quinta-feira, 8 de setembro de 2022

Muito barulho

 

Muito barulho

 

No dia 07 de setembro de 1922, a Rádio Sociedade fez a primeira transmissão radiofônica no Brasil. Cem anos depois, não liguei o rádio, a TV, nem entrei na internet. Por um dia, recusei informações ao vivo, em cores, em língua castiça ou português rasgado.

Passei o feriado a explorar alguns papéis que encontrei numa caixa de papelão. Como havia me esquecido dela, não estava preparado pra avalanche de lembranças. Vi-me aturdido por recordações a cada folha impressa ou papelucho manuscrito.

Direto dos anos 80 do século 20, dei com o primeiro cartaz da Rádio FM Totó Ternura, 106,3 MHz. Era o anúncio de que a rádio comunitária entraria no ar no dia 25 de setembro, a partir das 19 horas.

E assim foi.

Em 1985, no dia 25 de setembro, que no Brasil é o Dia Nacional do Rádio, o transmissor da Totó Ternura foi ligado. Bem na hora da cadeia obrigatória de programação oficial da ditadura, a famigerada A Voz do Brasil, os ouvintes passaram a ter escolha.

As cifras furadas do Milagre ou um Clapton pirata em Berlim?

Pôr no ar essa gravação do guitarrista inglês foi de última hora, pois a programação da estreia teve de ser deixada de lado.

O debut seria ao vivo. E haveria a leitura de textos políticos sobre a democratização dos meios de comunicação de massa. Além de serem lidos poemas de poetas conhecidos, faríamos de improviso os nossos. Como passamos o número de um orelhão, as opiniões e recados dos ouvintes seriam lidos na íntegra. Sem nenhuma orientação partidária, comentaríamos a nossa primeiríssima experiência de falar diretamente com as pessoas.

Como rádio feita por estudantes, os equipamentos da Totó Ternura estavam instalados num quarto na moradia dos alunos da USP. A partir do último andar de um dos blocos do CRUSP, a Totó falava pra Cidade Universitária, pro Butantã, pra uma parte de Pinheiros.

Em outras palavras, não tínhamos estúdio com isolamento acústico, e éramos amadores até no microfone de gravador caseiro.

Que peninha!

E britadeiras fizeram o barulhão característico. E operários gritaram sem parar. E a água jorrou com força, porque não foi um cano mixuruca que deu problema, foi a tubulação de uma adutora.

Alguém viu um caminhão com uma antena esquisita. Ele veio e foi. Dali a pouco, voltou por outro caminho. E foi pela marginal. Finalmente, alguém leu DENTEL na lateral do lado do motorista.

DENTEL!

O governo teve coragem de mandar agentes da delegacia nacional de telecomunicações atrás da gente?

Alguém raciocinou: se o caminhão da DENTEL apareceu, não veio por acaso; se o cano estourou bem na hora da transmissão, não havia coincidência; era óbvio, nossos cartazes anunciando a estreia da rádio mexeram com as autoridades.

Outro aluno quis saber: era delegacia ou departamento nacional de telecomunicações?

Putz!

Pelo sim e pelo não, tiramos o Deus da Guitarra do ar.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 08 de setembro de 2022.

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