de preocupar-se com a carne e a bebida, teria de ajudar com a lista dos convidados.

Sem boca-livre, viriam apenas familiares. Mas só os parentes cujas relações, apesar das diferenças políticas, continuassem cordiais.

Tais primos e tios estão acostumados com avisos em cima da hora, quiçá um ou outro reclame um pouquinho. E para manter o charme de gente crítica, reclamará quem menos esquece as datas importantes da família.

Também insatisfeitos, porque longe dos celulares, os filhos poderão dormir mais tarde. Como outras crianças virão, que elas corram, pulem, gritem, estapeiem-se, que formem uma trupe com arestas passíveis de beijos curativos e esparadrapos protetores.

Quando a mente se debruçar sobre o estado das coisas, os espetos não serão limpos com o pensamento. Quando a farofinha estiver cheia de formigas, da picanha restará o celofane. Quando o dia seguinte soar o alarme de outro dia, latejará no cérebro a sua voz e não a dele.

Que não se perca que é do aniversariante, sempre dele, do palhaço paspalho pros filhos, do esposo embevecido de breja, jogador no truco da vida, é dele, deste sujeito que erra de raia no instante da inteligência sem astúcia, é dele a cartada vã, o blefe oco, o choque pelo choque, é dele a traição de não procurar alternativa à realidade.

Ao fim e ao cabo, sem arranhões profundos, que o lixo vá pra lixeira, as fotos às redes, e o buchicho dure somente o áudio de um zap.

Ora, o mundo é pau, é pedra, é a saliva que cola.

Como sabe que pode fazer o que não precisa pensar que seria bem capaz de fazer, por estar acostumado a não pensar direito quando está eufórico com a própria independência, ele dá no pé.

Se quem ama ficará pê da vida?

Se diz que ama, pois fique feliz de poder perdoar.

Quem censura toda embriaguez folgazã se decepciona?

Quando partir o último carro, o nosso homem de fala mais enrolada tomará lugar na última vaga. Porque dele é a vontade de curtir só mais um trago do cigarrinho sem filtro que sempre aparece. Porque nele se avolumará a ânsia de festejar com aquele uisquezinho que nunca falta. Porque o devolverão quando o dinheiro acabar, o cartão não passar e o leão de chácara tiver que descruzar aqueles braços musculosamente tatuados. Quando o automóvel voltar da última noitada, será dia.

Nem tanto ao sal nem tanto ao açúcar.

Há quem ache que os comprimidos pra dormir fazem efeito tão logo sejam ingeridos, daí que os abocanhem a mancheia? Ou será idiotice contar carneirinhos caindo no abismo?

Ora, ridículo é passar mal depois de ter bebido tubaína.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 07 de setembro de 2022.

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