quinta-feira, 1 de setembro de 2022

Laranja à vista

 

Laranja à vista

 

Depois de ter virado a noite bebendo vinho, quem diz que se lembra da mosca pousada na maçã não mente, imagina.

Como a maçã continua na fruteira mas a mosca sumiu, é preferível omitir a lembrança ou supor fora da cena um sapo.

Se ninguém ouve coaxos, fale-se de samambaia.

Haverá quem não molhe as suas plantinhas?

Tem quem goste tanto de planta que a trata como gente. Cuida tão bem que conversa com avencas como se lhes segredasse paixões. Mil vezes o coração arejado por muxoxos do que cravejado de rancores.

E rancorosos arrancam o trigo, lamentam manhãs sem pão, ralham que falte macarronada à mesa. Pôr sódio no joio é dar joia ao ódio.

Mas joia, joinha mesmo, é ligar o rádio.

Dá pra mudar a estação quando a música não agrada.

Dá pra dançar até a boquinha da garrafa.

Dá pra esquecer um pouco que o ano passa voando.

Dá pra gostar de setembro, porque setembro é o mês das flores.

Dá pra cantar avencas, ir a viveiros, comprar samambaias.

Dá pra deixar pra amanhã o que tanto aborrece.

Que amanhã o turrão continue turrão por outro minutinho.

Que amanhã o bruto dê um murro no espelho.

Que amanhã o chato vá ver quem está na esquina.

No cruzamento da alameda com a avenida, há automóveis que não precisam dobrar pra lá ou pra cá. Outros dobram, porque na floricultura que fica na avenida dá pra pedir orquídeas, mas cravos, nunca.

Quem não dirige, vai de táxi ou pede carona. O dinheiro é mais bem gasto com aulas. E quem aprende a podar vê vídeos que indicam qual a melhor época pros cortes e informam quando colher os frutos.

Banzai, bonsai.

Se laranjeira num vaso dá frutas na sala como árvore em pomar de fundo de quintal ou fazenda com pista de pouso, vou a pé à quitanda.

Não guio carro, não piloto moto nem patino, só que eu chego aonde laranjas são vendidas às dúzias, por peso, a dinheiro ou no cartão.

Quando dá, caminho sem me preocupar com cães que me seguem por razões que me são desconhecidas. Talvez porque eu seja um cara simpático e não os tema. Quando um cão ou outro esteja sarnento, sou forçado ao passa-fora previdente.

Às vezes espero a chuva diminuir, porque, esforçando-me para não temer tombos, costumo escorregar uma vez ou outra.

No verão, ainda que o sol de rachar não me parta ao meio, vou bem cedinho para poder escolher meia dúzia das laranjas mais bonitas, mas da variedade em promoção. E eu sempre pago em dinheiro.

Sou vivo, tomo suco no almoço e na janta. Se pensasse na saúde, sequer o adoçaria. Como eu acredito nas maravilhas que dizem sobre vitamina C, tomo laranjada todos os dias.

Há tempos, nem me recordo se foi num consultório médico, li que o corpo humano retém a quantidade de vitamina C que precisa, a sobra sai na urina. Em outras palavras, tal substância tão necessária pra algo de suma importância sai poucas horas depois da sua ingestão. Ela não dura mil anos nem mesmo uma vida, muito menos cem anos.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 01 de setembro de 2022.

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