quinta-feira, 29 de setembro de 2022

A matilha

 

A matilha

 

ꟷ Mestre, tenho feito muita coisa legal pro mundo ficar bacana.

ꟷ Nem me diga, gafanhoto.

ꟷ Pois, eu digo. Quando chove, não ponho boné nem me recrimino se esqueci do guarda-chuva. Pois ando com água escorrendo da testa pro olho sem ligar para chuvinha prazenteira, que nem iria parar só por causa das minhas implicâncias.

ꟷ É gente boa quem aceita a natureza como ela é.

ꟷ Ando na chuva com gosto, mas desgosto de caminhão fumarento na subida do morro. Respeito quem puxa a fila, mas lerdo atrasa todo mundo em estrada sem faixa extra.

ꟷ Desespero de quem se apega a destino sem sentido.

ꟷ Lá bem do alto dá para medir morros, vales entranhados e pastos verdejantes. A minha alegria é saber que águas represadas não negam peixe a pirão, braseiro ou panela de pressão.

ꟷ Também se vê ciclistas que nem minhoca pelo chão.

ꟷ Mestre, a vida são ciclos. Nos dias de semeadura, não há messe. Sem dinheiro no bolso, não fico pelado como quem faz a nudez revelar modéstias. Coloco jornal cortado feito cédulas, encho a carteira até que fique parecida com o bojo estufado de leitoa a ponto de abate.

ꟷ Gafanhoto, cuidado, quando o salário é mínimo, que esse mínimo seja em notas de cinquenta, haja sessenta notas de cinquenta por mês, duas notas por dia, pelos trinta dias de todo mês, que fevereiro também tenha sessenta notas como os demais, e seja a mais nunca por menos, seja pela felicidade como bem lhe aprouver, meu justo aprendiz.

ꟷ Sim, aprendo com sabedoria, é sábio querer do bom e do melhor, até que a morte separe do espírito o que não seja carne.

ꟷ Cuidado, sábio que tanto aprende, o mundo é sujo.

ꟷ Que o mundo sujo se apresente como imundo inocente.

ꟷ Gafanhoto, sei tanto que até aprendo.

ꟷ Eu o defenderei. Blindado na lição, me fingirei convicto que tenho o que falta. Eu terei a vantagem de ostentar prestígio ao tê-lo como se fosse verdadeira honraria levar uma vida em tanto vantajosa.

ꟷ Gafanhoto, ninguém deixa rastro de lama no lamaçal.

ꟷ Mestre, gritarei para que o tirem do pântano.

ꟷ Mas grite que me tirem. Pois se o ignoram, insista.

ꟷ Não desistirei. E gritarei até que um cão comece a latir. E latirá e outro cão latirá e muitos cães latirão e haverá uma corrente do barulho e a madrugada será reconhecida pela cachorrada que não dorme.

ꟷ E haverá alvorada quando uma lâmpada for acesa no primeiro lar e outra residência terá mais uma lâmpada acesa e outra lâmpada será acesa em outra casa e muita gente temerá gatunos atiçando cachorros nos quintais, virão viaturas acionadas e, sem espantar quem ambiciona a gaita que lhes toca, a manhã será tecida por sereias desligadas.

ꟷ Deito cedo e saio antes que amanheça, ignoro o que late.

ꟷ Quem bebe leite e come pão é quem jamais defeca ouro.

ꟷ Mestre, existem madrugadores feitos de ouro?

ꟷ Pra que existem, isso eu bem sei.

ꟷ Eles escondem ossos?

ꟷ Cães! Sempre deixam tesouros na grama.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 29 de setembro de 2022.

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