domingo, 11 de setembro de 2022

O pão da vida

 

O pão da vida

 

Dá uma dor de ouvido de madrugada, acho melhor pôr um chumaço de algodão pro ar gelado não aumentar o desconforto. Quando a dor é aguda, irrito-me. Desconfortavelmente irritado, ponho o mundo a esmo. Caçando briga com a pinga ou atiçando rato contra gato, nada de novo acontece sob o sol. Por óbvio, uma dor de ouvido calha-me como farpa se vou à toa na vida, feito folha seca ao sabor do vento.

Que os acontecimentos do dia levem-me pro lado que me for menos conveniente. Para que eu tire algum proveito do ócio imprevisto, que a minhoca sirva de isca a peixe com fome. Que a cada passo, meu olhar, eivado de banalidades, fisgue do cotidiano alguma notícia.

O mundo todo fala muito da grande dama dos chapéus que morreu. Também tenho tanto a dizer, mas resumo: rainha morta, rei posto.

Poderia retomar uma historieta que me propus dar em crônica, mas, por sobrarem em mim inspirações medíocres, engavetei-a.

No causo escondido na cômoda, há um casal que viaja pela Europa. Na vadiação de quinze dias de férias, Eleanor e Osbourne passam por Edimburgo, Dundee, Perth, Inverness, Stirling, Aberdeen e Glasgow.

Acrescento que a frustração do bom casal de americanos do Maine é não ter achado tempo para ir a Skye, pela birita maltada, e Ness, pelo fóssil do lago.

Para dar cabo à anedota, o marceneiro aposentado e a inveterada crocheteira andavam pelos arredores de Aberdeen como se vadiassem por Aberdeenshire. Avistando Balmoral num vetusto castelo qualquer, espiavam-no extasiados. Realmente tocados pela realeza da mansão, inventaram de pedir ajuda. Viram um lorde, não um aspone irrelevante da rainha. E esse descendente shakespeariano de sangue quente lhes vendeu uma autêntica caneca imperial, relíquia dos tempos de César.

Como narrativa chinfrim engavetada, acho ocioso desfrutá-la.

Ocioso mas ansiado, pois o dia não entedia.

Eleitor nervoso com a brasilidade do futuro, assumo o compromisso de trabalhar além das minhas necessidades de burguês. Incluo no voto o custo de dar esperança a quem pede por pão, reclama por casa, tem um cão que nem o chama de seu.

E digo que hoje é sábado e vem vindo um menino mais um cão.

E acho bom dizer que o guri vem latindo pro cachorro e o magricelo late de volta. Entendidos com a tarde mansa, estes bichos brincalhões vêm festivos. Um com outro, ambos inventam de viver em paz.

Ainda que um binóculo desconfie da ordem da calçada, o menino e o cão formam uma dupla bacana de ser acompanhada.

É notório: os olhos do décimo segundo andar põem em dúvida que o cão e o menino têm fome.

Mas dou vivas à vida.

E conto que uma senhora dá pão ao menino e a criança dá do pão àquele cãozinho.

E faço que é sábado e que o sábado não se faz de outro qualquer, pois são ridentes os dentes antes do domingo.

É imperioso que se diga que estou comovido, pois a vida, seguindo serena, dá de ser um riso solto.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 11 de setembro de 2022.


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