O
violão do Martins
À espera de que o bar fosse aberto, o
freguês de todos os dias corre ajudar o dono a descer mercadorias do carro.
Sorrindo, ele sabe quem é que sempre pede a primeira dose, a que é bebida de um
gole só.
Encontrar o Martins bebendo sozinho é
fácil, difícil é vê-lo tocando violão sem que esteja bêbado.
Discreto, ele vai ficando bêbado sem que
os outros o percebam já alegrinho. Ainda que beba a metade de cada dose que
peça, ninguém o valoriza pelo silêncio de gente que não abre a boca quando não
tem nada de novo a acrescentar.
Quando pigarreia, ajeita-se na cadeira,
penteia-se, acerta o chapéu, levanta-se, embora pare de repente porque é
preciso ajeitar a peninha do chapeuzinho de feltro, nem parece um bêbado.
Se realmente estivesse bêbado, não
sentiria que está transpirando mais que o normal. Em todo caso, lava o rosto
antes de urinar.
Se evidentemente estivesse bêbado, não
lembraria que traz lenços consigo. E quando passasse a usar os do bolso
esquerdo, nem saberia mais que tem que se enxugar com o menos úmido.
Enxuga-se com o primeiro que acha nos
bolsos.
Sóbrio ou embriagado, o Martins sempre tem
muito cuidado com o chapeuzinho de feltro, porque ele se vangloria de ter sido presenteado
por um alemão.
Uma vez, durante um dos jogos do
mundial, antes de vê-lo bebendo cerveja como quem bebe ouro líquido, um louro de
sotaque carregado falou que era seu fã.
Será sábio dar valor à cerveja que vai
mijar dali a pouco?
Supostamente bêbado, aprumado o chapeuzinho
bávaro, engolido outro dedo da cervejinha estupidamente pilsen, o Martins
solta:
ꟷ Skol! Skol!
E dá gosto ver o Martins enchendo a boca
quando resolve brindar, uma vez que ele nem desconfia que a língua de Hamlet não
é a mesma dos comedores de joelho de porco.
Quanto o Martins aguenta beber?
Contam que o dono do boteco teria
separado as garrafas que o seu freguês tão fiel bebeu. Especulam que quatro
caixas foram empilhadas à parte. Especula-se que nem teria sido o recorde que o
Martins bebera sozinho, uma vez que ele esvaziava garrafas sem a ajuda de
ninguém, pois ai daquele que ousasse pedir-lhe um dedinho.
Saúde, Martins, saúde!
Mas, quando foi a última vez que o
Martins apareceu?
Foi no dia de uma partida complicada, um
clássico, um embate que começara antes do apito, com os torcedores se digladiando
longe das câmeras que monitoram o centro.
E era o Martins de sempre, que ajudou a
descarregar o carro, bebeu a sua pinga numa golada, pôs o violão atrás de si e
foi bebendo cerveja como se aquele domingo estivesse fadado a ser igualzinho aos
demais domingos.
Com o bar entupido, com gente em pé, o
Martins teria ficado irritado quando insistiram que boteco é lugar para falatórios
paralelos.
Uma vez desaparecido o dono, foi aberto o
estojo do violão e foram achados santinhos, apenas santinhos de candidatas, sem
nenhum pra presidente.
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 04 de setembro de 2022.