terça-feira, 13 de setembro de 2022

O tempo passa

 

O tempo passa

 

Senhoras e senhores, a garoa é agora.

Ela não cai calma nem vem mansa, que isso é precipitação de quem se anima a dar espírito animal à natureza inteira. Sei não, acho mesmo espantoso esconjurar demônios de estalagmites.

Numa boa, a garoa cai à toa.

Os pingos vindos das nuvens vão caindo com uma regularidade que a minha mente, tão pragmática, não tem condições de dosar.

Ao ouvi-los algo barulhentos ao baterem no terreno, imagino que a água vá escorrendo pelas telhas, vá formando as gotas.

Pelos sons de certos impactos, separo balde de plástico e cerâmica do quintal. Dou crédito aos ouvidos, pois sei que o chão do lado de fora da janela do meu quarto não é de terra. Se divisasse os pingos batendo em outro material que não a cerâmica, eu estaria alucinando.

Reconheço o que ouço, pois garoa não é nenhuma novidade.

E essa queda me acalma.

E calminho, bem calminho, enfrento a dureza de outra jornada pelas veredas do mundo. Mesmo que me ofendam, não pretendo ofendê-las, pois às boas gentes que acho pelo caminho, a elas quero mostrar-me calmo, bem calminho.

Talião, Talião, não me apraz virar rapaz na multidão.

De repente, entre tantas outras, uma pessoa fala alto:

ꟷ Não tem ninguém que possa me atender?

Os pingos caindo, batendo no chão, entendo, a garoa é constante. Sei que poderia calcular o intervalo entre um pingo e outro, mas prefiro sentir o que a garoinha produz em mim. Quero dar paz ao espírito.

Quem há pouco falou alto, a tal pessoa fala alto outra vez:

ꟷ Dá pra alguém me atender logo?

Súbito, vejo nítido o quadro mental que cristalizo na calmaria.

A porta do corredor começou a bater de repente. De repente, nada. Foi quando o vento ficou mais forte que ela deu de bater intermitente.

Nem toda intermitência me desassossega, mas a da porta, sim.

De quando em quando, é isso que me fez sair da cama. Fui à porta, pus um calço e ela parou. Pois se não a calçasse, ela bateria, bateria, eu ficaria assaz irritado e perderia o restinho da noite, porque logo viria o momento de levantar e levantaria contrariado, aborrecido, querendo partir pra briga com quem a mim me dirigisse palavra.

Me virei, a tal pessoa era alguém que eu conhecia.

ꟷ Ninguém vai me atender?

Nem precisei me esforçar. Como sabia muito bem quem era, preferi pensar na porta batendo. O vento balançando a porta, fazendo-a bater sem alvoroço. E foi nisso que me concentrei.

E uma vez calçada a porta com um pedacinho dobrado de papelão, acho prazeroso ficar na cama. Mesmo que não durma de novo, a hora passa que eu nem vejo.

E pensar que algo tão simples produz um bem-estar que a princípio nem eu calculava que fosse possível.

Se não é besteira projetar o vento como corda retesada, mais besta é não tirar proveito dele passando.

Como relógio parado atrasa meio mundo, grita o chato:

ꟷ Que diabo!

Não, não. Nem o diabo é páreo pra tamanha concorrência.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 13 de setembro de 2022.


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