Fraco
da ideia
Durante o noticiário das quizílias que a
muitos magoam, deixo sem som o telejornal. Por demais repetidas, as figurinhas de
valor garantido fortalecem o que falam com a cara de gente honrada a carimbar
futuros melhores, melhor ajustados às esperanças de quem não perde a ilusão de
vivenciá-las em breve.
Assistindo a tão valorosos porta-vozes do
combate contra verdades putativas, creio ridículo situar aleatórias as conexões
protelatórias.
Chafurdaria nos pântanos da apatia se fugisse
da responsabilidade de responder pelo que não faço, escuto-os, tanto que a eles
interpreto que a mim nem me percebo leviano de tão gaiato.
De modo algum me arvoro um roteirista
profissional, me entretenho a adivinhar com quais palavras tantos devotados representantes
vão à ribalta enaltecer a minha vulgaridade de eleitor.
Democrata dado a calmarias em copo
d’água, não espumo de raiva porque saliva quando é muita até engasga.
E uma algazarra me tira da poltrona. Pela
fuzarca, ponho graça que acompanharei o que se desenrola com interesse maior do
que sustento por patacoadas políticas. O cínico que espia TV não mofa de quizumba
em quintal vizinho.
Ó balbúrdia que fulmina minhas maníacas
risadas demoníacas, não fico pasmo quando bisbilhoto camaradas baderneiros, emudeço.
Não vi o patético havido, mas o soube
depois.
O filho mais novo da casa ao lado caiu da
árvore. Quis salvar o gato que miava desesperado, mas deu com o peito no tronco.
Meninão que muitos consideram tapado e não astuto como a irmã de treze anos, ele
buscou uma escada pra subir. Mereceria elogios se um abacate não o tivesse abalroado
em pleno pulo.
Cáspite!
Com a batida da bunda no terreno e o
berreiro histriônico do menino com o galo latejando na testa, mais do que
previsível, o sumiço do gato era evidente.
E ninguém fala que o gato está sumido?
A mão amiga da mamãe ampara o meninote.
Alguém sabe onde o gato está escondido?
A lábia mui amiga da maninha diz sem
dizer que o franzino rapazote não é pintinho nem frangote, é um galinho muito fracote.
Nisso, todo mundo corre atrás da
galinha.
Que galinha?
Preocupado com o gato, o menino não viu
galinha alguma.
Chocando ovos no ninho que fizera em um
galho acima do gato que miava alucinado, a pobrezinha, a desvalida, tão
agoniada com o gato que não parava de miar, a ignorada que sequer piava, esse bicho
que espreitava por entre as folhas do abacateiro, pois foi essa fera que veio do
nada.
Tendo voado para lá do muro, a galinha
sem ovos de ouro tem valor pelo que bota. É por isso mesmo, caraca, que eles gritam
atrás.
Sem disfarce, sucumbo ao disparate: sorrio.
Melancolicamente, observo que guardo pra
mim o que tanto me faz sorridente.
O trapalhão passa num tropé. Penso,
assim não digo:
ꟷ Ô imbecil, qual é a cor da galinha
carijó quando foge?
Ele não capta o meu pensamento nem mesmo
a galinha.
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 25 de setembro de 2022.
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