Pestanas
ardentes
O homem que veio entregar o que comprei
pela internet usa crachá com foto e nome completo. Como não o reconheço, ele
diz que fomos colegas de escola. Vendo que continuo sem me lembrar dele, é o
nome da professora do terceiro ano primário que confirma que estivemos na mesma
classe em 1973.
Cinco décadas depois, ambos mudamos.
E a minha memória mudou para pior, porque
não guardo lembrança das vezes que teria ido à sua casa pra fazer trabalho em
grupo.
Eu era novo, bem novinho, tinha apenas nove
anos.
Assim tão criança, acho improvável que minha
mãe tenha permitido que andasse sozinho pela cidade, mas me convenço a não
corrigi-lo.
Trabalho em grupo no terceiro ano?
Naquela época, minha timidez era muito
grande. Eu não falava nas aulas. Mal erguia a cabeça. E quando olhava na
direção da professora, mirava um ponto na lousa. Mesmo que nada estivesse
escrito na lousa, me fixava na ideia de não ser constrangido a falar.
Pois eu não falaria aos demais alunos,
falaria à professora.
Muitos colegas falavam errado. Muitos da
turma faziam feio porque queriam responder primeiro. E a maioria vivia errando
as lições.
Sempre séria, a professora corrigia tudo.
Mesmo o menor dos erros lhe era estridente. E tudo merecia ser comentado de
modo sério, a voz firme, com gestos comedidos, os olhos nos olhos da gente.
Se todos tínhamos que tomar cuidado pra
não dar vexame, eu temia me afobar e passar vergonha na frente da classe.
Porque não admitia ser como eles, que cometiam erros bobos.
Eu não era como os outros. De jeito
nenhum faria besteira na frente de um bando de bobocas. Como era esperto, tinha
que manter os olhos no caderno ou o abismo me engoliria.
Era um cacoete, algo imediato que me tornaria
invisível.
Em vez de me interessar pelo que
acontecia na sala, escancarava a perturbação: cabisbaixo, eu desenhava.
Era natural. Não imaginava que fosse uma
atitude afrontosa.
Como sempre respeitei quem precisa ser
respeitado, não seria em criança que desafiaria uma professora.
Fui chamado a responder sobre o que nem
tinha ouvido.
Fiquei paralisado. Tinha que falar
alguma coisa, mas não qualquer coisa. Tinha que acertar. Nem poderia gaguejar. Queria
ter sumido.
Àquela vez, naquele distante ano de
1973, surpreendido rabiscando enquanto todo mundo prestava atenção na aula, a
professora pegou o caderno, viu o meu desenho e, mesmo que ainda estivesse
inacabado, recusou-se a exibi-lo à classe toda.
Quando acho que vou me sair bem, sou
desastroso.
Porque à minha porta veio bater esse
entregador de livros que nem sei dizer quem seja, só agora me recordo do
soberbo homenzinho de palitos por mim esboçado num caderno que não guardei.
Sem ninguém pra me reprimir, imploro que
compreendam:
ꟷ Senhoras e senhores, quem poderá acordar
no adulto tagarela a criança tartamuda que teima permanecer esmaecida?
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 23 de agosto de 2022.
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