domingo, 25 de setembro de 2022

Fraco da ideia

 

Fraco da ideia

 

Durante o noticiário das quizílias que a muitos magoam, deixo sem som o telejornal. Por demais repetidas, as figurinhas de valor garantido fortalecem o que falam com a cara de gente honrada a carimbar futuros melhores, melhor ajustados às esperanças de quem não perde a ilusão de vivenciá-las em breve.

Assistindo a tão valorosos porta-vozes do combate contra verdades putativas, creio ridículo situar aleatórias as conexões protelatórias.

Chafurdaria nos pântanos da apatia se fugisse da responsabilidade de responder pelo que não faço, escuto-os, tanto que a eles interpreto que a mim nem me percebo leviano de tão gaiato.

De modo algum me arvoro um roteirista profissional, me entretenho a adivinhar com quais palavras tantos devotados representantes vão à ribalta enaltecer a minha vulgaridade de eleitor.

Democrata dado a calmarias em copo d’água, não espumo de raiva porque saliva quando é muita até engasga.

E uma algazarra me tira da poltrona. Pela fuzarca, ponho graça que acompanharei o que se desenrola com interesse maior do que sustento por patacoadas políticas. O cínico que espia TV não mofa de quizumba em quintal vizinho.

Ó balbúrdia que fulmina minhas maníacas risadas demoníacas, não fico pasmo quando bisbilhoto camaradas baderneiros, emudeço.

Não vi o patético havido, mas o soube depois.

O filho mais novo da casa ao lado caiu da árvore. Quis salvar o gato que miava desesperado, mas deu com o peito no tronco. Meninão que muitos consideram tapado e não astuto como a irmã de treze anos, ele buscou uma escada pra subir. Mereceria elogios se um abacate não o tivesse abalroado em pleno pulo.

Cáspite!

Com a batida da bunda no terreno e o berreiro histriônico do menino com o galo latejando na testa, mais do que previsível, o sumiço do gato era evidente.

E ninguém fala que o gato está sumido?

A mão amiga da mamãe ampara o meninote.

Alguém sabe onde o gato está escondido?

A lábia mui amiga da maninha diz sem dizer que o franzino rapazote não é pintinho nem frangote, é um galinho muito fracote.

Nisso, todo mundo corre atrás da galinha.

Que galinha?

Preocupado com o gato, o menino não viu galinha alguma.

Chocando ovos no ninho que fizera em um galho acima do gato que miava alucinado, a pobrezinha, a desvalida, tão agoniada com o gato que não parava de miar, a ignorada que sequer piava, esse bicho que espreitava por entre as folhas do abacateiro, pois foi essa fera que veio do nada.

Tendo voado para lá do muro, a galinha sem ovos de ouro tem valor pelo que bota. É por isso mesmo, caraca, que eles gritam atrás.

Sem disfarce, sucumbo ao disparate: sorrio.

Melancolicamente, observo que guardo pra mim o que tanto me faz sorridente.

O trapalhão passa num tropé. Penso, assim não digo:

ꟷ Ô imbecil, qual é a cor da galinha carijó quando foge?

Ele não capta o meu pensamento nem mesmo a galinha.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 25 de setembro de 2022.

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