Gente
fina
Dói-me a face direita do rosto, suplico
ao dentista que me atenda o quanto antes. Se a dor está de fato insuportável, que
eu vá agora. Sim, de fato, preciso ser encaixado assim que possível, porque sou
eu quem está sentindo esta dor terrível.
A radiografia mostra infecção. É
prescrito anti-inflamatório.
Fiz o certo, pois cabe a especialista dizer
qual é o problema.
Como a inflamação está acima da gengiva,
provavelmente causada pela friagem das madrugadas, e para que o dano seja sanado,
eu tome o remédio respeitando o intervalo entre os comprimidos e evite gelados
e comidas quentes.
ꟷ A dor sumirá de pronto.
Como prudência recomenda discrição, não
falo dos gargarejos com antissépticos alcoolicamente refrescantes depois das
refeições.
Ainda que tenha consciência de que
alívio é bom, não me vanglorio do abuso desta bondade.
ꟷ O estrago acabará em três dias.
Modesto, até porque ouvir elogios me
acabrunha, também não digo que a semana foi de maçã dolorida coberta por capuz
de blusa apesar dos trinta graus.
Já que as circunstâncias me fazem
sensível à cautela, lembro o que preza aos físicos: entre gelados e quentes, há
o morno.
Como a natureza visa ao equilíbrio, terei
paciência: entre extremos de prazeres e sofrimentos, o meridiano é um intervalo
de momentânea indiferença.
Mesmo que a sabedoria me falte, pela
desagradável experiência da dor, agradeço à termodinâmica por este princípio tão
simples. Sensato, compreendo que preciso suspender sopinhas e pudins ou
sofrerei.
ꟷ O retorno fica pro dia anteriormente
marcado.
O dentista fala devagar. Ele olha de
modo sereno enquanto fala, até parece que estuda o efeito da sua fala sobre
quem o escuta.
Penso que ele fala pausadamente para que
suas palavras ganhem um acentuado sentido moral. Desconfio que ele, só de
examinar minha boca, saiba que não dispenso goiabada depois do almoço. Ao
imaginá-lo me censurando por meus caprichos, não fico nada contente com sua
arrogância de gente sabichona.
Se açúcares fazem realmente um mal
danado, não o refutarei pelos conhecimentos que o orientam. Que ele viva
consciente e abstenha-se de um docinho. Quem sou eu pra criticar sua visão de
mundo, mas da minha dieta cuido eu, caramba.
Até porque não sou de comer com os olhos,
e já me é bastante bom um pedacinho mínimo. O que me satisfaz, entretanto, é
não dar com a língua nos dentes, pois não lhe conto que gosto tanto que almoço
duas vezes. E a cada prato lambido, ganho uma nesga de goiabada.
ꟷ Romeu e Julieta?
Como gente fina, elegante e muito
sincera não conta garganta nem com a faca e o queijo nas mãos, não me dói nada
fechar a matraca.
Não sou obrigado a reconhecer que ando
comendo além da conta. Sei, a minha barriga está uma bolinha. Mesmo fora do
peso ideal, não tenho cabeça pra balança desajustada. Tenho andado devagar pra
não passar mal de repente.
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 28 de agosto de 2022.
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