O
espantalho
Vestido com a camisa do seu time, está
na rua. Duas horas da tarde de mais um dia útil, por outra das tantas ruas da
cidade, vai a esmo.
Percebe os olhares, tenta lê-los. Parecem
aborrecidos.
Como se todo mundo estivesse incomodado
com o tanto de serviço que se acumula em cima da mesa, ainda assim, toma
sorvete.
Sairá do banco depois de acabá-lo.
Comerá a casquinha. Lamberá os dedos. O guardanapo virará uma bolinha,
arremessada a um metro e meio da lixeira. Errando feio, levantará pra jogar o
lixo no cesto.
Cansaço mental é novidade que ninguém
acalanta. Que chega aos poucos, sem fazer fanfarra, vai ganhando peso, tornando
pesado o que não tem forma nem localização precisa.
Pra desanuviar-se, faz bem dar um rolê.
Como não fuma, rói a unha. Porque está
cedo para cerveja, masca chiclete. É óbvio, faz bola. Gosta de tê-la feito. Pra
estourá-la, faz outra. Desgruda do rosto os restos da bola. Cava caca da narina.
Dá peteleco na bolota. Se não fuma, por que pigarreia? Não entende.
Passa pelo carrinho de pastel, e para.
Volta que nem pensa ao pedir um pastel
frito na hora.
ꟷ De pizza acabou.
ꟷ Tem de carne?
Um menino joga um pedaço de pau. Um
cachorro corre pegá-lo. O menino atira-o outra vez. O cachorro trá-lo de volta
pro menino. O pau está babado. O cachorro late. O menino ri.
ꟷ Cara, você não tem uma nota menor?
ꟷ Me veja outro e inteire o troco com
chiclete.
O homem com o dez às costas nem percebe
que está rindo. Morde e ri. Rindo alto, o homem nem nota que está comendo de
boca aberta. Ele mastiga enquanto ri. Espalhando farelos, ele gargalha.
ꟷ Também quero um copo de garapa.
ꟷ Pequeno, médio ou grande?
ꟷ O maior que tiver.
Olhando pro homem no carrinho de pastel,
o menino atira outra vez o pau. O cachorro vai, pega e traz de volta o pedaço
de pau.
O cão late. O homem ri. O menino
gargalha.
A gargalhada do outro lado da rua faz
com que a mãe corra pegar o menino. Mesmo no colo, o travesso ainda consegue
atirar o pau para o cachorro ir pegá-lo mais uma vez. A mãe sequer sorri.
Ouvindo a mãe que ralha com o filho, o cão
ignora o graveto atirado. Ele pula a mureta, e vem latindo pras bandas do barbudo.
O cachorro poderá atacá-lo? O homem para
de gargalhar na hora.
Já que o homem cuida apenas da garapa
com o pastel, o cachorro recua. Sem parar de latir, o bicho pula de volta pro
quintal.
Que cara mais esquisita a dessa mulher!
O moço do carrinho não responde, pois
está concentrado, tem que fritar os pastéis que as duas mulheres acabaram de
pedir-lhe.
Na sua opinião, ele não fez nada de
errado. Só achou engraçada a risada do menino. Como tem gente de mal com a vida.
Então, a pessoa que está de bem com o mundo, então, ela não pode nem rir à toa?
Ninguém respondeu nem deixou de franzir
a testa.
Dando-lhe os chicletes, o rapaz estranhou
a camiseta.
De peito estufado, beija o escudo três
vezes e tasca:
ꟷ Bá! Deus me livre de ser tricolor!
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 22 de setembro de 2022.
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