terça-feira, 23 de agosto de 2022

Pestanas ardentes

 

Pestanas ardentes

 

O homem que veio entregar o que comprei pela internet usa crachá com foto e nome completo. Como não o reconheço, ele diz que fomos colegas de escola. Vendo que continuo sem me lembrar dele, é o nome da professora do terceiro ano primário que confirma que estivemos na mesma classe em 1973.

Cinco décadas depois, ambos mudamos.

E a minha memória mudou para pior, porque não guardo lembrança das vezes que teria ido à sua casa pra fazer trabalho em grupo.

Eu era novo, bem novinho, tinha apenas nove anos.

Assim tão criança, acho improvável que minha mãe tenha permitido que andasse sozinho pela cidade, mas me convenço a não corrigi-lo.

Trabalho em grupo no terceiro ano?

Naquela época, minha timidez era muito grande. Eu não falava nas aulas. Mal erguia a cabeça. E quando olhava na direção da professora, mirava um ponto na lousa. Mesmo que nada estivesse escrito na lousa, me fixava na ideia de não ser constrangido a falar.

Pois eu não falaria aos demais alunos, falaria à professora.

Muitos colegas falavam errado. Muitos da turma faziam feio porque queriam responder primeiro. E a maioria vivia errando as lições.

Sempre séria, a professora corrigia tudo. Mesmo o menor dos erros lhe era estridente. E tudo merecia ser comentado de modo sério, a voz firme, com gestos comedidos, os olhos nos olhos da gente.

Se todos tínhamos que tomar cuidado pra não dar vexame, eu temia me afobar e passar vergonha na frente da classe. Porque não admitia ser como eles, que cometiam erros bobos.

Eu não era como os outros. De jeito nenhum faria besteira na frente de um bando de bobocas. Como era esperto, tinha que manter os olhos no caderno ou o abismo me engoliria.

Era um cacoete, algo imediato que me tornaria invisível.

Em vez de me interessar pelo que acontecia na sala, escancarava a perturbação: cabisbaixo, eu desenhava.

Era natural. Não imaginava que fosse uma atitude afrontosa.

Como sempre respeitei quem precisa ser respeitado, não seria em criança que desafiaria uma professora.

Fui chamado a responder sobre o que nem tinha ouvido.

Fiquei paralisado. Tinha que falar alguma coisa, mas não qualquer coisa. Tinha que acertar. Nem poderia gaguejar. Queria ter sumido.

Àquela vez, naquele distante ano de 1973, surpreendido rabiscando enquanto todo mundo prestava atenção na aula, a professora pegou o caderno, viu o meu desenho e, mesmo que ainda estivesse inacabado, recusou-se a exibi-lo à classe toda.

Quando acho que vou me sair bem, sou desastroso.

Porque à minha porta veio bater esse entregador de livros que nem sei dizer quem seja, só agora me recordo do soberbo homenzinho de palitos por mim esboçado num caderno que não guardei.

Sem ninguém pra me reprimir, imploro que compreendam:

ꟷ Senhoras e senhores, quem poderá acordar no adulto tagarela a criança tartamuda que teima permanecer esmaecida?

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 23 de agosto de 2022.


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