Muito
barulho
No dia 07 de setembro de 1922, a Rádio
Sociedade fez a primeira transmissão radiofônica no Brasil. Cem anos depois,
não liguei o rádio, a TV, nem entrei na internet. Por um dia, recusei
informações ao vivo, em cores, em língua castiça ou português rasgado.
Passei o feriado a explorar alguns papéis
que encontrei numa caixa de papelão. Como havia me esquecido dela, não estava
preparado pra avalanche de lembranças. Vi-me aturdido por recordações a cada
folha impressa ou papelucho manuscrito.
Direto dos anos 80 do século 20, dei com
o primeiro cartaz da Rádio FM Totó Ternura, 106,3 MHz. Era o anúncio de que a rádio
comunitária entraria no ar no dia 25 de setembro, a partir das 19 horas.
E assim foi.
Em 1985, no dia 25 de setembro, que no
Brasil é o Dia Nacional do Rádio, o transmissor da Totó Ternura foi ligado. Bem
na hora da cadeia obrigatória de programação oficial da ditadura, a famigerada A
Voz do Brasil, os ouvintes passaram a ter escolha.
As cifras furadas do Milagre ou um
Clapton pirata em Berlim?
Pôr no ar essa gravação do guitarrista
inglês foi de última hora, pois a programação da estreia teve de ser deixada de
lado.
O debut seria ao vivo. E haveria
a leitura de textos políticos sobre a democratização dos meios de comunicação
de massa. Além de serem lidos poemas de poetas conhecidos, faríamos de
improviso os nossos. Como passamos o número de um orelhão, as opiniões e recados
dos ouvintes seriam lidos na íntegra. Sem nenhuma orientação partidária,
comentaríamos a nossa primeiríssima experiência de falar diretamente com as
pessoas.
Como rádio feita por estudantes, os
equipamentos da Totó Ternura estavam instalados num quarto na moradia dos
alunos da USP. A partir do último andar de um dos blocos do CRUSP, a Totó
falava pra Cidade Universitária, pro Butantã, pra uma parte de Pinheiros.
Em outras palavras, não tínhamos estúdio
com isolamento acústico, e éramos amadores até no microfone de gravador caseiro.
Que peninha!
E britadeiras fizeram o barulhão característico.
E operários gritaram sem parar. E a água jorrou com força, porque não foi um
cano mixuruca que deu problema, foi a tubulação de uma adutora.
Alguém viu um caminhão com uma antena
esquisita. Ele veio e foi. Dali a pouco, voltou por outro caminho. E foi pela
marginal. Finalmente, alguém leu DENTEL na lateral do lado do motorista.
DENTEL!
O governo teve coragem de mandar agentes
da delegacia nacional de telecomunicações atrás da gente?
Alguém raciocinou: se o caminhão da
DENTEL apareceu, não veio por acaso; se o cano estourou bem na hora da
transmissão, não havia coincidência; era óbvio, nossos cartazes anunciando a
estreia da rádio mexeram com as autoridades.
Outro aluno quis saber: era delegacia ou
departamento nacional de telecomunicações?
Putz!
Pelo sim e pelo não, tiramos o Deus da
Guitarra do ar.
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 08 de setembro de 2022.
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