terça-feira, 16 de agosto de 2022

O leão do cafezinho

 

leão do cafezinho

 

Doutor Viola tomava café. Como sempre, de costas pra rua. Em pé, postura que adotou quando viera pra cidade há quarenta anos.

Menos aos domingos, vai diariamente àquela lanchonete. Gosta de tomar café depois do almoço. Aos sábados, na ida, paga seus boletos no caixa que nunca tem fila, porque fica dentro da loja de conveniência de um posto de gasolina.

Aquela era uma segunda-feira, ele caminhara devagar, fumara sem pressa, parara pra conversar de quando em quando. Mesmo com hora pra voltar ao escritório, fora lento.

Sentia-se bem, percebia que a caminhada não era boa somente pra digestão, era principalmente pra cabeça. Ainda que o aguardassem no escritório, gostava de pitar um cigarrinho enquanto andava. Como seria deselegante não opinar sobre os assuntos do dia, vivia parando.

Em pé, de costas pra rua, mais ouvindo do que falando, no lugar de sempre, ali estava a simpatia em pessoa: Viola, doutor e boa gente.

Fumava, mas soltava a fumaça pro alto. Sabia que muitos puxavam conversa porque o queriam irritado, pois conhecia expressões vulgares em muitas línguas. Não só brasileiras e italianas, diziam que era fluente em inglês, francês e alemão. Contudo, ninguém nunca o viu mandando às favas os chatos.

Às vésperas das eleições, surgiam sujeitos que tinham argumentos pra tudo. Se havia alguma guerra, estavam do lado errado. No caso de briga entre torcidas rivais, pediam cadeia imediata, apenas pros rivais. Já os salafrários, essa escumalha que rouba do povo, esses deveriam fritar em cadeira elétrica, com a conta cobrada à família dos safados.

O digníssimo era paciente, fumava em silêncio. As pessoas tinham muita coisa para falar, que falassem. Eram tantos os problemas que as incomodavam, imploravam que fossem resolvidos.

Achavam-no capaz de proezas além de suas condições de homem simples, outro eleitor frustrado com o voto sufragado.

Bradavam por façanhas? Fossem fustigar outra freguesia.

Ora, não há café que faça do reles cidadão um gênio demiurgo.

Como a infâmia enfraquece a reputação de quem se engrandece à honra, faz-se estrago permanente quando o difamado titubeia, na ação equivocada ou pela demora ao agir.

Há quatro anos, embora pensasse em não assumir a missão a ele atribuída como candidato, o doutor recorrera às cestas básicas quando deveria ter repassado os telefones de organizações humanitárias.

Antes, nas eleições anteriores ao mais recente pleito, o imprudente inebriou-se de vaidade, uma vez que o seu nome ganhou ruas, fez sala nas casas, hipnotizou juízos, conquistara corações.

Fruto legitimado da vasta família desta terra, seria pouco assediado pelos irmãos mendicantes se tivesse ceifado o joio de uma candidatura de fato inexistente.

Se tem quem peça recibo pelo cafezinho de cada dia?

Tem burro que não zurra quando bebe café.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 16 de agosto de 2022.

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