quinta-feira, 22 de setembro de 2022

O espantalho

 

O espantalho

 

Vestido com a camisa do seu time, está na rua. Duas horas da tarde de mais um dia útil, por outra das tantas ruas da cidade, vai a esmo.

Percebe os olhares, tenta lê-los. Parecem aborrecidos.

Como se todo mundo estivesse incomodado com o tanto de serviço que se acumula em cima da mesa, ainda assim, toma sorvete.

Sairá do banco depois de acabá-lo. Comerá a casquinha. Lamberá os dedos. O guardanapo virará uma bolinha, arremessada a um metro e meio da lixeira. Errando feio, levantará pra jogar o lixo no cesto.

Cansaço mental é novidade que ninguém acalanta. Que chega aos poucos, sem fazer fanfarra, vai ganhando peso, tornando pesado o que não tem forma nem localização precisa.

Pra desanuviar-se, faz bem dar um rolê.

Como não fuma, rói a unha. Porque está cedo para cerveja, masca chiclete. É óbvio, faz bola. Gosta de tê-la feito. Pra estourá-la, faz outra. Desgruda do rosto os restos da bola. Cava caca da narina. Dá peteleco na bolota. Se não fuma, por que pigarreia? Não entende.

Passa pelo carrinho de pastel, e para.

Volta que nem pensa ao pedir um pastel frito na hora.

ꟷ De pizza acabou.

ꟷ Tem de carne?

Um menino joga um pedaço de pau. Um cachorro corre pegá-lo. O menino atira-o outra vez. O cachorro trá-lo de volta pro menino. O pau está babado. O cachorro late. O menino ri.

ꟷ Cara, você não tem uma nota menor?

ꟷ Me veja outro e inteire o troco com chiclete.

O homem com o dez às costas nem percebe que está rindo. Morde e ri. Rindo alto, o homem nem nota que está comendo de boca aberta. Ele mastiga enquanto ri. Espalhando farelos, ele gargalha.

ꟷ Também quero um copo de garapa.

ꟷ Pequeno, médio ou grande?

ꟷ O maior que tiver.

Olhando pro homem no carrinho de pastel, o menino atira outra vez o pau. O cachorro vai, pega e traz de volta o pedaço de pau.

O cão late. O homem ri. O menino gargalha.

A gargalhada do outro lado da rua faz com que a mãe corra pegar o menino. Mesmo no colo, o travesso ainda consegue atirar o pau para o cachorro ir pegá-lo mais uma vez. A mãe sequer sorri.

Ouvindo a mãe que ralha com o filho, o cão ignora o graveto atirado. Ele pula a mureta, e vem latindo pras bandas do barbudo.

O cachorro poderá atacá-lo? O homem para de gargalhar na hora.

Já que o homem cuida apenas da garapa com o pastel, o cachorro recua. Sem parar de latir, o bicho pula de volta pro quintal.

Que cara mais esquisita a dessa mulher!

O moço do carrinho não responde, pois está concentrado, tem que fritar os pastéis que as duas mulheres acabaram de pedir-lhe.

Na sua opinião, ele não fez nada de errado. Só achou engraçada a risada do menino. Como tem gente de mal com a vida. Então, a pessoa que está de bem com o mundo, então, ela não pode nem rir à toa?

Ninguém respondeu nem deixou de franzir a testa.

Dando-lhe os chicletes, o rapaz estranhou a camiseta.

De peito estufado, beija o escudo três vezes e tasca:

ꟷ Bá! Deus me livre de ser tricolor!

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 22 de setembro de 2022.

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