Laranja
à vista
Depois de ter virado a noite bebendo
vinho, quem diz que se lembra da mosca pousada na maçã não mente, imagina.
Como a maçã continua na fruteira mas a
mosca sumiu, é preferível omitir a lembrança ou supor fora da cena um sapo.
Se ninguém ouve coaxos, fale-se de
samambaia.
Haverá quem não molhe as suas plantinhas?
Tem quem goste tanto de planta que a
trata como gente. Cuida tão bem que conversa com avencas como se lhes
segredasse paixões. Mil vezes o coração arejado por muxoxos do que cravejado de
rancores.
E rancorosos arrancam o trigo, lamentam
manhãs sem pão, ralham que falte macarronada à mesa. Pôr sódio no joio é dar
joia ao ódio.
Mas joia, joinha mesmo, é ligar o rádio.
Dá pra mudar a estação quando a música
não agrada.
Dá pra dançar até a boquinha da garrafa.
Dá pra esquecer um pouco que o ano passa
voando.
Dá pra gostar de setembro, porque
setembro é o mês das flores.
Dá pra cantar avencas, ir a viveiros,
comprar samambaias.
Dá pra deixar pra amanhã o que tanto
aborrece.
Que amanhã o turrão continue turrão por outro
minutinho.
Que amanhã o bruto dê um murro no
espelho.
Que amanhã o chato vá ver quem está na
esquina.
No cruzamento da alameda com a avenida,
há automóveis que não precisam dobrar pra lá ou pra cá. Outros dobram, porque na
floricultura que fica na avenida dá pra pedir orquídeas, mas cravos, nunca.
Quem não dirige, vai de táxi ou pede
carona. O dinheiro é mais bem gasto com aulas. E quem aprende a podar vê vídeos
que indicam qual a melhor época pros cortes e informam quando colher os frutos.
Banzai, bonsai.
Se laranjeira num vaso dá frutas na sala
como árvore em pomar de fundo de quintal ou fazenda com pista de pouso, vou a pé
à quitanda.
Não guio carro, não piloto moto nem patino,
só que eu chego aonde laranjas são vendidas às dúzias, por peso, a dinheiro ou
no cartão.
Quando dá, caminho sem me preocupar com
cães que me seguem por razões que me são desconhecidas. Talvez porque eu seja
um cara simpático e não os tema. Quando um cão ou outro esteja sarnento, sou
forçado ao passa-fora previdente.
Às vezes espero a chuva diminuir, porque,
esforçando-me para não temer tombos, costumo escorregar uma vez ou outra.
No verão, ainda que o sol de rachar não me
parta ao meio, vou bem cedinho para poder escolher meia dúzia das laranjas mais
bonitas, mas da variedade em promoção. E eu sempre pago em dinheiro.
Sou vivo, tomo suco no almoço e na janta.
Se pensasse na saúde, sequer o adoçaria. Como eu acredito nas maravilhas que dizem
sobre vitamina C, tomo laranjada todos os dias.
Há tempos, nem me recordo se foi num
consultório médico, li que o corpo humano retém a quantidade de vitamina C que precisa,
a sobra sai na urina. Em outras palavras, tal substância tão necessária pra algo
de suma importância sai poucas horas depois da sua ingestão. Ela não dura mil
anos nem mesmo uma vida, muito menos cem anos.
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 01 de setembro de 2022.
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