domingo, 28 de agosto de 2022

Gente fina

 

Gente fina

 

Dói-me a face direita do rosto, suplico ao dentista que me atenda o quanto antes. Se a dor está de fato insuportável, que eu vá agora. Sim, de fato, preciso ser encaixado assim que possível, porque sou eu quem está sentindo esta dor terrível.

A radiografia mostra infecção. É prescrito anti-inflamatório.

Fiz o certo, pois cabe a especialista dizer qual é o problema.

Como a inflamação está acima da gengiva, provavelmente causada pela friagem das madrugadas, e para que o dano seja sanado, eu tome o remédio respeitando o intervalo entre os comprimidos e evite gelados e comidas quentes.

ꟷ A dor sumirá de pronto.

Como prudência recomenda discrição, não falo dos gargarejos com antissépticos alcoolicamente refrescantes depois das refeições.

Ainda que tenha consciência de que alívio é bom, não me vanglorio do abuso desta bondade.

ꟷ O estrago acabará em três dias.

Modesto, até porque ouvir elogios me acabrunha, também não digo que a semana foi de maçã dolorida coberta por capuz de blusa apesar dos trinta graus.

Já que as circunstâncias me fazem sensível à cautela, lembro o que preza aos físicos: entre gelados e quentes, há o morno.

Como a natureza visa ao equilíbrio, terei paciência: entre extremos de prazeres e sofrimentos, o meridiano é um intervalo de momentânea indiferença.

Mesmo que a sabedoria me falte, pela desagradável experiência da dor, agradeço à termodinâmica por este princípio tão simples. Sensato, compreendo que preciso suspender sopinhas e pudins ou sofrerei.

ꟷ O retorno fica pro dia anteriormente marcado.

O dentista fala devagar. Ele olha de modo sereno enquanto fala, até parece que estuda o efeito da sua fala sobre quem o escuta.

Penso que ele fala pausadamente para que suas palavras ganhem um acentuado sentido moral. Desconfio que ele, só de examinar minha boca, saiba que não dispenso goiabada depois do almoço. Ao imaginá-lo me censurando por meus caprichos, não fico nada contente com sua arrogância de gente sabichona.

Se açúcares fazem realmente um mal danado, não o refutarei pelos conhecimentos que o orientam. Que ele viva consciente e abstenha-se de um docinho. Quem sou eu pra criticar sua visão de mundo, mas da minha dieta cuido eu, caramba.

Até porque não sou de comer com os olhos, e já me é bastante bom um pedacinho mínimo. O que me satisfaz, entretanto, é não dar com a língua nos dentes, pois não lhe conto que gosto tanto que almoço duas vezes. E a cada prato lambido, ganho uma nesga de goiabada.

ꟷ Romeu e Julieta?

Como gente fina, elegante e muito sincera não conta garganta nem com a faca e o queijo nas mãos, não me dói nada fechar a matraca.

Não sou obrigado a reconhecer que ando comendo além da conta. Sei, a minha barriga está uma bolinha. Mesmo fora do peso ideal, não tenho cabeça pra balança desajustada. Tenho andado devagar pra não passar mal de repente.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 28 de agosto de 2022.

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