Urgente
urgentíssimo
Estou animado. E minha animação é decorrente
de um desejo que jamais imaginei que teria: quero escrever um roteiro.
Assumo a responsabilidade de preservar a
sobriedade. Não quero virar personagem que se mete como se tivesse o direito de
dirigir o que se há para contar. A história é minha, logo não desistirei de
contá-la do jeito que é meu dever de contá-la. Não vou me entusiasmar a ponto
de perder o foco. Direi apenas o que tenho a dizer, mais nada.
Feitas as devidas ressalvas, antes que a
realidade conseguisse me ludibriar, já que estou bastante seguro da minha
determinação pra agir dando pulso firme ao comando, digo que o mundo não me
convence a esquecer qual o rumo da prosa que espero pegar.
Eu assistia a uma série sem outra
disposição que não fosse passar o tempo depois de outra jornada fatigante
contra os infortúnios do dia, quando o assassino disse algo que me foi surpreendente.
No ápice da tensão, livrando-se das tibiezas que o apequenariam, o facínora disse
que o fracasso do ídolo motivou-o a tornar-se seu próprio ídolo.
É óbvio! Não é vilão quem não recua do repugnante,
é antagonista; e antagonistas são heróis negativos.
Tal ideia não me pegou de imediato, foi
preciso que a torneirinha do filtro quebrasse. Ela quebrou na minha mão. Acontece,
porque objetos de plástico acabam quebrando depois de anos de uso. Faz tempo, sim,
tanto que nem lembro se tive de trocá-la. Acho que a torneira que agora está quebrada
deve ser a mesma de quando o filtro foi comprado.
Minto; ou melhor, manipulo. E ajo assim
para dar coerência ao que evidentemente não tem nem um pingo de ilusionismo trapaceiro.
Uma torneira quebrar não me faz avaliar que
eventos fortuitos são obras do acaso. Penso que enxergar com lucidez não me
desmascara, pois me esforçar como tapeceiro amador é apenas outro truque.
Sim, amo conectar o que aparentemente
está solto. E o fio forte que me ajuda a fabricar o tecido do que digo é a
linha do pensamento.
E conto comigo para deixar de ser
odioso, outro procrastinador que não se envergonha de lidar mal com a
realidade.
Como me considero uma pessoa instruída
no amor às boas coisas da vida, escolho bem as palavras pra que o texto não me
contradiga.
O que topo fazer?
Com a torneira quebrada, usei uma concha
pra encher uma jarra, e perdi tempo. Deu vontade de tomar água da pia, todavia
não bebi.
Me recuso a beber água que vem da rua. Peraí!
Não é nada disso. Que bobagem! Água encanada vem da caixa. Mas a caixa d’água deve
estar suja. Nem sei quando foi a última vez que ela foi limpa.
E já que não me quis (como tampouco
agora me quero) tão odioso, tomo a seguinte decisão.
Como a convicção é uma dádiva a quem pode
transformar o mundo, como não posso ficar sem beber um litro e meio de água por
dia, peço que venham entregar um garrafão de água, mas que seja da mais pura e cristalina
fonte mineral.
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 25 de agosto de 2022.
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